domingo, 27 de Julho de 2014

Olha o balão!...

Algarve. Ia a passar e holofotes, fotógrafos, operadores de câmara, uma grua para tomada de vistas de cima, e uma multidão que procurava o melhor lugar junto a uma vedação ao longo do caminho. 
Que se passa? Perguntei a um dos operadores.
Que se passa? Vão passar os VIPS por essa passadeira vermelha, atrás da vedação. É a discoteca que vai abrir...
Bom, a noite e as férias ficam ganhas para quem assim se desunha para ver ao vivo as vedetas, ditas os VIPS,  que diariamente vêem nas telenovelas. E, ou muito me engano, ou em muito também fica explicada a situação deste país...
O pessoal o que gosta é de olhar para o balão.  

sábado, 26 de Julho de 2014

O "Trombalazanas"

A memória do Sr. Alípio abriu a torrente de outras lembranças (um acumulado que traz à consciência o tempo que efetivamente passou...). Personagens que as circunstâncias da vida nos colocaram pela frente e que nos marcaram de uma forma ou de outra.
Recordei-me daquele que era conhecido por "Trombalazanas". Funcionário de um serviço público que se dedicava a assuntos da lavoura (com então se dizia), era um fervoroso católico e militante de não sei quantos movimentos que se dedicavam ao bem comum. Mas senhor de um feitio terrível, incapaz de um sorriso mesmo quando à sua volta se desatava justificadamente à gargalhada.
A antipatia que gerava a sua permanente arrogância, encontrava, porém, um quase paradoxal paralelo na admiração quase geral que grangeava. Era uma espécie de guardião da moral pública, pois no jornal mais lido por aqueles lados seviciava sem dó nem piedade os que considerava venais, designadamente os que julgava como "escravos da porca da política".
Foram poucos os notáveis de então que escaparam à sua prosa acusatória, brutal como a sua fisionomia, despida de qualquer ironia. Em nome da moral pública julgava tudo e todos. E todos lho consentiam, em especial os visados que não reagiam à violência como seria de esperar (não me lembro de se ter falado num só processo judicial contra ele). Para além disso, nas mesas de café como nas conversas de família, os textos eram motivo de uma geral aprovação, como se naquela comunidade o personagem desempenhasse o papel indispensável de polícia dos costumes e das consciências para que especialmente o credenciava aquele rosto sempre fechado e a total ausência de piedade para com o mais ligeiro pecado ou falha de quem exercia poder.
Até que um dia um sacerdote, homem em tudo desigual do personagem exceto na fé, sabe-se lá porquê resolveu recordar no mesmo jornal responsabilidades públicas já esquecidas que envolviam o técnico agrícola que se apresentava como engenheiro. Sim, da política passada e já esquecida porque a memória coletiva é, de facto, muito volátil. Eram referências a pequenos escândalos, é certo. Mas impróprios de um guardião da ética e da moral pública. Nesse mesmo dia vaporizou-se a superioridade do "Trombalazanas" que passou a ser encarado por ali simplesmente como o trombalazanas que nunca deixaria de ser. Ao ponto de...  não, não conto mais, ou ainda dizem que, como no caso do Sr. Alípio, me estou a inspirar em algum dos trombalazanas da atualidade.

sexta-feira, 25 de Julho de 2014

Contas Públicas em Junho: despesas com pessoal disparam - excelente!

1. A DG Orçamento divulgou na última 4ª Feira os dados da execução orçamental até Junho, dos quais se conclui que o défice das Administrações Públicas ascendeu a € 4.192 milhões, um valor superior em € 149,3 milhões ao verificado em igual período de 2013...quando se devia esperar um valor bem inferior.

2. Para este agravamento do défice contribuiu, com grande destaque, o comportamento das despesas com pessoal: enquanto até Maio registavam uma variação acumulada negativa de -4,3%, em Junho a variação acumulada não só muda de sinal como dá um enorme salto: +8,3%!

3. Trata-se mais propriamente de um fenómeno de explosão desta despesa do que de fenómeno de crescimento; fenómeno que, por certo, terá sido recebido com grande júbilo pelas hostes Crescimentistas pois se trata de um sinal inequívoco de que o Estado está de regresso à sua mais nobre função: Provedor da Actividade Económica...

4. ...injectando mais dinheiro na economia, via salários das múltiplas funções públicas, vai ajudar as vendas de automóveis e de combustíveis, as viagens de férias, as compras de múltiplas gamas de electrodomésticos, a realização de festivais de música, etc, etc.

5. Se existe contrapartida produtiva para a injecção deste rendimento nos circuitos de consumo, isso pouco importa: o que realmente conta é animar a actividade, pois com isso se promove o emprego e o crescimento (?)...se ao mesmo tempo as importações dispararem e voltarmos a aumentar o endividamento externo...paciência, não se pode ter tudo...

6. De pouco valeu a continuação de um forte ritmo de crescimento da receita fiscal (+4,3%), com relevo para as receitas de IRS (+8,4%), do IVA (+3,8%) e, naturalmente, do Imposto sobre Veículos (+40,5%) – o aumento da despesa tudo levou à sua frente, provocando um forte agravamento do défice de Maio para Junho.

7. Há um aspecto que nos deve consolar: o facto desta explosão da despesa com pessoal estar revestida de um verniz constitucional impecável, sendo pois de uma legalidade a toda a prova – nós, contribuintes, vamos mais uma vez sofrer as consequências, certamente, mas a recordação desse toque precioso de constitucionalidade aliviará a nossa dor no momento das más notícias...

8. Apesar destas excelentes novas da explosão da despesa, cumpre reconhecer que há ainda um longo caminho a percorrer para reparar os danos causados por estes impenitentes neo-liberais no tecido do Estado Social e na Coesão Social e Territorial...

9. ...mas, para isso, deveremos colocar muitas esperanças nos misteriosos roteiros de crescimento que, por estes dias, nos estão sendo prometidos por talentosos políticos inspirados nos cenários de felicidade do nobre Dr. Pangloss...

quinta-feira, 24 de Julho de 2014

O senhor Alípio

De vez em vez lembro-me do Sr. Alípio. Foi há muitos anos, mas há coisas que o tempo não muda. Procurou-me para me constituir como seu advogado, pretendendo que o defendesse dos efeitos de um ato do chefe de uma repartição pública. O Sr. Alípio foi durante muito tempo personalidade respeitada na sua comunidade. Quando anos antes o conhecera, vivia bem, pode mesmo dizer-se que àquela escala era um homem rico e exercia um poder relevante enquanto provedor de instituições que distribuíam apoios e, decerto, alguns favores. No decorrer da conversa apercebi-me que o ato que indignava o Sr. Alípio e que o trouxera até mim, significava uma radical mudança de atitude do dirigente daquele serviço que durante anos e anos houvera condescendido com uma conduta pelo menos duvidosamente legal. Dei-lhe a minha opinião que aceitou sem grande resistência. Apenas um "não se pode mesmo fazer nada, não é?". Antes das despedidas, e para minimizar o desconforto, prolonguei um pouco mais o encontro e perguntei-lhe: "Mas diga-me cá, Sr. Alípio, porquê agora esta perseguição, como o senhor lhe chama?". Ao que me respondeu: "Oh, o senhor dr. é muito novo, mas vai ver muito disto pela vida fora. Enquanto pude empregar as filhas, esteve sempre tudo bem. Sabe, eu agora não emprego ninguém. E para piorar tudo, com a doença da minha mulher, deixei passar o natal e não mandei o presente do costume".

terça-feira, 22 de Julho de 2014

Contas externas até Maio: "mixed news"

1. Foi ontem notícia (Boletim Estatístico do BdeP, de Julho) o agravamento do défice da Balança Corrente, nos primeiros 5 meses do ano em relação a igual período de 2013: de - € 484 milhões em 2013 para - € 1.225 milhões em 2014.

2. Esse agravamento, de € 741 milhões, ficou a dever-se ao desempenho de duas rubricas:

- O défice da Balança de Bens, que passou de € 2.466 milhões em 2013 para € 3.100 milhões em 2014 – estamos a gastar mais, nada de surpresas...

- O saldo positivo das Transferências Públicas (com a UE) , que passou de € 427 milhões em 2013 para € 253 milhões em 2014 (pode ser uma queda temporária)

3. Um dado curioso consiste na estagnação do excedente da Balança de Serviços, para o qual se esperava um claro aumento, em função da melhoria registada na rubrica de Viagens e Turismo - cujo superavit aumentou bastante (mais 13,25%, de € 1.674 milhões em 2013 para € 1.896 milhões em 2014) – a qual foi todavia e em boa parte compensada por um pior desempenho da rubrica “Outros Serviços Fornecidos por Empresas”, cujo excedente baixou de € 471 milhões em 2013 para € 319 milhões em 2014.

4. Relativamente à Balança de Capital, o saldo continua naturalmente positivo, de € 1.267 milhões, mas algo inferior ao verificado em 2013, que foi de € 1.368 milhões.

5. Adicionando os saldos das Balanças Corrente e de Capital obtém-se até Maio de 2014 um pequeno excedente, de € 42 milhões, bastante inferior ao que se verificava no mesmo período de 2013 (€ 884 milhões).

6. Em conclusão, e mais uma vez, poder-se-á afirmar que em 2014 voltaremos certamente a apresentar excedente nas contas com o exterior, mas, muito provavelmente, com uma expressão inferior à registada em 2013: se estamos a gastar mais, não podemos estranhar esta evolução...

7....apesar de ser cada vez mais notória, nas hostes crescimentistas, a ambição de uma urgente retoma de hábitos de despesa muito mais ousados (sobretudo por parte do Estado), traduzindo um ardente desejo de regresso a tempos gloriosos, ao delicioso sabor do sufoco financeiro...

Hipocrisia sindical

Curioso, muito curioso e extravagante foi que as manifestações de hoje de activistas sindicais, ditos professores, contra as provas de acesso à carreira tenham sido efectuadas por quem não precisava dessas provas.  Porque os que precisavam de as fazer, apresentaram-se e fizeram-nas, apesar da coacção dos "colegas". 
Falsos amigos, pois que, em época de baixa natalidade e escassez de alunos, quanto menos concorrência tiverem melhor asseguram o posto.
Afinal, uma enorme hipocrisia sindical que, fingindo defender os candidatos, o que visa é proteger os já providos. 

segunda-feira, 21 de Julho de 2014

TAP, muito falada...

Alguém saberá explicar porque razão a TAP continua a vender bilhetes para voos que não tem condições de assegurar. A frota de aviões no ar não é suficiente e o mesmo se passa com os tripulantes, explicações dadas pelo presidente da companhia para justificar cancelamentos e atrasos. Não bastando, vários problemas técnicos com aviões surgiram nas últimas semanas. Aguardam pela entrega de novos aviões e já receberam autorização do governo para recrutar pessoal. Esta não é a TAP a que nos habituámos: uma companhia segura, conhecida pela qualidade da manutenção dos aviões, e com um serviço de qualidade, mas que ainda assim já não é o que era. Tem vindo a perder pilotos para companhias estrangeiras. A TAP é uma companhia que concorre no mercado global. A imagem de uma empresa custa a construir, mas é num piscar de olhos que se perde. Diz o presidente da companhia que a TAP está a atravessar uma crise de crescimento. Pode ser, mas custa a perceber, especialmente para quem viaja na TAP. O que vale é que há escolha...

Entreguem-lhes o país...e safe-se quem puder!...

Os professores exigem do Governo...
A Ordem dos Médicos exige do Governo...
Os funcionários judiciais exigem do Governo...
O PS exige do Governo...
Os Municípios exigem do Governo...
A Intersindical  exige a demissão do Governo...
...e eu exigi-me não ver mais telejornal.
Entreguem-lhes o país, deixem-nos exigir uns aos outros e safe-se quem puder!...

Actividade económica abranda: convite à reflexão crescimentista

1. Indicadores de Conjuntura divulgados na última 6ª Feira pelo BdeP revelam que, apesar de se manter em “mood” de crescimento, a actividade económica em Portugal emite agora sinais de abrandamento.

2. Citando o documento do BdeP: “Em Junho/2014 o indicador coincidente mensal para a evolução homóloga tendencial da actividade económica registou uma ligeira diminuição (de 0,4 para 0,2%), enquanto o indicador coincidente mensal para a evolução homóloga tendencial do consumo privado estabilizou face ao mês anterior (em 1,1%)”.

3. Temos aqui um bom motivo de reflexão para os infatigáveis Crescimentistas - a conclusão de tal reflexão, atrevemo-nos a antecipar, deverá apontar para a necessidade de um forte empurrão na actividade económica (em sentido literal, com os dois braços se necessário)...

4. ...empurrão esse que, na falta de outros agentes interessados em tal exercício, deverá ser garantido pelo Estado, seguindo, de preferência, a nobre cartilha inspirada pelo Dr. Pangloss (ainda em fase de afinação, mas já suficientemente adiantada)...

5. Não há nada como o Estado assumir as suas responsabilidades de Provedor do Crescimento e do Emprego, “empurrador-mor” da economia, dinamizando a actividade, se NECESSÁRIO aumentando a despesa e se POSSÍVEL baixando os impostos - e de passagem DIMINUINDO o défice e a dívida – tudo em harmonia com uma perfeita hermenêutica Panglossiana...

6. Uma última nota para dizer que o PIB do 1º trimestre de 2014 não terá sido tão mau como inicialmente o “pintaram”: a variação em cadeia foi de – 0,6% (e não – 0,7%) e a variação homóloga de +1,3% (e não +1,2%) – são apenas uns “posinhos” mas uns bons “posinhos”, neste caso...



Um Costa ao estilo tipo Seguro

"Não há crescimento sustentável com endividamento, mas também não há crescimento sustentável com empobrecimento".
"O problema não é o excesso de licenciados, mas a falta de empregos para licenciados".
António Costa
Temos homem e temos profundidade de pensamento! 
Creio também que foi ele que inventou que mais vale ser rico e saudável do que pobre e doente. Pois se também já disse que a riqueza é preferível à austeridade...
Ele tem o apoio de todos os Presidentes da Câmara socialistas da Área Metropolitana de Lisboa. Merece!
E nós temos homem e profundidade de pensamento!... 

domingo, 20 de Julho de 2014

Intercalados ...

Esteve em debate na Assembleia da República o pacote legislativo que prevê o corte permanente nas pensões públicas (Contribuição de Sustentabilidade), o aumento do IVA e da taxa social única (TSU). Este pacote destina-se a substituir a Contribuição Extraordinária de Solidariedade em vigor que, por sua vez, está em apreciação no Tribunal Constitucional.  
Um debate que teve a particularidade de ficarmos a saber - ou sem saber - que a medida não é uma reforma estrutural, mas também não é uma reformazinha. É uma reforma intercalar. Como tal, foi explicado que não sendo uma reforma mais global dispensa estudos e o envolvimento dos parceiros sociais.
Não há qualquer reforma, nem estrutural, nem grande nem pequena, nem global nem parcial, nem intercalar. O que há é uma redução de pensões com carácter permanente que não resolve os défices futuros do sistema de pensões pelo simples facto de que as contribuições não serão, e não são, suficientes para pagar as pensões de acordo com as regras que estão estabelecidas.
O montante do pacote legislativo ascende a 620 milhões de euros/ano. Não é uma solução para a sustentabilidade financeira do sistema público de pensões. Não se ouviu uma palavra sobre os impactos da medida em termos de equidade geracional. 
Enfim, mais um debate que pouco ou nada esclareceu. Criatividade é que não faltou. Foram instituídos, pelo menos, três tipos de reformas: reforma mais global, reforma intercalar e reformazinha. Só a partir da reforma mais global são necessários estudos e acordos com os parceiros sociais. Para já continuamos intercalados...

sexta-feira, 18 de Julho de 2014

O catavento


Com este título, publiquei aqui ontem uma nota crítica sobre declarações que o Dr. António José Seguro teria feito a propósito do BES, em alegado contraste com as que houvera proferido após a reunião com o governador do Banco de Portugal há uma escassa semana. Acontece que o Dr. Seguro não fez as declarações com o sentido que retirei do que li nos media que a elas se referiram, como pude constatar ouvindo-as da sua boca num dos noticiários da manhã. Referia-se o Dr. A. J. Seguro à necessidade de cabal esclarecimento do que se passa no GES, dado o contágio que está a ocorrer em relação a empresas cotadas e à afetação da reputação do País. Não há nelas nada de incendiário nem insensato como antes tinha opinado. Penitencio-me pela nota anterior, e naturalmente peço desculpa a quem por aqui passa e nos lê, mas sobretudo aos comentadores que sobre a mesma se pronunciaram.  

quarta-feira, 16 de Julho de 2014

Prof. Doutor Manuel Jacinto Nunes - em memória e singela homenagem

1. Apesar de não ter sido seu aluno, na velha escola do “Quelhas”, tive o privilégio de conhecer bem o Prof. Manuel Jacinto Nunes, ao longo da vida e em especial durante um período em que trabalhamos juntos no CA da CGD (era eu o benjamim da equipa a que ele presidia), já lá vão cerca de 30 anos...

2. Mais recentemente encontrava-o com alguma frequência em reuniões do Conselho Consultivo do BdeP, a que nunca faltava, mostrando sempre uma enorme atenção (e afeição) aos assuntos da Instituição.

3. Não vou aqui repetir as palavras de público e merecidíssimo elogio que lhe foram dedicadas, nomeadamente pela Presidência da República, destacando, em especial, o seu enorme talento como economista e professor, bem como a excepcional dedicação ao serviço público de que sempre deu provas e a absoluta probidade com que exerceu os mais altos cargos, tanto no Governo como no BdeP e na CGD.

4. Vou singelamente destacar uma das qualidades do Prof. Jacinto Nunes: a de um formidável contador de histórias, apoiado por uma memória prodigiosa e por um sentido de humor que encantava quem teve o privilégio de com ele conviver.

5. E proponho-me contar uma das muitas histórias que lhe ouvi, esta passada nos já longínquos anos 40 (parte final), quando foi destacado, então como jovem economista, para integrar a equipa encarregada de negociar a aplicação do Plano Marshall a Portugal.

6. Tinha sido escolhido para chefiar essa equipa uma pessoa das mais curiosas que conheci até hoje, um cavalheiro de nome Cabral Pessoa (conheci-o na embaixada de Portugal em Washington, no final dos anos 80, onde era conselheiro há cerca de 40 anos e, já com mais de 90 anos, mantinha uma vivacidade que muito me surpreendeu). Essa escolha foi feita por ser um funcionário superior do BdeP e considerado, na altura, das pessoas do meio que melhor dominavam o inglês...

7. ...Cabral Pessoa, para além desse atributo era o que se podia considerar um “bom vivant”, gostando de vestir sempre impecavelmente, de bons automóveis...e da boa vida em geral!

8. Pois bem, um belo dia a equipa do Plano Marshall (chefiada por Cabral Pessoa e integrando o jovem Jacinto Nunes) teve de se deslocar a Paris, no âmbito das negociações do dito Plano. Até Paris e em Paris, tudo bem...

9. ...mas no regresso, a comitiva, para absoluto espanto de Jacinto Nunes, em vez de continuar a viagem de comboio (naquele tempo viajava-se muito mais de comboio) até Lisboa, apeou-se em Biarritz! Biarritz era, na época, o Eldorado das praias mais famosas da Europa, a mais procurada pelos famosos (e abonados) da altura...

10. ..e ali permaneceram por alguns dias, seguindo a orientação de Cabral Pessoa que, em Biarritz, se sentia perfeitamente em casa...

11. O Prof. Jacinto Nunes é que não achou muita graça ao assunto pois temia que, ao chegar a Lisboa, fossem recebidos com grande escândalo, dada a ousadia de andar à boa vida em Biarritz sem “darem cavaco a ninguém”...sentindo que punha em risco o seu lugar de assessor no Ministério das Finanças que constituía o seu “ganha-pão” na altura...

12. Quando, para ainda maior espanto seu, ao desembarcar em Lisboa constatou que ninguém tinha dado por nada, Cabral Pessoa tinha tratado de tudo de uma forma superiormente discreta!

13. O alívio que eu senti, contava o Prof. Jacinto Nunes com imensa graça! Querido Prof. Jacinto Nunes, deixa-me muitas saudades, desejo toda a paz à sua Alma.

terça-feira, 15 de Julho de 2014

Joelho esfolado

A noite premiava-me com algum descanso e atividade lúdica televisiva e facebookiana quando, subitamente, bateram à porta com alguma insistência, desprezando a campainha. Levantei-me meio surpreso e deparo-me com a minha netinha chorosa ao colo da mãe. Não foi difícil fazer o diagnóstico, o joelho esfolado era o motivo daquele bater intempestivo. Os olhos aflitos e em lágrimas da pequenina pediam socorro. Tomei-a nos braços e levei-a para fazer o respetivo curativo. Agarrou-se ao meu pescoço denotando um mistura curiosa de confiança e de medo. Tranquilizei-a e, com a natural autoridade associada ao carinho que lhe é devido, fiz o que tinha a fazer. No final, ficou admirada por não lhe ter doído. Encheu-me de ternura sem fim. Um doce. Depois, como é curiosa, e já tendo a certeza de que não lhe iria fazer mais nada, começou o seu interrogatório. Perguntou-me se em pequeno também esfolava joelhos. Expliquei-lhe que se houvesse essa modalidade nos jogos olímpicos decerto que ganharia uma das três medalhas. - Sim. Eu era um esfolador de joelhos profissional. Dei cabo deles vezes sem conta, e a tua mãe também era uma artista. Olha para os joelhos dela. Estás a ver? Ainda tem algumas cicatrizes. E foi mesmo ver. Enfim, conversa puxa conversa acabou por ficar convencida que afinal é normal dar cabo dos joelhos. Deitou-se em cima de mim e abraçou-me cheia de confiança. Tirei-lhe o casaco e vi que tinha uma pequenina esfoladela no cotovelo. - Olha, também tens aqui uma coisita. Começou a estremecer com medo e disse-lhe que ia colocar um produto para não infetar. Deu-me a mão e ao colocar o desinfetante disse-me meio chorosa: - A mim acontece-me tudo! - Acontece-te tudo? Deixa-te disso. Isto não vale nada. Pronto, já está. - Já? - Sim. Deu-me a mão e fomos para a sala onde me mimoseou novamente com carícias deliciosas. Foi então que a mãe lhe disse: - Sais mesmo ao teu avô! Qualquer coisita e ficam meio apardalados. Esta observação fez-me recordar o passado e os tormentos que sofri por causa das quedas e das esfoladelas que ia colecionando, realmente eu era um caguinchas do caraças. Não era muito diferente da minha neta. Foi quando me perguntou: - Quem é que te tratava das tuas feridas? - A minha mãe. Agarrou-me e disse: - Eu quero o meu vovô...

É possível um compromisso?

Instituto Nacional de Estatística - Projecções de População Residente (2012)  

A natalidade é um assunto de interesse nacional. Foram décadas passadas em que os poderes políticos ignoraram a crise de natalidade, pela ausência de políticas adequadas que ajudassem a contrariar ou a inverter a tendência dramática do declínio dos nascimentos. Mas não foi apenas o poder político que andou distraído, a sociedade civil, mais uma vez, pouco ou nada se mobilizou para discutir o assunto, andou preocupada com outras coisas. Uma espécie de “suicídio” colectivo, confortado pela modernização económica e a sociedade de bem-estar que trouxe legítimas esperanças e algumas conquistas que fazem parte do aquis civilizacional do desenvolvimento. 
A natalidade é fundamental para o futuro do país, não apenas por uma questão de sobrevivência, mas porque é nos jovens que está a energia de trabalhar e transformar, é neles que reside uma parte significativa da esperança.
A Comissão para uma Política da Natalidade em Portugal nomeada pelo PSD para propor uma política para a promoção da natalidade entregou hoje o seu trabalho. A proposta analisa os alertas que durante anos têm sido disparados sobre o plano inclinado da natalidade e as projecções mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre a evolução da população residente e os resultados do Inquérito à Fecundidade realizado pelo INE em 2013.
O trabalho apresenta um conjunto de medidas que abrangem diversas áreas, que incluem a fiscalidade, as relações laborais e os apoios sociais. Um documento para ler com tempo. É pena que as medidas não venham acompanhadas de avaliação e estudos de impacto. O tema das migrações não é, por exemplo, tratado.
Uma coisa tenho por certa, as políticas públicas de apoio à natalidade só funcionarão se conquistarem confiança. Confiança quer dizer estabilidade e consistência no tempo. É uma tarefa difícil, considerando as políticas contrárias que têm sido seguidas, o desemprego jovem em níveis muito graves e a imigração em grande escala de futuros pais. A memória não é curta. A tarefa é grande para conquistar a confiança perdida, tão grande como o desafio de os pais decidirem ter mais filhos. Espero que este trabalho possibilite uma discussão alargada e a mobilização de todos em torno deste tema. 

segunda-feira, 14 de Julho de 2014

Não precisa de voltar a santo, mas era bom que o espírito, de futuro, voltasse a ser tranquilo...

Já não sei quantos dias passaram desde que o BES resvalou para um brutal processo de desvalorização, confirmando o que alguns, à boca pequena, temiam há já algum tempo. Hoje, na Bolsa, as ações do banco que garantem ser seguro, voltaram a perder parte do seu valor. Isto apesar de se ter precipitado a solução de substituição da administração, e de se ter iniciado o inevitável processo de afastamento da família que o teve o pequeno império nas mãos. Dizem que até os mercados em NY tremeram com os problemas detetados no universo Espírito Santo. Tenho dúvidas - de leigo - sobre se o BES poderia, mesmo em colapso iminente, ter esse efeito sobre os mercados, pois imagino que o valor do banco e das instituições financeiras na sua órbita, não representarão mais do que zero virgula qualquer coisinha para o sistema financeiro global. Há no entanto uma declaração que não pode passar despercebida, a da Senhora Merkel que apontou o caso do BES como um sintoma da fragilidade da zona euro. Isso sim, é muito preocupante: problemas num banco, pequeno até à escala regional,  são suficientes para pelo menos por a nú a precaridade dos equilíbrios cantados desde o princípio deste ano. Mas também por aqui se revela o risco do discurso do "daqui para a frente só depende de nós". É que o "daqui para a frente" não pode ignorar o acumulado do que se praticou ou omitiu lá atrás. As faltas de controlo e de supervisão, tal como as faltas de ética do passado, não são fatores neutros em relação ao devir. Ameaçam cair em cima desta situação de enorme incerteza e inquietação em que o País vive, e dificultar o cumprimento da promessa de alívio do imenso sacrifício de pelo menos parte da população.

domingo, 13 de Julho de 2014

NOS COMUNICAÇÕES, S.A. (Pai Nosso que estais no céu venha a NOS...)

Confesso que tenho medo das telecomunicações. Quando se pretende resolver algum problema é um verdadeiro calvário, sobretudo para cancelar uma assinatura. 
O meu pai faleceu em fevereiro. Na altura, antes de falecer, tomei as providências necessárias para cancelar as assinaturas da televisão e de um telefone. A situação que configurava um fim próximo levou-me a tomar certas formalidades. Não fazia sentido continuar com algo que nunca mais utilizaria e que, também, praticamente não utilizava. Nunca cancelei as assinaturas por uma questão de respeito. Nunca pensei ser um tormento ter de cancelar os contratos com a Optimus e com a ZON. Um verdadeiro calvário cujos diálogos devem estar gravados e na posse da então duas empresas que se "casaram" há pouco tempo, adotando o nome conjunto de NOS. Depois de muita labuta, dores de cabeça e telefonemas atrás de telefonemas, julguei ter resolvido os casos. 
O problema com a OPTIMUS foi de tal maneira, quase que diria violento sob o ponto de vista verbal, que tive de entregar o problema ao meu advogado. Com muito esforço consegui a suspensão do contrato. No dia do funeral recebi um telefonema da OPTIMUS a comunicar que o assunto estava resolvido. Achei a atitude simpática e até agradeci. Perguntei se a última fatura ainda tinha de ser paga, mas não, estava tudo tratado. Bom, pensei, pelo menos foram simpáticos. Já tenho este problema resolvido. Menos um. Pensei.
Hoje, passados vários meses, fui, como é habitual, a casa dos meus pais para ver se havia qualquer coisa, porque nestas coisas de morte de familiares caem com alguma facilidade assuntos para resolver. Tinha uma carta de advogados a exigir pagamento de uma dívida à NOS COMUNICAÇÕES, S.A.!
Fiquei de boca aberta, uma carta de advogados a exigir o pagamento de uma dívida do meu pai?! Os termos destas cartas irritam-me sobremaneira. Uma prepotência, uma arrogância sem limites, um atentado à dignidade de quem tinha e tem tudo em ordem, com ameaças de procedimento judiciário. Enfim, a merda de uma linguagem imprópria para quem cumpre e respeita a ordem e os valores da sociedade. Ainda por cima ameaçam que iriam, caso não pagasse, incluir os dados do meu pai "em base de dados partilhada entre as empresas que oferecem redes e serviços de comunicações eletrónicas, com todas as consequências daí decorrentes, nomeadamente a impossibilidade de celebrar novos contratos", como se o meu pai tivesse necessidade depois de morto de celebrar novos contratos de comunicações eletrónicas! Que eu saiba a NOS ainda não conseguiu estabelecer comunicações com o além! Que eu saiba!!! 
O que é que eu fiz? Ainda com o carro a trabalhar fiz o pagamento através da internet. Depois tentei entrar em contacto com a NOS que me remeteu para um outro número, que, por sua vez, não me levou a lado nenhum, até ter de procurar forma de contactar. Não foi fácil, e também não foi gratuito, ouvindo sempre aquela cascata de água fria de vozes impessoais e irritantes. Surgiu-me um senhor com o qual conversei sem ter resultado nenhum. Aconselhou-me a ligar amanhã  para um número para ver o que é que se passava. 
Confesso, publicamente, que tenho medo destas empresas. São autoritárias, humilham, fazem conforme lhes apetece, segundo as suas regras e sinto um desprezo e um distanciamento quando há um problema a resolver, caso lhes retirem qualquer coisa.
Amanhã vou falar para o 800932900 para ver porque é que o meu falecido pai foi intimado a pagar uma dívida de 16,52€ (onde estão incluídos 0,25 juros de mora e 4,99 € de despesas administrativas) depois da OPTIMUS ter, na altura, e por iniciativa própria, repito, por iniciativa própria, comunicado que o problema do cancelamento da assinatura estava resolvido. Ficou tudo regularizado. Basta irem ouvir os registos telefónicos para comprovar toda esta situação.
Para que fique registado, e caso haja alguém da NOS que ande no Facebook ou nos Blogs a pesquisar coisas sobre a empresa, informo que a conta cliente é: 1.29097325_1 (OPTIMUS).
Pronto. Foi assim que acabei a minha tarde de domingo. Fiquei com má impressão da NOS, o que não é para admirar, já que me fez recordar uma piada que em tempos ouvi a propósito dos habitantes de uma certa cidade. - Sabe, senhor doutor, estas pessoas só conseguem rezar o Pai Nosso até ao venha a nós...Lembrei-me desta tirada a propósito da novel empresa NOS. Podem utilizá-la. Eu não vou exigir direitos de autor. Mas sabem o que me apetece dizer é mandar-vos para o raio que vos partam, embora preferisse outra, mais portuguesa, mais vicentina...


Pois é, o inglês é a língua universal.

Afinal o ensino do inglês vai ser obrigatório, do 3º ano ao 9º ano. Uma decisão que peca por tardia. Depois de ter sido suspenso, depois de ter sido enquadrado nas actividades de Enriquecimento Escolar Curricular, mas de frequência facultativa, e depois de o Ministério da Educação se ter convencido que o nível de conhecimentos da língua inglesa no 9º ano é menos do que suficiente, a decisão óbvia foi finalmente tomada. Mas não há fome que não dê em fartura. Agora decidimos que "Queremos ser o primeiro país do mundo a conseguir este objectivo": o objectivo é que dentro de três ou quatro anos todos os alunos do ensino secundário sejam certificados pelo Cambridge com o nível First Certificate. Fantástico!
Esperemos que a partir de agora haja uma aposta sem retrocessos, que os governos acabem com o stop and go do ensino do inglês e levem a sério que o domínio da língua inglesa é fundamental no mundo global da competitividade...

sexta-feira, 11 de Julho de 2014

Reestruturação da dívida ou outro objectivo (não revelado)?

1. Foi ontem apresentada a há muito esperada proposta de reestruturação da dívida pública portuguesa, rodeada de um razoável aparato publicitário generosamente fornecido por uma comunicação social ávida de grandes ideias para o País.

2. Não vou dizer que esta operação constituiu mais um episódio moldado no velho brocardo latino “parturiunt montes, nascitur ridiculus mus”, pois me parece que não se tratou de parir um rato nem qualquer outro animal desta era, mas antes de esconder, bem escondido, um dinossauro económico...

3. Esta proposta, se bem a entendi, não constitui mais do que um “fait divers”: o que os seus autores realmente pretendem não é uma reestruturação da dívida, pelo menos como objectivo final, mas sim um resultado bem mais profundo e ambicioso: uma mudança de sistema económico, que acabe com a economia de mercado. Entendamo-nos, pois.

4. Esta proposta, se fosse levada às últimas consequências, significaria na minha perspectiva e pelo menos, o seguinte: (i) suspensão do acesso a financiamento externo, de fontes públicas ou privadas; (ii) evaporação da poupança das Famílias; (iii) saída de capitais do País, enquanto houvesse tempo, em grande escala; (iv) falências simultâneas do Estado e do sistema financeiro, integralmente suportadas pelas Famílias e pelas empresas residentes; (v) queda abrupta do investimento produtivo; (vi) exclusão da zona Euro e da União Europeia; (vii) empobrecimento súbito e numa escala nunca vista da esmagadora maioria das Famílias residentes; (viii) emigração (talvez melhor fuga de populações) em massa; (ix) destruição de todos os alicerces de funcionamento de uma economia de mercado; (x) apropriação/confisco pelo Estado da quase totalidade dos meios de produção.

5. Isto equivaleria à adopção de um modelo económico muito semelhante ao que vigorou na União Soviética e países satélites até aos idos anos 80, com resultados admiráveis como muitos ainda estarão recordados...e que hoje subsistirá apenas, na sua pureza, na ultra desenvolvida Coreia do Norte, um paraíso social como todos sabemos...

6. Resolver chamar a isto uma reestruturação da dívida, apresentada com pompa e circunstância, só poderia feito a título de brincadeira (de mau gosto, certamente) ou com propósito de enganar os crédulos do costume.

7. Como se percebe, pois, a operação não “pariu um rato” pois pretendia parir um dinossauro...bem escondido.



quinta-feira, 10 de Julho de 2014

Fiscalidade verde, "reciclagem" e redução de impostos...

A Comissão encarregada da reforma da fiscalidade verde entregou ao governo o seu trabalho. As propostas apresentadas cujo mérito não discuto representam uma aumento de impostos na ordem dos 180 milhões de euros. Estão em causa vários impostos e taxas, entre os quais está uma nova taxa sobre o carbono que vai incidir sobre os combustíveis e a energia, uma taxa sobre os sacos de plástico e um imposto sobre o transporte aéreo. 
Com uma carga insuportável de impostos sobre as famílias e as empresas e num momento em que se ouvem vozes na Europa e no governo que é preciso baixar os impostos, levanta-se a questão de saber se o governo avançará ou não com esta carga adicional de impostos e que tipo de "reciclagem" vai fazer. Os impactos da tributação do carbono na economia são uma variável na decisão. A Comissão avança que o aumento do preço da gasolina pode subir até 5,7% e que o aumento do preço do gás natural pode atingir 8%. 
Sabemos que o Estado é insaciável em termos de impostos. O recurso aos impostos tem sido uma arma fácil para resolver os males dos excessos da despesa pública. Os 180 milhões seriam uma ajuda para a difícil tarefa de baixar o défice. O que se espera é que haja neutralidade fiscal, que a receita cobrada seja devolvida à economia em incentivos e benefícios fiscais que aproveitem às famílias e às empresas que adoptam comportamentos ambientalmente responsáveis. A tentação de obtenção da neutralidade fiscal através da redução do IRS não é de descartar...

domingo, 6 de Julho de 2014

Uma achega para a Reestruturação da dívida...

1. Não há volta a dar-lhe...os profetas da reestruturação da dívida não desarmam, estão  novamente de regresso ao palco mediático, e em grande força!
2. Não tendo logrado perturbar, como seria seu patriótico desígnio, a conclusão do celerado Programa de Assistência Económica e Financeira (PAEF) e forçar, pelo menos, a celebração de um Programa Cautelar, insistem de novo na operosa argumentação do Manifesto dos 74+ (alguns mais, recrutados na 25ª Hora).
3. Face à evidência do enorme erro que seria o País tomar o seu conselho por bom, traduzido numa forte desvalorização da dívida cotada em mercado (e consequente subida das yields) e numa muito maior dificuldade em aceder aos mercados (e pagando muito mais caro)...
4...interrogo-me sobre quais serão os efectivos e racionais motivos que estarão por trás desta nova arremetida mediática dos Reestruturacionistas...
5. Em relação a alguns deles (não todos, aceito) compreendia-se o racional do Manifesto dos 74+: atrapalhar, tanto quanto fosse possível, a conclusão do PAEF; mas como atrás já referi, essa "guerra"  terminou, não tem mais aptidão para produzir "utilidade"...para quê e porquê esta nova investida? Não entendo, confesso.
6. Independentemente da questão da difícil cognoscibilidade dos desígnios dos Reestruturacionistas, nesta nova fase, há um ponto que me impressiona: a falta de imaginação/objectividade de que dão testemunho, pois dizer que é preciso mais tempo para pagar a dívida e juros mais baixos, qualquer "Zé da Esquina" é capaz de dizer, para isso não são necessários Manifestos nem tanto talento envolvido neles.
7. Por tal motivo, aqui fica uma achega concreta e objectiva caso os Reestruturacionistas a queiram considerar: proponham que pelo menos 50% (se não for possível a totalidade) da dívida pública portuguesa seja convertida em dívida PERPÉTUA e SEM CUPÃO!
8. Assim, ficaríamos sem preocupações quanto ao pagamento dessa parte da dívida - só pagaríamos se e quando nos fosse possível (até poderíamos jurar que pagaríamos só não dizendo como, quanto e quando) - e não teríamos o incómodo dos juros a cair todos os semestres ou anos...
9. Com uma reestruturação dessas até poderíamos abraçar, tranquilamente, um famoso programa económico inspirado pelo  Dr. Pangloss, nos últimos dias valorizado com uma nova e relevante componente, da Regionalização!  

quinta-feira, 3 de Julho de 2014

Irlanda segue em frente...e que contraste!

1. Em evidente contraste com a vozearia oca que somos obrigados a suportar em Portugal, diariamente e até à saciedade – à qual, para espanto meu, é reconhecido estatuto de iluminação pública das nossas pobres mentes - insistindo na irreversibilidade da crise e na necessidade de mais e mais despesa do Estado como se estivesse aí a solução dos problemas por que temos passado em vez da sua causa (!!!)...

2. ...a Irlanda segue em frente, prescindindo do contributo desse sistema de iluminação pública e sem fazer ruído, tendo registado no 1º trimestre de 2014 um desempenho económico notável: um crescimento do PIB de 2,7% em cadeia e de 5,1% em termos homólogos.

3. Esse desempenho ficou a dever-se ao forte crescimento das exportações, que registaram neste período uma variação de + 7,2%, ao mesmo tempo que as importações registaram abrandamento.

4. No tocante às contas públicas, a informação disponível mostra que a Irlanda será capaz de cumprir o objectivo para o défice no corrente ano, que consiste em não exceder 4,8% do PIB (foi de 7,2% em 2013, convém recordar) – mas escusado será dizer que para esta previsão conta, e bastante, o desempenho da economia superior ao esperado.

5. Não surpreende, pois, que a taxa de juro implícita na cotação da dívida pública irlandesa ao prazo de 10 anos se situe actualmente em cerca de 2,36%, ou seja 120 pontos base (pb) abaixo da taxa equivalente para a dívida portuguesa, cerca de 50 pb abaixo da dívida italiana e 30 pb abaixo da dívida espanhola...

6. ...e que na Irlanda o pós-Troika tenha sido encarado com toda a tranquilidade, sem necessidade, como cá sucedeu, de dezenas de altas individualidades virem a terreiro emitir o seu veredicto a propósito de tal transição, não poucas ou quase todas recomendando, solenemente, o famoso Programa Cautelar (quem ainda se recorda?).

7. E, que eu saiba, não surgiu na Irlanda nenhum movimento de altas notabilidades, que entre nós deu que falar, recomendando uma operação de reestruturação da dívida pública com a qual todos teríamos muito a ganhar, obviamente, com juros bem mais altos e enorme dificuldade em aceder aos mercados!

8. Que contraste!



quarta-feira, 2 de Julho de 2014

Vendas de automóveis crescem 40,5% em 2014. Mas é pouco, é muito pouco...

1. Foram ontem notícia, em Portugal: (i) o crescimento de 40,5% das vendas de automóveis no 1º semestre de 2014 em relação a igual período de 2013, e (ii) a confirmação pelo Eurostat de uma nova queda da taxa de desemprego, em Maio último, para 14,3% da população activa (recorda-se que esta taxa atingiu um pico de 17,9% no 1º trimestre de 2013 e que, desde então, tem vindo a baixar).

2. Cumpre observar, “prima facie”, que devemos tomar esta informação com as maiores reservas, não lhes dando crédito por aí além, pois contrariam a existência de um contexto de crise profundíssima na qual, de modo AXIOMÁTICO, uma boa parte dos “media” e uma pletora de brilhantes comentadores continuam a ver o País megulhado...

3. Mas, mesmo admitindo, a muito custo e sem conceder, que esta informação merece algum crédito, importa assinalar que isto é de todo insuficiente para contrariar a dita crise profunda.

4. Para que a actividade económica consiga ganhar real “steam” e fugir à dita crise, torna-se certamente indispensável, quiçá urgente, adoptar o ousado programa inspirado nas ideias do Dr. Pangloss, recentemente anunciado ao País e que tem como eixos fundamentais os seguintes:

- Investir na cultura, na educação e na ciência, para assegurar o “futuro” do País;

- Promover a coesão social e teritorial;

- Defender o Estado Social (supostamente da devastação neo-liberal);

- Promover ( “ex nihilo”), o Crescimento e o Emprego.

5. Com um programa deste calibre, se eficientemente implementado, teríamos grandes possibilidades de, muito em breve, assistir a crescimentos das vendas de automóveis a ritmo superior a 100% e à evaporação o desemprego em escassos meses.

6. Não iria durar muito, como se perceberá, mas pelo menos ser-nos-ia proporcionado o deleite de reviver tempos bem gloriosos...

segunda-feira, 30 de Junho de 2014

Mais guardiões do vício e da virtude

Os seus mais destacados elementos (grupos de extrema-esquerda), que valem no ambiente mediático muito mais de mil por cento do que valem nas urnas, desunham-se em entrevistas. Escrevem artigos. Influenciam análises. Consomem-se na intriga…”.
João Marcelino, Director do DN, em editorial do dia 29 de Junho, A extrema-esquerda e o PS 
Não foi preciso passar dois dias para a comprovação do facto e, pasme-se, na edição de 30 de Junho do próprio jornal dirigido por João Marcelino, que ocupa uma página inteira a verberar a participação de um destacamento de militares na procissão da Senhora da Saúde, no dia 11 de Maio, em Lisboa.
Chega o artigo a interrogar se tal participação não é inconstitucional, ilegal ou mesmo abuso de poder...
A participação ou não de militares na procissão é-me completamente indiferente. Mas já não me é a incultura histórica de quem pensa que o mundo começou com eles. Eles não sabem, nem algum dia compreenderão que a Procissão se iniciou em 1570, precisamente por iniciativa de uma companhia de artilheiros, como prece para acabar com a peste que grassava na capital.
À iniciativa logo aderiu o povo de Lisboa, numa comunhão com os militares, que nela continuaram a participar de forma praticamente ininterrupta ao longo dos séculos, com excepção de alguns anos após 1910 e 1974. Et pour cause…
Chamar a Constituição para impedir tal presença é mais uma comprovação do jacobinismo pateta de uma esquerda sem sentido, mas com um injustificado e injustificável poder mediático a que, como dizia o director do DN,  não corresponde qualquer adesão popular. Qualquer dia, para eles, já a própria procissão é inconstitucional. 
Verdadeiros talibans da Constituição, noutros lados estariam na primeira linha dos guardiões de um qualquer ministério do vício e da virtude. Por cá, pululam nos media. 

Natalidade nos mínimos, alarmes nos máximos?


Quem é que pode não estar preocupado com o declínio da natalidade? Mas uma coisa é estar preocupado, coisa diferente é estar disponível para fazer parte de uma solução que ajude a inverter ou pelo menos a travar este caminho devastador. 
Melhorar a natalidade poderia ser um desígnio nacional. Para além de um conjunto de medidas a tomar que terão que passar por uma política fiscal amiga da família, por uma articulação favorável entre a vida familiar e o trabalho e a acessibilidade a rede de equipamentos sociais, é fundamental que as empresas incorporem na sua realidade a natalidade. 
No campo da segurança social também poderão ser introduzidos benefícios que premeiem a maternidade, majorando por exemplo as pensões ou estabelecendo alguma diferenciação contributiva seguindo as práticas já adoptadas por outros países.
Mas nada funcionará se não existir confiança no futuro do país e no Estado em particular. Confiança quer dizer estabilidade e segurança, significa que o Estado não pode promotor hoje uma coisa e amanhã fazer o seu oposto. As políticas públicas de apoio à natalidade só funcionarão se conquistarem a confiança da sociedade. É uma tarefa muito difícil, considerando as políticas contrárias que têm sido seguidas. O problema não é apenas nacional, é certo, mas Portugal não acompanhou, em devido tempo, as preocupações e as políticas seguidas por muitos países europeus, em alguns casos com bons resultados. Fizemos de conta, olhamos para o lado, apesar de muitas campainhas terem tocado e durante muito tempo. 
O Inquérito à Fecundidade, realizado em 2013, publicado hoje pelo INE chama a atenção para a complexa teia de causalidade ente padrões de fecundidade e factores de influência e para a necessidade de informação que possibilite uma compreensão abrangente dos comportamentos de fecundidade que já tenham tido ou não filhos. Aguardemos pelo trabalho da Comissão nomeada pelo governo que está a estudar este assunto, mas não fiquemos à espera de milagres...

Política económica: nem tanto ao mar, nem tanto à terra...

1. Com chamada da 1ª página, podia ler-se na edição de Sábado do magnífico PÚBLICO um artigo dedicado à evolução recente da economia portuguesa, intitulado "A economia está a crescer graças à quebra da poupança".
2. O artigo, da autoria do (respeitável) jornalista Sérgio Aníbal, utilisa informação divulgada pelo INE na última 6ª Feira, que dá nota de uma quebra da taxa de poupança das famílias no 1ºtrimestre de 2014, para 11,9% do rendimento disponível, depois de ter atingido 13,5% no 2º trimestre de 2013, que foi o registo mais elevado desde a adesão ao Euro em 2009 (o mínimo foi atingido em pleno consulado socrático, 2007/2008, com valores da ordem de 5,5%).
3.Salienta o artigo que tem sido graças a esta quebra da poupança que o consumo privado tem vindo a recuperar ( ou vive-versa, acrescentarei eu), contribuindo para o regresso do País a taxas de crescimento positivas a partir do final de 2013.
4. E acrescenta que "este cenário de recuperação da confiança (dos consumidores) até pode ser considerado normal e desejável à medida que a economia recupera. O preocupante é se o crescimento estiver apenas sustentado nesta melhoria das expectativas"...
5....concluindo "Nesse caso, e tendo em conta o elevado nível de endividamento das famílias, esta subida do optimismo poderá revelar-se insustentável".
6. Como já aqui tenho argumentado, a maior ou menor sustentabilidade da recuperação da procura interna - um fenómeno natural, associado à melhoria das expectativas dos agentes económicos - tem um indicador muito claro: o comportamento das contas com o exterior.
7. Tal como referi em último Post, a evolução das contas com o exterior nos primeiros 4 meses de 2014 não obstante evidenciar alguma deterioração no saldo da balança Corrente - estava praticamente equilibrada nos primeiros 4 meses de 2013, este ano mostra um défice de cerca de 0,5% do PIB - permite concluir que a recuperação até agora verificada da procura interna é sustentável...
8....uma vez que para o conjunto do ano se devem esperar saldos positivos nas diversas rubricas das contas com o exterior (balanças Corrente, de Bens e de Serviços e Corrente+Capital, esta última aliás já positiva nos primeiros 4 meses),embora menos expressivos do que em 2013.
9. O que seria de estranhar, face a uma melhoria das expectativas dos agentes económicos e após a forte contracção dos últimos 4 anos, é que a procura interna não estivesse a recuperar...
10. Bem sei que, depois dos fabulosos erros acumulados ao longo de tantos anos, culminando na hecatombe financeira de Maio de 2011, toda a cautela será pouca para não se voltar atrás...mas isso não justifica que se anatematizem os primeiros sinais de recuperação da procura interna num contexto de melhoria das expectativas; será caso para dizer "nem tanto ao mar nem tanto à terra"...

A promessa esquecida

Já tem uma idade razoável. Por isso a vida presenteou-a com a doença. Vive sozinha, é autónoma, e anda, felizmente, bem. 
Depois de alguma conversa, e dos meus parabéns, os quais caem muito bem na sua alma, basta ver a alegria estampada nas feições, chamou-me a atenção para as festas da cidade. 
- Ah, é verdade! Este ano há procissão, não há?
- Há pois.
- Lembro-me que nos dias de procissão costuma estar um calor dos diabos.
- É verdade senhor doutor. A procissão do domingo é muito penosa. Agora já não vou.
- Era o que mais faltava. Não pode! Retorqui.
- Pois não. Sabe, eu sou irmã da Rainha Santa.
- Irmã da Rainha Santa? Explique-me lá isso melhor.
- É verdade. Até tive de levar um documento da junta a atestar a minha religiosidade.
- Não me diga! Foi há muito tempo?
- Foi. Paguei na altura cinco contos de réis. 
- Cinco contos? Era uma quantia apreciável.
- Eu gosto muito da Rainha Santa. Tenho muita fé. Muita. O senhor lembra-se daquelas dores muito fortes que tive na coluna?
- Então não me lembro.
- Pois olhe. Foram tão violentas que eu fiz uma promessa à Rainha Santa.
- Ah! Mas melhorou com a medicação, não melhorou?
- Sim. Disse de forma a poder continuar o seu relato sem dar muita importância à minha terapêutica. Mas sabe uma coisa? Esqueci-me qual foi a promessa.
- Esqueceu-se?
- Sim. Mas sabe como resolvo o problema?
- Não. Diga.
- Quando passo por lá deixo-lhe qualquer coisa, uma vela, um ramo, uma flor. Talvez ela se esqueça. Uma gargalhada contagiosa salpicou-me de uma forma intensa, provocando uma sensação agradável.
- Deixe lá. A esta hora a Rainha Santa já se esqueceu. Mesmo que não tenha esquecido já sabe como tratar as dores, não sabe?
- Ai! Suspirou. Se tiver essas dores eu faço-lhe novamente uma promessa, mas desta vez vou apontá-la para não me esquecer...

domingo, 29 de Junho de 2014

Morte de um filho

Desde pequeno que toco na morte. Ensinaram-me a conviver com ela. Nunca me esconderam esse estranho episódio que faz parte da vida. Muitas das minhas primeiras experiências construíram-se em seu redor. Velhos, menos velhos e muitas crianças. Era o tempo em que Deus recrutava anjos! Nunca percebi bem o que levava Deus Todo-Poderoso a fazer anjos desta maneira. Era o que diziam sempre que me atrevia a fazer certas perguntas. Era pequeno e mal sabia escrever ou juntar as letras, mas fazia perguntas. Perguntas que tinham como resposta olhares surpreendidos e cheios de repreensões. Um dia respondi ao silêncio dos meus porquês. - Sabem? Ainda bem que Deus não quis que eu fosse anjo. Eu também não queria. O silêncio foi mais uma vez ultrapassado por outro tipo de silêncio. - Deixa-te dessas conversas. Eu deixava, mas continuava a sentir e a ouvir as lágrimas das mães a quem Deus roubava os filhos para os transformar em anjos. Levei alguns até ao cemitério, anjos sem nome. Quando colocavam a pequenina caixa branca no chão sagrado ficava triste e indignado com Deus. Nunca tive medo Dele, nunca. Depois, com a idade, fui vendo a partida de filhos antes dos pais. Muitos. Ficaram gravadas na minha memória as dores e as lágrimas dos pais. Ainda hoje correm na minha alma esses momentos, os mais dolorosos que um ser pode viver. Sempre que acontece um caso destes, todos os dias acontece, lembro-me do que pensava quando Lhe entregava um anjo roubado à mãe. Se Ele existir decerto que não se esqueceu do pensamento de uma criança de calções e joelhos esfolados. 
Eu não me esqueci, e nem esqueço.

Mas a Procuradoria, Senhor!...

Li que a Procuradaria Geral da República está a investigar os autores das provocações e dos insultos de que António Costa foi vítima em Ermesinde e não sou eu que deixo de apoiar o facto. Os prevaricadores devem ser sancionados. Ponto final.
Mas, ou me engano muito, ou nunca li que as provocações, os insultos, as interrupções ofensivas  de discursos, de que regularmente vêm sendo vítimas membros do governo e o próprio Presidente da República sejam investigadas pela Procuradoria Geral. Porventura por até concitarem a compreensão generalizada dos partidos da oposição, nomeadamente o socialista, e dos media, que logo desculpam tais actos como afirmação de liberdade de expressão que não pode ser negada.
O que é compreensível e até recomendável se for contra o governo ou contra o Presidente, é condenável se for contra Costa.  No olhar vesgo das oposições e seguidores é perfeitamente natural, enquanto tiverem os líderes que têm. 
Mas a Procuradoria, Senhor! 

sábado, 28 de Junho de 2014

O quebra-cabeças dos cortes e dos chumbos...

É um verdadeiro quebra-cabeças o emaranhado de medidas que têm incidido nas pensões e os efeitos concretos no seu cálculo. As vítimas deste labirinto são os pensionistas que para além de verem o seu rendimento cortado, não sabem com o que podem contar. 
Atordoados com os cortes e os chumbos do tribunal constitucional vivem na permanente incerteza sobre o que o mês seguinte lhes reserva. De há muito tempo a esta parte que os pensionistas não conhecem um mês igual ao outro. Cada mês que se segue é diferente do mês anterior. Não bastando todo este emaranhado, são volta e meia bombardeados com cartas,  indecifráveis para o comum dos mortais, que descrevem o quadro jurídico-legal, citando as leis que se aplicam e outras leis que revogaram as primeiras e outras ainda que introduziram alterações nas segundas e por aí em diante,  um tratado que pode culminar com o anúncio de que será iniciado daqui por mais uns meses um reembolso em regime de prestações de um corte que inesperadamente chegou atrasado. 
O ano de 2014 é o campeão de medidas e contra medidas. Primeiro, o OE de 2014 introduziu o corte nas pensões de sobrevivência e não salvaguardou a acumulação da sua aplicação e da CES (contribuição extraodinária de solidariedade). Segundo, o OE Rectificativo veio estabelecer a proibição daquela acumulação, estabelecendo os respectivos critérios de aplicação. Terceiro, entrou em vigor o novo regime da CES, tendo sido alterado o montante da pensão a partir do qual a mesma é aplicada, de 1.350 euros (em 2013) para 1.000 euros. Quarto, foi alterada a contribuição para a ADSE. Quinto, o Tribunal Constitucional (TC) chumbou a redução das pensões de sobrevivência. Sexto, está em apreciação no TC a constitucionalidade do novo regime da CES. Sétimo, o governo aprovou a Contribuição de Sustentabilidade que substituirá em 2015 a CES. Oitavo, está a caminho do TC a fiscalização do aumento da contribuição para a ADSE. 
As medidas tomadas e alteradas pelo governo e os chumbos do TC darão origem a diversas correcções no cálculo das pensões, umas de sinal mais e outras de sinal menos. Não se sabe quando, nem como. A este respeito não foi produzido qualquer esclarecimento oficial. Por exemplo, quem vai ser reembolsado dos cortes efectuados nas pensões de sobrevivência terá acertos na CES, pelo que tem a receber, mas, também, tem a pagar. Os cortes das pensões de sobrevivência mantiveram-se no mês de Junho para espanto de muitos pensionistas que não entendem porque ficou tudo na mesma.
Este quebra-cabeças de cortes e contra cortes merece que os pensionistas sejam informados regularmente pelas entidades responsáveis, numa linguagem simples e acessível sobre as medidas, os efeitos da sua aplicação, os montantes em causa e o calendário da sua entrada em vigor e aplicação. E, já agora, convinha que estas entidades - Caixa Geral de Aposentações e Segurança Social - se coordenassem para evitar tratamentos contraditórios e diferentes. Não é pedir muito, os pensionistas agradecem...

sexta-feira, 27 de Junho de 2014

Multiplicação socialista

E há muitos na fila...
É votar...é votar!...

Sobre a questão do modelo de justiça constitucional


Há quase 30 anos (tanto tempo, Deus meu!), escrevi e publiquei as notas para um estudo que serviu de base às provas públicas do concurso para Assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Incidiu sobre a justiça constitucional em Portugal e nele incluí um pequeno capítulo em que analisava as críticas ao modelo de controlo da constitucionalidade que tem como peça central o Tribunal Constitucional, adotado entre nós na sequência da 1.ª revisão da Constitucional, por referência à opinião expressa por Otto Bachof, emérito professor alemão de direito público , nessa altura uma das vozes mais escutadas sobre a matéria. Tive hoje necessidade de revisitar o que então escrevi. Mudei, ao longo do tempo, muitas vezes de opinião sobre questões de Direito, como é natural. Mas o que na minha juventude e na juventude da Constituição que temos, expressei sobre tema que, adormecido por muitos anos, de repente despertou interesse sobretudo de políticos, não perdeu acuidade. Aliás, este súbito interesse e as razões subjacentes, só comprovam - passe a imodéstia - o acerto do que opinava então e reescreveria agora sem tirar nem por: 

  •  “…acrescenta aquele professor (Otto Bachof): «mais importante que este problema é a outra questão que se trata igualmente sob a rubrica `politização da justiça': o facto de se confiarem aos juízes decisões de alcance político, pode supor um forte estímulo para que os grupos políticos influam nos critérios de selecção dos membros dos tribunais, e, sobretudo, do Tribunal Constitucional, dando lugar a que o provimento dos cargos não obedeça às aptidões mas às opiniões e pelas (verdadeiras ou presumidas) simpatias do candidato. Desde logo, este perigo não deve ser menosprezado». Temos fundadas dúvidas sobre se os autores da 1.a revisão constitucional encontraram a solução avisada contra o perigo assinalado. Dúvidas que resultam fundamentalmente dos critérios de designação dos juízes do Tribunal Constitucional. Nos termos do artigo 284.° [corresponde hoje ao artigo 222.º] os treze membros são nomeados, directa ou indirectamente, mas em exclusivo, pela Assembleia da República (dez designados pela A. R. e três cooptados por estes) o que significa que a solução encontrada não tomou em linha de conta o sistema de governo adoptado pela própria Constituição; sistema esse que se fundamenta na idêntica proeminência (sob os perfis da legitimidade do mandato e do complexo de poderes) de um outro órgão de soberania — o Presidente da República, numa tensão e constante equilíbrio de poderes. Além de que a profusão de forças políticas que compõem o nosso sistema de partidos representados na Assembleia da República, transforma a questão de escolha numa batalha no contexto da conjuntura e da correlação de forças parlamentares no momento da designação, dando um cunho fortemente partidarizado ao acto de eleição de um órgão que pela sua natureza deveria assumir-se com uma áurea de independência e imparcialidade. É certo que os constituintes procuraram criar algumas defesas contra esse risco ao imporem que três dos conselheiros e os três cooptados sejam juízes de carreira, isto é, pessoas cujo estatuto profissional e institucional sempre lhes exigiu exercício de funções jurisdicionais, com a independência, imparcialidade e a garantia da irresponsabilidade pelas decisões tomadas; e, ainda, que a sua eleição seja feita no seio da AR por maioria agravada de dois terços. É igualmente certo que o período de mandato dos juízes é superior ao da própria legislatura e estes gozam do estatuto da inamobilidade (artigo 22.° da Lei n.° 28/82, de 15 de Novembro), sendo-lhes proibido desenvolver quaisquer actividades político-partidárias de carácter público. E não deixa de ser verdade que a composição e a forma de designação dos juízes não é critério fundamental para avaliar da capacidade do órgão central do sistema de justiça constitucional em julgar da validade das espécies normativas, sem apelo a critérios políticos ou influências, por pressão, de outros órgãos ou forças. Até porque, em França, se fez ressaltar a independência e neutralidade com que o Conselho Constitucional se desempenha das suas funções, apesar de não ser um órgão jurisdicional. Mas não parecerá irreal afirmar-se que o passo dado em frente pela supressão da feição política da tutela constitucional em que consistiu a extinção do Conselho da Revolução, deveria levar a uma solução que colocasse o Tribunal Constitucional mais distante e, por que não dizê-lo, mais independente dos órgãos que fiscaliza”.

quinta-feira, 26 de Junho de 2014

Duas velhas

Fui de metro até perto do hospital. Durante alguns momentos andei a pé. O sol convidava mas o dia assustava. Não era motivo para isso, assustava porque não me sentia bem. Nada que tivesse comido ou punhalada que tivesse sofrido. Sentia-me cansado e até um pouco farto destas andanças. Os meios grandes provocam-me tristeza e empurram-me para as bandas da indiferença. Com uma pachorra difícil de descrever fui andando. Vi muita gente, a maioria amarelecida e desprovida de alegria. Havia qualquer coisa nos seus olhares. Não sei se era dor, se era falta de amor ou uma solidão fria a correr em veias esgotadas de vida. Duas velhas vinham na minha direção. Uma era mais velha do que a outra. A velha mais nova, obesa, descuidada, deslavada e com um cigarro na mão, dava o seu braço direito à mais velha, cuidada, com aspeto fino, cabelo penteado e ar distante. Trazia na mão esquerda uma mala, pequena, castanha. A mais nova, de ar deslavado e olhar empertigado, depois de ter aspirado uma nuvem de tabaco enegrecido, atestou-lhe com uma voz rouca de vida de fumo: - Já te disse mais do que uma vez. Pega lá na mala como deve ser! O tom. Sim, o tom, imperativo, frio a contrastar com o calor do cigarro, chamou-me a atenção. Uma dureza difícil de descrever. Assustei-me. Não havia chama de amor naquela chamada de atenção. Tentei tatear alguns restos. Mas como encontrá-los naquela voz dura, rouca e implacável? Olhei para a senhora mais velha, penteada e cuidada. Abrandou o passo e tremeu um pouco. Sem dizer nada colocou a mala no braço direito. As feições eram semelhantes. Mãe e filha. Pensei. O olhar da mãe dava sinais de querer começar a perder o sentido e o significado da vida. Cuidada e bem penteada, longe da deslavada da filha, que empunhava um cigarro, não sei se para queimar o passado da vida que levava a seu lado, causou-me muito pena. Ao dobrar as pernas, na atrapalhação da mudança de mão da mala para o braço direito, a filha sacudiu-a com brusquidão, e em silêncio desapareceram na esquina, enquanto eu passei o portão.

Grupo Excursionista Os Amigos de Paulo Bento

Para além do material de treino e estadia, com milhares de peças, incluindo calções de passeio e casacos de entrada em campo e mais uma lista interminável de artigos de conforto, o Grupo Excursionista de Paulo Bento não prescindiu de levar para o Brasil, via Estados Unidos, uma equipagem completa de cozinha, composta pelos chefs Hélio Loureiro e Luís Lavrador e uma enorme remessa de matéria-prima comestível, não fosse faltar algo na cansativa viagem: 200 kg de bacalhau graúdo, umas dezenas de quilos de chouriço de carne, de salpicão, de alheiras, de grão de bico seco, de feijão encarnado seco, presuntos, arroz carolino, garrafas de azeite e vinagre, marmelada, queijo da serra, de s. jorge e flamengo, orelha de porco, polvo congelado, pernil de porco, vinho do Porto, eu sei lá mais quê.
Não sei se levaram também fogão, fogareiro ou equipamento de churrasco, que podia faltar no Brasil.
Mais. Prevendo certamente a catadupa de lesões que iria atingir os atletas (alguns até partiram já lesionados…), não faltaram na comitiva malas com material de contenção e ortóteses, de emergência completa, com medicamentação de apoio, marquesas, carrinhos de transporte, kits de pequena cirurgia, aparelhos de reabilitação funcional, material de suporte a hidratação e aclimatização e suplementos alimentares.
E, como grupo excursionista prevenido vale por dois, nem faltou a remessa de largas dezenas de blusões para o frio, não fosse o arrefecimento global tomar conta da Amazónia e do Brasil tropical
Na lista não consta, mas estou certo de que seguiu também um estilista cabeleireiro, dada a variedade de penteados que diariamente exibiam. Barbeiro, com certeza é que não foi, que os atletas apareciam normalmente revestidos de bastos pelos na face.
A excursão correu muito bem, tão bem que os excursionistas até se esqueceram do motivo que os levou tão longe. Chegam amanhã e vão gozar merecidas férias. Espera-se que demorem por lá.

Eugénio de Andrade -"O Outro Nome da Terra"

As Amoras

O meu país sabe a amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Contas Externas: que conclusões, no final de Abril?

1. Foi esta semana divulgada informação sobre a posição das contas externas até ao final de Abril (Boletim Estatístico do BdeP, edição de Junho).

2. Trata-se de um tema a que aqui damos atenção, com alguma regularidade, em razão da sua extrema relevância como indicador da saúde (ou da falta dela) da economia portuguesa.

3. Até 2010, como se sabe, este indicador revelava um estado da economia próximo de comatoso, embora algumas mentes delirantes (e também determinantes, na altura) considerassem, na esteira do famoso Dr. Pangloss, que nos encontrávamos no melhor dos mundos, destinados a ter um futuro admirável, com um défice da Balança Corrente superior a 10% do PIB...

4. A situação mudou radicalmente entre 2010 e 2013, tendo neste último ano sido já registados superavits com algum significado, por exemplo de 1,7% do PIB no conjunto das balanças de Bens e de Serviços e de 0,6% do PIB na balança Corrente.

5. No corrente ano, como também se sabe, a recuperação do consumo privado (sobretudo de bens duradouros) e do investimento tem gerado um aumento das importações de bens (+2,5% até Abril), ao mesmo tempo que a suspensão temporária das exportações de refinados do petróleo gerou uma quase estagnação das exportações de bens (+0,5% até Abril).

6. Desta conjugação resultou um agravamento do saldo negativo da balança de Bens, em € 373 milhões (de € 2.010 milhões até Abril de 2013 para € 2.383 milhões até Abril de 2014), compensado apenas parcialmente por uma melhoria de € 53 milhões na balança de Serviços.

7. Esta deterioração de € 320 milhões no conjunto Bens+Serviços, foi acompanhada de uma deterioração de € 168 milhões no défice dos Rendimentos e de € 348 milhões nas transferências correntes da União Europeia; tudo isto explica que, no final de Abril, a balança Corrente apresente um défice de € 816 milhões, que compara a um défice de € 32 milhões no final de Abril de 2013.

8. Em contraponto, verifica-se uma melhoria do saldo da balança de Capital, em € 360 milhões (de € 705 milhões até Abril de 2013 para € 1.065 milhões até Abril 2014), pelo que, no conjunto balança Corrente+Capital se apura em 2014 um superavit de € 249 milhões, inferior ao registado no período homólogo de 2013 (de € 673 milhões).

9. Com base nestes dados pode pois concluir-se que em 2014 se deverão voltar a registar excedentes nas contas externas, embora com expressão provavelmente inferior à de 2013...

10. ...e que será assim possível sustentar, sem grande dano, uma recuperação do consumo e (sobretudo) do investimento...mas será conveniente seguir este indicador com a maior atenção, para que não se perca o controlo...

quarta-feira, 25 de Junho de 2014

O acto ilocutório rejeitativo

Num dos últimos exames de Português, o texto literário, que se esperava de Camões, Vieira ou outro clássico, foi substituído por uma entrevista de um jornalista a um escritor, naturalmente da esquerda pura e dura.  
E, não sei se no mesmo exame, requeria-se que os alunos classificassem o "acto ilocutório" constante de um texto. Que o IAVE, que faz o exame e propõe as correcções, qualificava como "acto ilocutório compromissivo" e a Associação dos Professores de Linguística considerava como   "acto ilocutório assertivo"
 Trocar clássicos por entrevistas jornalísticas é a prova de que a literatura vai perdendo terreno, explicação para que os alunos nunca ganhem gosto pela leitura e pela escrita, de mais a mais enredados entre actos ilocutórios declarativos ou performativos, directivos ou expressivos e mesmo compromissivos, que o TLEBES (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário), que antes se chamava Gramática, profusamente estatuíu e derramou no desensino do português.   
E que tem regras tão absurdas e distinções tão capciosas que, perante a controvérsia, levaram o Ministério a aceitar como de ciência certa as duas qualificações acima mencionadas. 
Perante o ensino da língua apresentado de tal forma, claro que os alunos considerarão a disciplina como um acto ilocutório rejeitativo. E, naturalmente, optarão por ilocutoriedades mais assertivas, expressivas ou directivas. E, principalmente, compromissivas com outro tipo de aprendizagens mais performativas. 

O País silente

Há dias ouvi alguém a dizer num programa de rádio que, no regresso à sua aldeia natal depois de muitos anos dela afastado, o chocou sobretudo o silêncio. O silêncio plumbleo num dia de sol por não se ouvirem os gritos das crianças que preenchiam ainda a recordação daquele sítio. Tinham sido dali levadas, pela manhã, por uma carrinha da freguesia para o centro escolar na sede do concelho onde se concentram agora professores e crianças. 
Ao mesmo tempo que o PM português reclama da Europa políticas ativas de natalidade, a política caseira, há muito definida, opta pelo fecho das escolas do interior, um passo mais para a consumação do que muitos entendem inevitável e tem marcado as políticas de PS, PSD e CDS: o despovoamento das zonas rurais e a aposta em eixos de grandes e médias cidades.
A caminho dos 85% da população acantonada no litoral, o fecho das escolas, dos tribunais, dos serviços públicos essenciais, a obsolescência  inevitável de infraestruturas são mera consequência de políticas que só são contrariadas no discurso eleitoral ou quando a situação passa a oposição.
O empobrecimento do país tem vários caminhos. Uns mais visíveis que outros. Quem tem o poder de decidir preocupa-se muito com outras dimensões da democracia que não a democracia territorial. E, infelizmente, o desgaste do prestígio que em tempos teve o poder local também não contribui para travar o declínio.
O arrependimento virá um dia num país que seguramente terá menos recursos para apoiar a inversão das políticas de hoje.

terça-feira, 24 de Junho de 2014

Balada do tempo

À minha mãe, nos seus 89 anos

Pesas como chumbo, eu sinto. Sinto quando me tolhes os pés que deviam poder andar, sinto-te nas pernas dormentes de velhice, sinto nos ombros o teu braço paralisante. Sinto o teu deslizar lento, insuportavelmente lento, enquanto olho da janela as folhas das árvores, primavera, verão, outono, inverno, sempre a mesma janela, sempre a mesma paisagem, num ritmo confirmado e exasperante.
Tomo consciência de ti e estás velho, tão velho e trôpego como eu, já não corremos os dois numa fuga infinita, já ninguém nos procura nem reclama, agora esperamos um pelo outro mas no vazio, sem promessas e sem negaças, no vazio em que te anseio e me aborreces, no vazio em que te demoras e te acolho como a um inútil sem sentido. Mesmo assim quero-te, não me deixes, fica mais um pouco, não te esgotes, se te instigo é apenas porque o teu lento deslizar prolonga as minhas dores e me devolve o eco da minha solidão.
Mas não foi sempre assim. Durante toda a minha vida nunca me sobraste, antes tive que te partilhar com os outros. Primeiro, quando era criança ou muito jovem, não dava sequer pela tua existência, não te via, não te sentia, estavas ali, infinito e leve, eras como o ar, a energia ou os carinhos da minha mãe.
Quando os anos passaram e me tornei adulta vivia na dependência de ti, intrometias-te e impunhas-te, depois, arisco, fugias-me por mais que quisesse deter-te, sim, quantas vezes pedi que te demorasses um pouco ao meu lado, deixando-me saborear a tua existência, saciar-me na demora dos gestos e na fruição de cada momento, mas corrias tão depressa, acordava de manhã e contava as promessas no teu sorriso mas logo te sumias, ainda eu mal te vira. Sedutor que eras, impossível ignorar-te, impossível resistir-te, por isso confiei sempre, uma e outra vez, que ias voltar para recomeçarmos de novo e que tudo seria novo e eterno de cada vez que voltasses. Por isso te adiei tantas vezes, na ilusão do retorno, por isso te ignorei outras tantas, na certeza de te recuperar. No auge da minha vida fui muito generosa com os outros, pediam-me um pouco de ti e eu dava, ou simplesmente puxavam-te e eu deixava que fosses, às vezes era sôfrega de ti, sobrecarregava-te quando finalmente te alcançava e então parecia que te detinhas mas acabava sempre a ver-te fugir, via-te a correr à minha frente e eu, Espera!Espera! incapaz de te guardar só para mim, por pouco que fosse. Esbanjei-te, acho que foi isso, desperdicei o quinhão que me coube da tua existência, da liberdade que me trazias, das oportunidades com que acenavas dizendo, estou aqui, sou teu. E eu a deixar-te ir.
Eis-te de novo, como sempre, mas agora vejo-te bem, entregas-te, agora que já não sei o que fazer de ti. Ficaste a rondar-me, preguiçando, desde que a casa ficou vazia e a minha vida sossegou. O teu passo abrandou e acertou com o meu, numa carícia discreta que me abraçava docemente, firmemente. Ri-me ao princípio, surpreendida e encantada, inventei conversas e detalhei-te minuciosamente, saboreando a minha nova arte de te cativar junto a mim. Mas era um novo engano, esse amargo descobri também, com os dias longos e as noites intermináveis, sem outro respirar além do meu.
Ficas porque já não tens caminho para correr, poucos te disputam, menos te reconhecem, novos tempos vieram e tu, velho tempo, tempo meu, posto de lado, não serves, não entendes, diz-se que passaste e é bem feito, que fizeste tu senão correr apressado, prenhe de promessas e de enganos?, cumpriste alegrias, é certo, mas aí eras ainda mais veloz, lembro-me bem que te vingavas nas horas más, atrasando o teu ritmo como pingos resinosos que se agarram à casca que os segrega e repele.
Sobras para mim, finalmente, velho ardiloso. Pesas como chumbo, eu sinto. Mas fica, ainda assim, fica um pouco mais, demora-te, vê as árvores, olha comigo através da janela, seduz-me ainda, maldito, querido sedutor, embala-me devagarinho até ao fim do tempo que já passou.

segunda-feira, 23 de Junho de 2014

A qualidade é o caminho...

É uma excelente notícia. Parabéns à Nova School of Business and Economics pela marca de excelência alcançada no mestrado International Masters in Finances. Um dos melhores do mundo. É o resultado da qualidade da investigação produzida. Um resultado gerador de capacidade de contratar professores com nome internacional e de interessar mais alunos estrangeiros. É interessante olhar para o respectivo nível de empregabilidade: 95% ao fim de três meses de concluído o curso, a sexta posição no ranking.

Cristo sem braços...



Mergulhei sem querer no interior de uma zona que conheço relativamente bem. Lembro-me perfeitamente da minha primeira e grande viagem de camioneta da minha vida. Era pequeno, tão pequeno que provavelmente ninguém dava pela minha conta. Não me recordo se já tinha entrado na escola. Se andava deveria ser há muito pouco tempo, porque ainda não sabia juntar as letras. Só sei que fui numa camioneta velha, barulhenta e ronceira pela estrada de macadame. Recordo as curvas, voltas e mais voltas até chegar à ponte sobre o rio Mondego. Depois começou a subir, espirrando e tossindo por todo o lado. Olhava para trás e via a nuvem de pó que escondia o rio, as escarpas e as árvores. De lado conseguia ver muito bem. Fomos por aí acima, chegámos a Tábua ao fim de muito tempo. A viagem continuou num dia cinzento, frio e chuvoso até chegar a Midões. Uma viagem muito longa para a altura e que me permitiu ver novas regiões. O meu pai, que nunca parava de conversar sempre que encontrava alguém, lá me ia perguntando se tinha sede ou fome. Mesmo que tivesse que diferença é que fazia, não tinha nada à mão para mastigar, exceto uns biscoitos maravilhosos que trazia embrulhados num guardanapo. Mas se os comesse ficava com sede e eu não tolerava a sede. Por isso não os comi, com medo. Ouvia o meu pai, que falava com o motorista, um homens alto, magro e que era nosso vizinho, sobre o João Brandão, um bandido que assaltava e matava as pessoas pendurando algumas na ponte de Tábua. Não gostei nada da conversa e fiquei com medo de que ele andasse por ali. Perguntei-lhe onde é que ele estava. Sossegou-me dizendo que tinha morrido, dois de ter sido desterrado para África. Mesmo assim não fiquei com boa impressão das histórias que contavam a seu propósito. Até chegou a dizer-me que ia até Santa Comba onde encontrava refúgio numas cavernas que devia haver lá. - Onde? Perguntei. - Nas Hortas! - Nas Hortas? No pinhal das Hortas? - Sim, ou então no Montragão. Não sei porque razão é que ele dizia aquilo, às tantas para me impressionar, misturando a realidade com a fantasia, o que era motivo suficiente para que construísse as minhas próprias "histórias", mesmo naquela idade. Ainda hoje recordo muito das minhas construções e confabulações sobre tão misteriosa figura que desde muito novo me atraiu e que me levou mais tarde a documentar-me de outra maneira.
O que é certo é que nunca mais esqueci aquela localidade, o João Brandão e a minha primeira viagem "longa" de camioneta com todas as fantasias inerentes. Depois, mais tarde, passei muitas vezes por aquele sítio, mas nunca me deu para parar e a visitar. Hoje tive essa oportunidade. Fiquei muito admirado com os solares e casas apalaçadas. Curiosamente, a festa do Corpo de Deus, por supressão do feriado, passou para o domingo seguinte. A igreja, de dimensões razoáveis, estava aberta, muita gente espraiava-se pelo adro e também pelo templo, com muitas crianças vestidas à maneira. Deverão ter cumprido mais uma etapa na sua formação religiosa. 
Entrei no templo. Do lado esquerdo, numa capela lateral, estava pendurado um belo Cristo sem braços. Chamou-me a atenção pela beleza que irradiava. O meu primeiro pensamento foi para o mais famoso bandoleiro da Beira Alta. Deve ter estado naquele lugar e olhado para a escultura. Não sei o que terá sentido, e nem sei mesmo se rezou, eu não, não rezei, apenas admirei uma preciosidade e pus-me a imaginar onde estariam os seus braços, escondidos, atrás das costas, ou numa postura imaginária deixando a cada um a construção de um quadro pouco habitual. Fiquei a olhá-lo durante algum tempo, um tempo que mergulhou noutros tempos, no meu e no de outro, combinando tempos diferentes no mesmo tempo.

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