sábado, 28 de fevereiro de 2015

Uma alegre reincarnação soarista

Manuel Alegre pede a Costa "ruptura total com a austeridade", refere o DN.
Liberdade poética ou reincarnação em Mário Soares?

O que parece não é e o que é não parece...

Quando ontem me perguntaram qual a cor deste vestido comecei por duvidar porque achei que a pergunta não fazia sentido. As cores do vestido não poderiam fugir muito, achava eu, dos tons azuis e violetas em relação ao tecido e do preto e cinzento escuro quanto às rendas.
Ainda torci o nariz, mas depois disse de minha justiça: o vestido é de um azul violeta, adornado de cinzento escuro.
Tinha razão. Mas então porquê a pergunta? Hoje fiz o teste com uma amiga. A resposta foi: o vestido é branco e dourado. Claro e escuro: duas visões opostas. Curioso! A explicação para esta diferença de ver as cores está aqui
A disposição, ou o humor, é um dos factores que influencia a cor que vemos. Fiquei a saber que ontem estava pessimista e hoje, também, porque não consigo alterar as cores que vejo. A minha amiga, porém, estava muito bem disposta (mas eu, também!). As cores eram claras. Impossível não ser assim, o vestido não tinha cores escuras! 
Mas não é só o nosso estado de espírito que influencia as cores que vemos, há razões oftalmológicas  que combinadas com a luminosidade explicam que duas pessoas olhando para o mesmo objecto o vejam de cores diferentes.
Na ficha técnica do vestido consta a cor azul. Experimentem...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

E ainda não começaram a dar execução ao caderno de medidas apresentado...


  1. Encontrei na imprensa matutina “on-line” de hoje uma notícia que muito me surpreendeu, referente à Grécia. Passo a citar.
  2. “A capital da Grécia foi esta 5ª Feira à noite palco da primeira manifestação contra o novo Governo de esquerda liderado pelo Syriza; o protesto acabou em violência.
  3. Dezenas de manifestantes lançaram pedras e bombas incendiárias contra a polícia, lançando o caos nas ruas de Atenas.
  4. Vários carros foram incendiados e dezenas de montras de lojas foram destruídas na parte final do protesto.
  5. São os primeiros confrontos graves desde a tomada de posse do novo Governo de esquerda, que prometeu acabar com a austeridade na Grécia e renegociar as condições de pagamento da dívida” – fim de citação.
  6. Ao ler esta notícia ocorreu-me o seguinte: se a execução das medidas apresentadas pelo Governo da Grécia ainda nem começou e isto já vai assim, como será quando as medidas forem efectivamente implementadas? Ou será que as medidas não vão conhecer a luz do dia?

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Oh Costa, leva o biberon!...




“Depois da ignóbil ‘chinesice’ de Costa, demito-me do PS, e é já!”, escreveu Alfredo Barroso.

A seguir, António Costa anunciou que vai esclarecer pessoalmente com Barroso o contexto das suas declarações.
Vendo o biberon, normalmente os petizes choramingões deixam as birras...

Classe política: um grupo de maldizentes

Portugal encontra-se numa situação melhor do que aquela em que estava há quatro anos, cito de memória António Costa num encontro com investidores chineses na Póvoa do Varzim. 
Disse e disse muito bem. 
Porque, num balanço global, é uma verdade objectiva e, mesmo que o não fosse integralmente, porque é uma obrigação de cidadania,  mormente de qualquer político, defender o país e dar dele uma imagem positiva a quem nos visita e pretende investir.
Perante o bem do país, as tricas partidárias deviam deixar de fazer sentido. Mas não. Os nossos políticos logo desataram numa abominável chinfrineira, negando, interpretando, apoiando ou vituperando, consoante os casos, as palavras de Costa. Com tal intensidade, que até o próprio as veio esclarecer, porventura, mesmo, a reescrever. 
Não há dúvida: a classe política caíu no charco. Mostrou, mais uma vez, que continua a ser um grupo de maldizentes. Tudo destruindo e nada construindo. Com a óbvia excepção de alguns, para confirmar a regra. 

Subsidiando a poluição alheia...

" A Europa não tem uma política energética, tem uma política ambiental e o lobby da política ambiental é tão grande que não permite ter uma política energética".
Ferreira de Oliveira, Presidente da GALP, no Economist Summit, anteontem, no Estoril
Ouvi ainda, mais coisa, menos coisa, que Portugal  também não tem uma política energética, tem uma política ambiental e o lobby da política ambiental é tão grande que não permite ter uma política energética. 
E eu concordo. Vejo os resultados. Um país responsável por apenas 0,17% do CO2 à escala mundial na liderança do combate contra o dióxido de carbono, mas pagando no preço da energia, nomeadamente na electricidade, e nos impostos, a poluição que os outros fazem. Uma política de subsidiação da poluição alheia. Nada mal. 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social: uma tentação...

Estes quereres e outros quereres são recorrentes. É de facto uma tentação política utilizar o FEFSS para resolver problemas que nada têm que ver com a sua vocação e com a gestão prudente do risco. Num tempo em que não há dinheiro, uma reserva financeira avaliada em 13 mil milhões de euros (em final de 2014) é uma atracção política. Um oásis no deserto: 8% do PIB. 
No passado recente, em Junho de 2013, o governo decidiu transformar o FEFSS num instrumento de gestão da dívida pública, obrigando a que o seu património esteja investido em 90% de dívida pública nacional. Até aquela data estavam estabelecidas regras de investimento máximas por categorias de activos. 
O que deve em cada momento determinar os investimentos é a prudência, tendo em conta a rendibilidade e o risco associados, a segurança dos activos e a capacidade de os transformar em liquidez. Esta prudência é tanto mais exigente atendendo a que o FEFSS se destina a fazer face a responsabilidades com pensões e ao facto de o Sistema Previdencial de Segurança Social se encontrar em ruptura financeira. Os défices gerados anualmente têm estado a ser financiados pelos impostos. Uma opção política discutível. Mas não é meu propósito discuti-la neste texto. 
O património do FEFSS pertence aos contribuintes e pensionistas da Segurança Social. Foi essencialmente alimentado por contribuições dos trabalhadores e por excedentes financeiros do Sistema Previdencial de Segurança Social no tempo em que a conjuntura económica o permitia e em que o sistema acumulava saldos positivos. 
Sobre a medida pouco ou nada se comentou. Ou ninguém a levou a sério ou ninguém se apercebeu sobre o que verdadeiramente está em causa. Na duvida, aqui fica este apontamento.

Contas Externas de 2014: um "finale" atípico...


  1. Estão encerradas contas externas de 2014 e, como se esperava, foram apurados excedentes bastante confortáveis, tanto das Balanças Corrente+ Capital, de € 3.608 milhões (2,1% PIB), como das Balanças de Bens+ Serviços, de € 1.981,6 milhões (1,15% do PIB).
  2. No entanto, em qualquer dos casos, estes saldos são claramente inferiores aos verificados em 2013: menos 30% no saldo Corrente+ Capital e menos 32,9% no saldo Bens+Serviços.
  3. Se no caso das Balanças Bens+Serviços o resultado não se afasta muito do esperado (embora tenha causado enorme consternação como referi em Post anterior), já no caso das Balanças Corrente+Capital o saldo final fica bastante aquém do esperado - curiosamente o próprio BdeP no seu Boletim de Inverno, há poucas semanas, ainda previa um saldo equivalente a 2,6% do PIB e agora temos qualquer coisa como € 800 milhões aquém disso…
  4. É realmente surpreendente que, em apenas um mês, o saldo Corrente+ Capital tenha passado de um valor acumulado que superava o do mesmo período de 2013 em 13,3% (dados do final de Novembro), para um valor acumulado que fica 30% abaixo do de 2013…
  5. Como explicar?
  6. A explicação encontra-se, curiosamente, no comportamento da rubrica de “Rendimento Primário” e, dentro desta, da sub-rúbrica “Rendimento de Investimento Directo Estrangeiro”:  enquanto, em 2013, o valor acumulado do saldo desta rúbrica passou de - € 1.078,8 milhões até Novembro para -€ 145 milhões no final do ano – ou seja uma recuperação de € 933,8 milhões – em 2014 não só não houve recuperação, na transição Nov/Dez como se registou mesmo um agravamento de quase € 260 milhões…
  7. Apura-se assim, em termos diferenciais, um agravamento de € 1.194 milhões (€ 933,8 milhões+€ 260 milhões) entre o final de 2013 e o final de 2014. Este agravamento, se adicionado à queda do superavit da Balança de Capital (menos € 200 milhões em 2014), perfaz quase os tais 30% a menos no superavit Corrente+Capital.
  8. Moral da história? Lembrar-nos que o IDE é sempre muito bonito e festejado, aquando do “inflow” (e dos efeitos induzidos sobre a economia quando implica novo capital produtivo e/ou melhoria na gestão dos recursos) – mas não nos podemos esquecer que depois do “inflow” vêm os “outflows” da distribuição do rendimento, e que esses “outflows” podem ter, como tiveram neste caso, uma influência relevante no desempenho das contas com o exterior…
  9. Um bom tema para os nossos estimadíssimos Crescimentistas glosarem com a sua proverbial sabedoria e imaginação, admito que pretendam sugerir uma política de forte atracção de IDE tendo como base um compromisso prévio de não repatriação de rendimentos…
 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Pois é...os inocentes gregos e os safados alemães!...

Em 1985, a Grécia vetava a entrada de Portugal na CEE. E fazia depender o levantamento do veto do recebimento de mais dinheiro... 
Afinal, quem pagou, em 1985, os milhões exigidos pela Grécia para Portugal e Espanha entrarem na CEE foi...a Alemanha!...
Pois é...estes safados alemães...
Adenda: E quem esteve na origem da chantagem grega foi o PASOK. Foram os socialistas gregos que não mostrarem qualquer solidariedade conosco, e foram os alemães que a tiveram.

Para colher, é preciso semear…

A decisão não é apenas polémica, é incompreensível! 
Portugal só pode ambicionar ter crescimento económico através da actividade exportadora. É condição fazê-lo de forma sustentada. Precisamos de continuar a fazer um grande esforço, a concorrência é grande, a globalização está cada vez mais “global”, nada está garantido sem muito trabalho e sem dar a conhecer por esse mundo fora o nosso país - quem somos e o que fazemos - e a qualidade e as especificidades próprias e únicas dos nossos produtos e serviços.
O sector agro-alimentar tem vindo a melhorar o seu desempenho exportador e tem potencial de crescimento. Parece que ninguém sabe “como foi possível ter deixado passar esta oportunidade de Portugal estar presente na Expo Universal de Milão. Ninguém sabe! 
Das leituras que fiz, apercebi-me que o evento não é só uma feira, é também uma exposição que reúne percursos temáticos, debates e ideias em torno do tema central “Alimentar o Planeta, Energia para a Vida“. A Expo Universal de Milão vai reunir mais de 140 países e espera receber 20 milhões de visitantes. 
São 8 milhões de euros que nos impedem de ir? E quantos milhões iremos perder por estarmos ausentes desta magnífica montra? Esta visão pequenina de curto prazo vai continuar a penalizar o nosso futuro. Queremos ter retorno sem investir? Para colher, é preciso semear…

Saúda-se, vivamente, a vertiginosa social-democratização do Syriza...


  1. Em apenas 2 semanas, a força das realidades  - neste caso uma realidade de tipo apocalíptico, traduzida numa iminente corrida aos bancos (na verdade já iniciada, só faltando a última etapa) e na consequente insolvabilidade do Estado grego – operou uma metamorfose política que à partida se consideraria inimaginável…
  2. …mediante a transformação de um partido auto-proclamado de extrema esquerda, que se mostrou capaz de arrebatar o voto popular na base de um programa de governo cheio de promessas delirantes, num partido com um programa de governo de tipo social-democrata de pendor claramente conservador, que enterra, virtualmente, todas as ditas promessas!
  3. Pessoalmente, só posso exprimir a minha admiração por esta manifestação de realismo dos protagonistas de tal metamorfose política, reveladora de uma insuspeita capacidade de adaptação a um cenário claramente adverso, que naturalmente limitava, drasticamente, as opções de política económica…
  4. …embora compreenda as dificuldades que o governo grego terá, certamente, para explicar esta formidável pirueta política a um eleitorado que lhe confiou o voto com a finalidade de executar um programa de medidas totalmente oposto, bem com a alguns “hard-liners” do próprio partido (ou partidos) do governo, que já começaram a revelar forte indisposição…
  5. Ao mesmo tempo desejo desde já (aqui por antecipação) exprimir a minha admiração pelos muitos militantes do “papa-açordismo” nacional no tratamento do tema grego, que, tendo sido incansáveis na proclamação das virtudes do anterior programa de governo, repudiando, com toda a veemência, a intolerância do Euro-grupo face às mais que legítimas pretensões da Grécia explicitadas nesse programa…
  6. …não deixarão certamente de proclamar esta importante vitória do governo e do povo da Grécia, impondo uma clamorosa derrota ao todo poderoso Euro-grupo e, melhor ainda, à toda poderosa Alemanha (com Portugal e Espanha a tiracolo)…
  7. Em suma, um grande “saludo” a todos estes protagonistas da Nova Ordem Europeia.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

E nós a pagar a neve em Atlanta!...

Creio que é da maior justiça saudar o nosso Ministro do Ambiente, Jorge Moreira da Silva, por ter conseguido, com a sua luta tenaz contra o aquecimento global, que tivesse nevado com fartura às portas de Atlanta, no Estado da Geórgia, EUA.
Assim, nessa cidade do Sul profundo imortalizada pelo filme " E tudo o vento levou", beneficia-se já das medidas do Ministro JMS a favor da fiscalidade verde e contra os sacos de plástico ... 
Mais um esforço dos contribuintes portugueses e ainda vamos ter neve no Catar, muito antes do Campeonato do Mundo de Futebol...
Com Jorge Moreira da Silva a ter direito ao pontapé de saída. Bem merecido!...
(texto inspirado numa mensagem recebida de um amigo)

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A solidariedade grega...


Em 1985, a Grécia vetava a entrada de Portugal na CEE. E fazia depender o levantamento do veto do recebimento de mais dinheiro...

Acordo Grego: a propaganda, e a verdade a que temos direito

Para além da avalanche informativa, digo, propagandística, que criou uma realidade virtual e deu uma estrondosa vitória ao Syriza nas reuniões com o Eurogrupo, socorro-me de Vital Moreira, no Blog Causa Nossa, para repor a verdade a que temos direito.
O Governo grego não obteve "nem corte na dívida, nem fim da austeridade orçamental, nem reversão das medidas tomadas, nem novo empréstimo à margem do programa de resgate em vigor (que o Syriza tinha declarado morto e sepultado), nem fim da supervisão da troika (que só perde o nome)".
E escreve ainda Vital Moreira: "Uma nota humilhante para a Grécia (que traduz a falta de confiança de Bruxelas em Atenas) é o facto de os 11 000 milhões de euros que tinham sido emprestados à Grécia para eventual recapitalização dos bancos gregos, e que o Governo Syriza queria desviar para outros fins, vão voltar à UE, ficando confiados à guarda do ECB, não vá o diabo tecê-las..."
Vital Moreira, no Blog Causa Nossa-Vertigem Grega 13 

Um singelo atentado contra a vida de uma desafortunada. Nada que possa desviar a nossa justiça dos casos premiados pelos media.

Ouvi a notícia ontem pela primeira vez. Hoje é repetida, hora a hora, no telejornal de uma das TV. 
A estória, apesar de trágica, é o pão nosso de cada dia. Uma mulher espancada pelo marido, em plena via pública e à vista da filha de 5 anos de idade. Com violência tal que o energúmeno se convenceu que tinha posto fim à vida da sua vítima de há muitos anos. Detido e presente à senhora juíza de instrução criminal terá sido libertado após primeiro interrogatório e sujeito a termo de identidade e residência. A mulher, essa, pediu proteção à comunicação social na esperança, julgo eu, de a denúncia pública assustar mais o seu agressor diário do que as autoridades que em nome do Estado deveriam garantir a sua dignidade, a sua integridade física e a inviolabilidade da sua vida. Bem como proteger a sua filha de um rematado canalha. 
Notei desde logo que a forma como a notícia é dada revela que a censura mais forte é dirigida a senhora juíza de instrução que, perante a barbárie, devolveu à liberdade um potencial assassino, recusando-se a afastar o agressor da sociedade até ao julgamento e a prevenir um fim ainda mais trágico do que a tragédia da agressões continuadas.
"Não se entende!", "Como é possível?!" ouço comentar ao meu lado. Eu explico. Na audição ficou claro que se tratava de um crime contra as pessoas e não contra o Estado ou contra a moralidade oficial. Na verdade, nem o ministério público nem a senhora juíza foram confrontados com vestígios daquilo que constituem práticas hediondas, mesmo que só suspeitas. Essas sim merecedoras de um imediato isolamento do agente, antes de qualquer culpa formada, não vá a sociedade enlouquecer, apavorada com a perspetiva de contágio. Não foram achados indícios de fraude fiscal, de branqueamento de capitais, de suborno. Provavelmente até se apurou que a taxa de saneamento básico o energúmeno tinha em dia. Trata-se, pois, somente, de um vulgar caso de ódio assassino de um homem contra uma mulher frágil e a imposição de marcas indeléveis  numa criança.
Ora, desde quando é que o ódio assassino ocupa lugar no discurso político, naquele discurso onde assentam as prioridades criminais?
Por isso, vai aqui o meu aplauso para a meritíssima pela sua acuidade fiel às prioridades da justiça. 

A vítima? Faço votos para que encontre uma mão protetora, uma alma amiga e corajosa que a esconda.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O típico "deixa andar"...

Esta notícia sobre o estado de degradação a que chegou o belo edifício em que funciona a Escola de Música do Conservatório de Lisboa fez-me recuar no tempo. É que este assunto não é novo. Os graves danos estruturais a requererem uma intervenção profunda remontam a, pelo menos, 2007. Decorreram, entretanto, cerca de sete anos.  Sete anos! 
Em 2007 escrevi: (...) A realidade que está à vista não é, como é óbvio, obra de agora. É consequência de uma enorme negligência e inércia
 que ao longo dos anos se tem vindo a verificar. É inacreditável que se tenha chegado ao ponto a que se chegou no único Conservatório de Música existente em Lisboa. E digo único porque se olharmos para o que se passa em outras capitais europeias como Paris ou Praga verificamos que existe uma escola de música por bairro. Veremos se a petição tem o condão de sensibilizar o Governo para que não se cometa mais este crime de lesa-património. Se o Governo continuar de braços cruzados, ficamos sem Património e sem Música. Ficamos também cada vez mais longe da Cultura e da Educação. Cada vez mais ignorantes…
E, agora, em 2015, escreveria o mesmo. Mudou alguma coisa? E vai mudar?

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Uma lição

Já não a via há um ano. Entrou ao final da tarde com um belo sorriso lançado do alto da sua delicada estatura. Um sorriso franco, legítimo, suave, espontâneo como a querer demonstrar o desejo de viver com alegria. Seduz-me sempre este tipo de atitude, em que os olhos falam como almas verdadeiramente livres, sempre à espera de um momento de conversa, de alento, de conforto e confirmar que vale a pena ter esperança. Misturou-se tudo na minha cabeça, e o cansaço que se vinha acumulando ao longo do dia desapareceu como que por magia. Perguntei-lhe se estava tudo bem, se não tinha havido qualquer interocorrência durante o último ano, uma pergunta banal, formal mesmo, e para a qual anseio sempre uma resposta afirmativa. Sorriu. - Agora parece que está tudo bem, só tive, entretanto, um carcinoma papilar. - Como?! Perguntei ansioso e preocupado, tanto mais que a forma como disse me perturbou imenso. Sorriu com muita simpatia, talvez para me tranquilizar, o que não é habitual ver quando se está perante um médico. Fiquei embasbacado. - Como abordar o assunto? Pensei. A sua inteligência pôs-se em marcha e facilitou-me a vida. Explicou que tudo tinha decorrido na sequência de um grave acidente de viação. Por causa disso teve de fazer vários exames e num deles foi-lhe detetada uma anomalia que teve de ser esclarecida e que não tinha nada a ver com os traumatismos. Afinal tinha um cancro. Foi operada. - Está tudo resolvido, senhor doutor. E eu calado com o dedo a imitar uma esferográfica pronto a preencher a sua ficha clínica. Nunca largou o seu sorriso, o qual me tranquilizava à medida que fazia a sua narrativa. - Li há dias que o cancro era uma questão de azar. - Pois! Comentei instintivamente, embora naquele caso eu considerasse  estar perante uma questão de sorte. Não sei se entendeu o alcance da minha interjeição. Julgo que sim. - Sabe uma coisa senhor doutor? Sempre que ouço a palavra cancro assusto-me, provoca-me medo e ansiedade. - Claro. Pensei. - Mas já estou habituada. - Como? Não entendo, disse-lhe. Reforçou o seu encantador sorriso. - Há oito anos tive outro. Foi diagnosticado em fase inicial, fui operada e fiquei curada. Os meus pensamentos entraram num volteio difícil de explicar, mas a senhora continuou, e eu ia aprendendo. - Olhe, pior que um cancro é a depressão. Eu tive uma grave depressão há alguns anos, fiquei sem saber quem era e o que fazia. Uma coisa horrível. Sabe porquê? Por causa da morte de uma menina a quem eu queria muito. Interrompi-a. - Eu sei. A senhora já me contou no ano passado. Foi então que me lembrei de um drama terrível em que uma criança morreu num sofrimento difícil de entender por mais que os deuses ou os seus acólitos tentem explicar. A senhora voltou a reforçar o seu belo e tranquilizador sorriso. Senti que ficou agradecida, não só por não ter esquecido o que aconteceu, mas também por não ter que repetir a história. A conversa continuou e a senhora declarou que quer continuar a viver. Mostrou-me a cicatriz e perguntou-me se iria melhorar o aspeto. - Claro que vai. - E se não melhorar as rugas da velhice encarregar-se-ão de a esconder. Deu uma curta gargalhada. 
No final despedimo-nos como velhos amigos e confidentes. O que é certo é que me deu uma lição de vida que não posso, e nem devo, esquecer. Os médicos também aprendem lições de quem nos consultam, e ajudam-nos a tratar dos nossos medos e angústias. 

Finalmente a unanimidade!

Depois do fado, o futebol.
Ainda dizem que não há consensos sobre coisas decisivas para o futuro do País! Más línguas!

PS: À margem (ou talvez não): Torres Vedras apresenta a candidatura do carnaval a património mundial. Todos estamos, claro, solidários com esse nobilissimo, relevantissimo e mobilizador objetivo nacional...

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

"Restaurar o contrato social para reconciliar as gerações"


Regresso da apresentação do livro da "nossa" Margarida Corrêa de Aguiar. Estimulado pelo feliz subtítulo e pelo que ali ouvi, sacrifiquei a emergência de outras leituras para lhe dar uma vista de olhos. Parece ser tudo o que prometem as palavras e a simbologia da capa. Mas é, já o percebi, uma chamada à reflexão e à discussão pública de questão que a todos diz respeito, com a inegável vantagem de a Autora ser alguém que, como poucos, sabe do que escreve. Ao longo do tempo em que ambos exercemos funções governamentais pude aperceber-me da solidez do conhecimento, da clarividência com que encara em geral as questões sociais. Conhecimento e clarividência aliás demonstrados pelos inúmeros textos que aqui são publicados com a assinatura da Margarida.
Parabéns pela edição, mas sobretudo pela reposição no debate público do tema do contrato social e da confiança essencial para a reconciliação de gerações.

Bater com a mão no peito. Violentamente.

"Não critico os altos funcionários, mas não se coloca um alto funcionário perante um primeiro-ministro ou um ministro das Finanças de um país, não é esse o seu nível. Há que colocar um comissário ou um ministro que tenha a autoridade do Eurogrupo", foi uma das afirmações surpreendentes do atual presidente da Comissão. Para mim, afirmação bem mais surpreendente do que a mea culpa do antigo responsável pelo Eurogrupo quando disse que a UE e os restantes membros da troica pecaram contra a dignidade dos povos dos Estados sob assistência, em especial Portugal e Grécia. 
Aqui no 4R me manifestei em posts e comentários surpreendido pela indiferença perante a supremacia dos funcionários daquelas instituições, bem traduzida quer no discurso por vezes antagónico em relação às declarações públicas dos responsáveis máximos (o caso das sucessivas desautorizações da senhora Lagarde pelos funcionários do FMI é o exemplo mais chocante). Mas também pelo tratamento que era dispensado aos técnicos do BCE, da UE e do FMI, não só pelos media mas sobretudo pelas autoridades, patenteando uma subserviência que incomodava espíritos mais sensíveis - como pelos vistos é o meu. 
Reconhece-se agora que não se coloca um funcionário perante um PM ou um ministro. Tem obviamente razão Jean-Claude Juncker. Disso deveriam, eventualmente, ter consciência os PM e ministros que se submeteram a uma autoridade que agora se entende "ilegítima". 
É certo que para confessar um pecado é logicamente necessário tê-lo cometido. Dir-me-ão que importante é, agora, perceber qual a penitência redentora, se passaremos a ver comissários e responsáveis dos órgãos das instituições, e não (somente) funcionários, nas reuniões de alto nível com os governos e parlamentos nacionais. E eu estou de acordo, Mas deixem-me desabafar: esta confissão não deixa de ser o reconhecimento tardio, muito tardio, da cegueira que começou em 2008 com a ordem para gastar à tripa forra, e acabou - esperemos... - com a assunção do pecado de lesa dignidade dos povos que são a própria Europa.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A irreverente inconsequência do governo grego ou o "papa-açordismo" doméstico na abordagem a este tema - não sei qual mais admirar!

1. O "show" helénico prossegue, agora em risco de ficar sem rede, enquanto se aproxima alegremente do abismo, depois de as negociações no âmbito do Eurogrupo terem resultado em coisa nenhuma...
2...o que significa que os demais países do Euro não estão disponíveis para aceitar os planos quase misteriosos do governo grego para resolver a profunda crise em que o País se acha mergulhado e se agrava dia a dia...
3...planos que, para além de uma componente de mistério, em que pelos vistos ninguém quer confiar, é razoavelmente equivalente à entrega de um "cheque em branco": (i) suspensão do actual Programa de Assistência, (ii) despedimento da Troika, (iii) concessão de um "bridge loan" para cobrir as necessidades dos tempos mais próximos e (iv) concessão de meia dúzia de meses para que o governo grego prepare, com tranquilidade um novo Programa (mistério) que contemple as suas promessas eleitorais...tendo em vista a sua aceitação pelos credores, mesmo que com ele não concordem...
4. Ao mesmo tempo, têm-se multiplicado no mercado da informação indígena as mais coloridas tomadas de posição em favor da luta dos gregos contra a opressão dos seus credores e, em especial, dos demais países da zona Euro, glorificando a heroica resistência grega e diabolizando a  falta de solidariedade dos restantes membros da zona, acusados de não saber entender as legítimas reivindicações do governo grego.
5. Em suma, o que se tem ouvido e lido por estes dias conduz-nos à admirável conclusão de que a solução ideal, numa zona monetária como a do Euro, seria cada qual fazer o que muito bem entenda - quem quer ser fiscalmente disciplinado que seja, quem quiser ser indisciplinado poderá também estar à sua vontade - o que importa é sermos todos solidários uns com os outros, sempre disponíveis para pagar as facturas dos que, com toda a "legitimidade", não estiverem disponíveis para aceitar as regras da disciplina financeira!...
6. Que grande zona monetária seria esta!
7. Este "papa-açordismo" nacional tem-me feito pensar nas muitas centenas, milhares quiçá, de empresas privadas portuguesas, que nestes últimos 4 anos realizaram esforços gigantescos para sobreviver às dramáticas consequências da crise financeira, suportando sacrifícios de toda a ordem - reduções de efectivos, reduções de salários, extinção dos mais variados benefícios - aventurando-se em novos mercados e conseguindo, com muito custo, cumprir as suas obrigações perante os seus credores financeiros e não financeiros...
8...sem que tenha surgido qualquer movimento de opinião doméstico - muito menos do famoso Pelotão da Inadimplência - para defender os direitos destas empresas a uma vida melhor, em especial sustentando o direito de não reembolsar as suas dívidas e de solicitarem o apoio do Estado para poderem continuar a pagar os salários!
9. Confesso que entre este "papa-açordismo" das correntes de opinião tristemente dominantes entre nós e a irreverência inconsequente do governo grego se torna difícil escolher - qual deles o mais admirável?

De vez em vez ouve-se a voz que tem a coragem de gritar que o rei vai nú

"A miséria só não dói na boca dos outros. Por isso escapamos dela em silêncio. Também por isso, e se as pessoas é que contam, a pobreza jamais deveria ser politicamente instrumentalizada, por vezes a roçar o boçal". Não conheço Gabriel Mithá Ribeiro. Nunca o tinha lido. Mas, independentemente de algumas discordâncias com afirmações que faz, tem o meu profundo respeito.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Apoios e estigmas, faces da mesma moeda...

Não estando em causa a importância da medida - essencial numa situação de provação económica que abrange milhares de portugueses - o estudo aqui noticiado remete-nos, também, para uma outra reflexão: se o apoio alimentar às famílias carenciadas deve ser ou não prioritariamente orientado através das cantinas sociais. 
O apoio em refeições, maioritariamente a serem tomadas colectivamente, parece ser muito mais estigmatizante das pessoas carenciadas que sentem necessidade de resguardar a sua situação de dificuldade económica, pobreza ou, mesmo, privação material. Está em causa uma necessidade de reserva da vida privada motivada por sentimentos variados que nem sempre são compreendidos ou que não raras vezes estão identificados mas são remetidos para segundo plano.
As refeições tomadas em espaço colectivo contrariam a autonomização da governação da vida doméstica e familiar, com todas as consequências negativas que daqui resultam. A esta lógica assistencialista contrapõe-se uma lógica de apoio social inclusivo assente em prestações sociais concedidas pela segurança social e pela acção social das autarquias e, no caso particular da alimentação, nos cabazes de alimentos distribuídos pela rede de instituições particulares sociais. 
Esta abordagem, para além de menos estigmatizante, permite que as famílias carenciadas ao integrarem as tarefas da alimentação na vida doméstica e familiar (por exemplo, os actos de comprar, de escolher, de confeccionar e de tomar uma refeição em família) contribuam para manter obrigações e vivências da vida doméstica que são essenciais a uma vida familiar saudável. A autonomia da família não é afectada da mesma forma em ambas as opções.
Acresce, também, que a entrega de cabazes de alimentos ou a atribuição de prestações sociais permitem (ou deveriam permitir) um contacto regular e um acompanhamento familiar e individual por parte da segurança social e das instituições de solidariedade social que não são e nem podem ser prestados na tomada de refeições em grupos largos e heterogéneos. 
O estudo noticiado faz as contas para ambas as alternativas, tomando como exemplo uma família de quatro pessoas - pai, mãe e dois filhos - para concluir que financeiramente é mais caro ao orçamento da Segurança Social pagar a esta família duas refeições por dia numa cantina social do que pagar a prestação “rendimento social de inserção”.
A questão não se resume à dimensão financeira e orçamental. É bem mais complexa. Estão em causa opções de política social que reflectem concepções ideológicas e políticas distintas sobre aspectos tão essenciais como conceitos de integração e inclusão sociais e de protecção social de famílias carenciadas e sobre o papel do Estado, como pode e deve intervir no combate à pobreza e exclusão social. São temas difíceis, mas a crise que atravessamos não nos deve desviar do essencial. É essencial ajudar as famílias com carências económicas e aliviar e combater a pobreza sem perder de vista o que queremos construir para a frente. O que fizermos agora não deixará de ter impactos no futuro.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Se fosse vivo...

... este homem seria um herói nestes tempos em que tanto se glorifica a delação.


O exemplo dos taxis

Os taxistas (e pelos vistos o regulador) consideram ilegal o Uber
Em suma, os taxistas consideram que ninguém pode invadir o seu território ou fazer-lhes concorrência. Alguns dos ultaliberais no poder também...
Os taxistas só não estão contra os veículos decrépitos, desconfortáveis, sujos que conduzem.
Nem contra a antipatia de muitos, contra a má apresentação nem contra os muitos casos de burla e más contas. Ao que parece o neoliberalismo também não está.

Um exemplo, entre muitos, da nossa endógena ultraliberal alergia à concorrência e à competição estimulantes...
O país (a Grécia) sabe que sair do euro - a curto prazo pelo menos - seria catastrófico; mas o sofrimento de manter as restrições é insuportável. No entanto, as reformas estruturais desejadas pelo resto da Europa são realmente necessárias. 
É por isso que o problema do governo grego não é simplesmente o reembolso da dívida; é a oposição às reformas.
Tony Blair, no DN de ontem 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Agora é Tsipras que deixa Varoufakis no vazio...que mais ainda vamos ver?


  1. Segundo rezam as crónicas da reunião do Eurogrupo de ontem, teria sido alcançado, ao fim de 5 horas de “amena” discussão, um projecto de  comunicado conjunto que procurava harmonizar as posições, à partida muito divergentes, da Grécia e dos seus parceiros do Euro; em especial quanto á questão dos próximos passos a dar para ultrapassar o problema de o Programa de Assistência, em curso, chegar ao seu final no corrente mês, sem que exista uma solução alternativa que permita manter as finanças da Grécia a flutuar…
  2. Todavia, e quando menos se esperava, o já famoso Varoufakis terá comunicado o excelente resultado para Atenas, para o seu PM, com vista a obter o aval do Governo…tendo recebido de volta um redondo não!
  3. Concluiu-se, assim, que o PM grego não está disponível para aceitar - embora Varoufakis estivesse – qualquer tipo de referência à ideia de extensão do Programa em curso, tendo como contrapartida a promessa de alterações a esse programa que satisfizessem, pelo menos em parte, as reivindicações do governo grego…
  4. A explicação mais plausível para este primeiro visível desencontro entre os principais responsáveis pela estratégia de negociação do governo grego, poderá residir no facto de o PM grego se encontrar virtualmente refém de posições mais radicais que existem dentro do seu Partido, bem como do incómodo parceiro de coligação, tendo por isso decidido mais uma vez “esticar a corda” e deixar o laborioso Varoufakis em posição bastante incómoda, obrigado a um segundo "round" de negociações na próxima semana, para as quais parte com um passivo não despiciendo…
  5. …"round" em que, como parece provável, se assistirá a uma iteracção do difícil exercício de ontem -  com algum "molho" de fraseologia decorativa para grego ler e apreciar - mas mantendo na essência o que ontem teria ficado acordado até ao fatídico telefonema de Varoufakis para Tsipras…
  6. Será que Varoufakis vai conseguir, no final do Eurogrupo da próxima 2ª Feira, quando tiver que voltar a chamar Atenas, evitar outra negativa?
  7. Mas pode acontecer que na Cimeira de hoje seja a vez de Tsipras chegar a um acordo com os seus pares, com a vantagem de não correr o risco de ser desfeiteado por Varoufakis…os mercados apontam para aí, vamos a ver…
  8. E, por cá, ainda há quem, num pronunciamento de grande clarividência, venha chamar a atenção para o risco de isolamento da Grécia...mas, até agora, quem tentou isolar a Grécia, além dos seus próprios responsáveis?

Os 32 da mão estendida


Entre eles, muitos, quase todos, dos maiores críticos da União Europeia. Afinal, o grande objectivo da crítica é obter mais uma esmolita. Para que tudo continue na mesma. 
Estranhos modos de vida destas elites, andar sempre de mão estendida!...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A curiosa consternação com o agravamento do défice de mercadorias em 2014


  1. Foi tema muito noticiado e comentado nos últimos 2 dias o agravamento, em € 926 milhões, do défice da balança de bens com o exterior em 2014 por comparação a 2013.
  2. Com efeito, segundo as estatísticas divulgadas no início da semana, as exportações de bens aumentaram apenas 1,9%, de € 47.266 milhões em 2013 para € 48.181 milhões em 2014, enquanto que as importações aumentaram 3,2%, de € 56.906 milhões para € 58.746 milhões  – apurando-se uma diferença no ritmo de crescimento desta duas variáveis, de 1,9% para 3,2%, que, a julgar pelas opiniões expendidas, se terá revelado astronómica…
  3. Não deixo de notar, de passagem, que este agravamento de € 926 milhões é inferior ao que se registava até ao final de Novembro, o qual atingia € 1.097 milhões, o que significa ter havido em Dezembro uma recuperação de € 171 milhões…
  4. Mas o mais curioso disto tudo é que os comentadores que se mobilizaram para comentar a “desgraça” que foi este agravamento do défice comercial, nalguns casos literalmente lavados em lágrimas, são os mesmos que clamam, incessantemente, pela necessidade de alívio das medidas de austeridade e pretendem, consequentemente, que a procura interna possa crescer mais depressa incentivada pelo aumento do rendimento disponível…
  5. Não há maneira de entenderem que qualquer aumento da procura interna, seja de consumo seja de investimento, vai necessariamente traduzir-se num aumento de importações…foi exactamente o que aconteceu em 2014 em que já se registou algum alívio em cortes de salários e pensões, conduzindo a um aumento da despesa orçamental com pessoal  e, naturalmente, a uma maior procura de bens importados (vidé o forte aumento da compra de automóveis, que aliás prossegue em 2015).
  6. Ou então entendem mas querem tratar-nos virtualmente como parvos…
  7. Num registo mais caricato, encontrei num conhecido diário esta interessantíssima notícia: “Importações da Alemanha contribuem para o agravamento do défice comercial”…com esta aprendi alguma coisa, ou seja que as importações, desde que provenientes de outros países que não a Alemanha, podem não contribuir para o défice comercial…
  8. Só falta referir que, com este resultado para a balança de bens e tendo em conta o que já se sabia sobre as demais rubricas da balança de pagamentos até ao final de Novembro, é agora praticamente certo que o saldo conjunto das Balanças Corrente e de Capital – o saldo dos saldos – deverá ter sido em 2014 confortavelmente superior ao de 2013…mas, quando essa notícia chegar, vai passar quase despercebida, “felizmente”.

 

Confrontando opiniões

Vitor Bento divulga no Observador um texto em que dá a sua perspetiva do percurso seguido pelas diferentes realidades económicas existentes no seio da União Europeia. Creio ser uma reflexão importante de quem não é suspeito de radicalismo ou de emitir infundadas opiniões. Um contributo, pois, para o confronto saudável de posições.
Para o debate, fica também o link para a opinião de Rui Ramos sobre o texto de Vitor Bento.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Breves da política caseira (II)...

Muitas escolas do ensino artístico estão sem receber as transferências orçamentais que são necessárias ao seu funcionamento. Há professores sem receberem salários, as escolas têm dívidas a fornecedores, há alunos sem frequentarem as aulas de música. 
Refere a notícia que as escolas do ensino artístico com financiamentos em atraso vão finalmente ver a sua situação resolvida. Se há meios financeiros orçamentados não se compreende porque é que o Ministério da Educação e Ciência (MEC) não assegura que as transferências são feitas com a devida antecedência. 
O que está em causa é o normal funcionamento das actividades escolares. Nada de extraordinário. Porque é que os pagamentos atrasados acontecem invariavelmente? Geram perturbações perfeitamente dispensáveis. Não deveria o MEC fazer um esforço de organização, acabando de uma vez por todas com este tipo de rupturas? A bem da educação...

Breves da política caseira (I)...

Reza a notícia que 90% dos novos nomeados já lá estava. Trocando por miúdos: nove em cada dez dirigentes de topo que estão a ser nomeados pelos diferentes ministros já ocupavam as funções para as quais passam a situação definitiva, depois de as exercerem “provisoriamente” nos últimos anos. Pergunta-se, então, para que serve a CRESAP (Comissão de Recrutamento e Selecção da Administração Pública)? Hoje ouvi alguém dizer que serve para dar guarida a estas situações...

Dispensamos bem as prefecias patéticas e os deslizes de Varoufakis...mas pode continuar!


  1. O novo ministro das finanças da Grécia parece não estar ainda satisfeito com a inenarrável confusão que conseguiu criar em torno da já muito difícil situação económica e financeira do seu País, tornando indecifráveis as suas prioridades e objectivos – e dando mesmo a sensação de estar sobretudo empenhado em indispor os seus credores aos quais, paradoxalmente, vai apresentando exigências, com o falso rótulo de propostas, para obter novos financiamentos.
  2. Na verdade, para além desse trabalho tão meritório como deletério, na frente interna, entretém-se agora a disparar ameaças sobre a zona Euro, tendo ontem chegado ao ponto de afirmar que esta zona será como um baralho de cartas: se lhe tirarem a carta da Grécia, a mais vulnerável como se depreende das suas próprias palavras, a seguir cairão as cartas Portugal, Itália, e assim sucessivamente…
  3. Ao mesmo tempo, divulgou conversas que supostamente (…) teria mantido em privado com responsáveis governamentais italianos, nas quais estes lhe teriam afirmado que a dívida pública italiana seria também insustentável e que isso só não era tornado público para não por em causa a “tranquilidade” da zona Euro…
  4. …tendo obrigado a um rápido desmentido do Ministro das Finanças de Itália, em termos bastante diplomáticos mas suficientemente claros para se perceber quanto lhe “agradou” o deslize de Varoufakis…
  5. Curiosamente, a reacção dos mercados tem sido no sentido de castigar a Grécia, com fortes subidas do juro implícito (yield) na cotação da dívida grega e quedas de valor na bolsa de Atenas, com relevo para as acções representativas do capital dos bancos…mantendo uma calma olímpica em relação às dívidas dos restantes países do Euro…
  6. Relativamente à inabilidade e ao evidente amadorismo do Snr. Varoufakis na solução da complexíssima situação em que a Grécia se encontra – quando esta recomendaria uma abordagem radicalmente oposta ao estilo incendiário de Varoufakis - temos de reconhecer que é assunto que diz respeito aos gregos, pois se foram eles que decidiram mandatar estes especialistas para lhes tornar a vida ainda mais difícil do que já estava, só a eles cabe avaliar o desempenho dos seus mandatários…
  7. Mas, em relação às declarações claramente insensatas dirigidas a Portugal e á Itália, já nos cabe, mais afoitamente, recomendar ao Snr. Varoufakis um conveniente silêncio.
  8. Que se limite a tratar mal os problemas da Grécia, nós vivemos melhor sem os seus comentários apocalípticos e os seus deslizes de linguagem…e, melhor ainda, dispensamos o seu amadorismo…
  9. Todavia, se quiser insistir nesta senda de profecias patéticas e de dislates do mesmo tipo dos atrás citados pode prosseguir - quanto mais descrédito acumular melhor será para nós…e, em última análise, para os gregos, também.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Pecado meu...

"Não se pode desistir da política e não se pode apagá-la pela sua caricatura ou pela sua corrupção", diz D. Manuel Clemente nas vésperas de se tornar cardeal numa entrevista à Renascença
Já pensei assim, mas hoje confesso a fraqueza e deixo-me arrastar pela onda do descrédito, sem forças para voltar assim a pensar. É que quando a política se apaga porque se transforma numa caricatura ou navega na corrupção, não são as pessoas que desistem da política. É precisamente o contrário, é a política que desiste das pessoas.

Um Podemos monadero!...

Juan Carlos Monadero, o ideólogo do Podemos da esquerda espanhola e nº 3 na hierarquia do partido, foi apanhado em descarada fuga ao fisco, por não declaração de rendimentos no valor de 425.000 euros, que facturou em 2013, através de uma sociedade inexistente, alegadamente por trabalhos de assessoria a governos de esquerda da América Latina. Com tal procedimento, intentou não desembolsar  cerca de 130.000 euros de impostos. 
Para além de se discutir se esse dinheiro se deveu efectivamente a trabalhos de assessoria ou se se destinava ao financiamento do Podemos, o que é relevante é ter caído a máscara de dirigentes  de um partido que se vem armando em campeão da ética, de uma mais justa resistribuição dos rendimentos. e um combatente feroz da fraude fiscal. No que se refere aos outros, claro está.
Enfim, e em todo o seu esplendor, um Podemos monadero!...
O nome do ideólogo ajusta-se quase  na perfeição!...

Estranha forma de estimular o investimento e por a economia a crescer...


  1. "Discurso de Tsipras atira bolsas para o vermelho e faz disparar juros (yield) da dívida grega a 3 anos para cima de 20%"...pode ler-se hoje na imprensa on-line, dando conta das reacções dos mercados ao discurso do PM grego, na abertura do debate sobre o programa do novo governo da Grécia.
  2. Ainda segundo os media, “insistência do governo grego em recusar a extensão do programa internacional e na reposição de benefícios que colidem com o plano de resgate penalizam o sector financeiro e fazem disparar juros”…
  3. Mas o mais curioso é verificar que no mesmo discurso do PM do novo governo grego é conferida grande ênfase à necessidade de estimular o investimento para repor a economia a crescer…
  4. Eu interrogo-me como é que alguém, no seu perfeito juízo, estará disposto a investir numa economia onde a fantasia – e, porque não dize-lo, a irresponsabilidade - assumem papel primordial na definição dos objectivos e das prioridades de política…estranha forma esta, de "estimular" o investimento e o crescimento…

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Um simples arrefecimento do aquecimento global!

O território de Portugal continental vai ser atingido entre hoje e domingo por uma massa de ar frio, ar polar transportado do norte da Europa por uma corrente forte de norte, que irá refletir-se numa acentuada descida da temperatura, indicou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
Parece ainda que as coisas nos Estados Unidos também andam friotas...
Pois é, nada de grave, um simples arrefecimento do aquecimento global...
PS: Isto é o que diz um amigo meu, que eu estou proibido de brincar com estas coisas sérias pelos ambientalistas do 4R...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Os títulos são gregos, o BCE ainda não!

Li críticas violentas ao BCE pelo facto de não aceitar como garantia títulos de dívida grega. 
Mas como pode um Banco aceitar como garantia títulos de dívida que o devedor anunciou não querer pagar, ou querer "perpetualizar", ou querer reestruturar, conforme os dias ou as horas, ou cujas taxas quer alterar?
O que é que vale uma garantia dessas para um Banco, mesmo que seja o BCE? Ou para um Banco, demais a mais o BCE, com funções reguladoras e de supervisão sobre os restantes?
Claro, nada, depois do que o governo vem declarando, e enquanto não se concluírem as negociações. É que os títulos são gregos, o BCE ainda não!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A ler

Para além da questão concreta dos acordos de comércio, a novidade de existir um governo de um Estado membro ideologicamente contrário a consensos que até agora, salvo as naturais divergências entre Estados na fase de discussão, sempre foram regra, coloca o problema da sustentabilidade política desta UE. A ponta de um icebergue, pois...
  

A hypokrisia dos bem pensantes

Por cá, vai um enorme entusiasmo, nas esquerdas e nos comentadores e analistas bem pensantes, quanto às propostas da Grécia de perdão da dívida, seja qual for a modalidade que assuma, como se sabe, de geometria variável a cada dia que passa. Entusiasmo tão orgasmático que até despreza ou esquece as consequências para os contribuintes portugueses, que teriam que suportar, de seu bolso, a participação nacional no financiamento europeu à Grécia. 
Os mesmos profundos pensadores que criticaram e continuam a criticar, por mero exemplo, o alegado peso para os contribuintes do apoio imposto pelas autoridades europeias a Bancos portugueses, não por razões substanciais de solvabilidade, mas de mera regulamentação de rácios de solvabilidade, quando esses apoios, aliás já quase todos reembolsados, se materializaram em lucros relevantes para as finanças públicas, mercê do enorme diferencial entre as taxas cobradas e o custo do dinheiro para o Estado. 
Enfim, bem pensantes, que normalmente acumulam com bem ignorantes e, sem saberem, nem sonharem, capazes de dar plena e adequada expressão à grega hypokrisia. 
Tudo certo, pois. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Tasca

Entrei ontem pela primeira vez numa tasca no Porto para almoçar. Gosto de comer nesta cidade, por várias razões, mas há duas que se salientam, a simpatia como sou tratado e a boa comida. Podia acrescer uma terceira, que não é de deitar fora, os valores são substancialmente mais baixos em relação a muitas zonas do país.
Entrei um pouco indeciso, confesso. O espaço era um pouco acanhado, simples, mas limpo. Graças à simpatia, natural, genuína, sem sorrisos forçados ou salamaleques urbanos e artificiais, antevi que o repasto iria correr bem. O funcionário encarregou-se de nos orientar, aceitou as nossas sugestões e acabou por ser premiado com a liberdade de escolher o vinho. O serviço foi rápido. No local onde nos encontrávamos, antevi, pelo postigo que dava ligação para a cozinha, uma senhora de idade, barrete na cabeça, idade um pouco avançada demais para aquelas funções, com sinais evidentes de ter tido uma paralisia facial e dificuldades na locomoção a apontar para problemas das coxo-femurais. Não consigo deixar de usar a minha condição de médico para fazer certos diagnósticos. Não são ossos do ofício, mas sim manias que não consigo evitar. A par de todos os sinais evidentes, vi que a senhora não estava bem. O sacrifício era evidente, mas ia despachando o serviço, e muito bem, como pude observar ao fim de algum tempo através da qualidade da comida. O que leva uma pessoa naquelas condições a trabalhar? Já merecia descanso. O corpo ansiava por isso, mas o espírito denotava uma força superior. Ainda consegui ouvir, embora com alguma dificuldade, comentários sobre o hospital. Foi quando entrou uma senhora, talvez da mesma idade, vestida de negro e muito sorridente, à custa de uma branca dentadura postiça que ameaçava saltar a qualquer momento. Apercebi-me que havia qualquer coisa que não estava a correr bem. Encaixava-se perfeitamente com a senhora da cozinha. A sua simpatia e educação eram mais do que evidente. Emanava ternura e compreensão. Olhou-nos mais do que uma vez.
Hoje, como sou um animal de hábitos, fui ao mesmo sítio. Adapto-me com uma facilidade incrível. Basta ser bem tratado da primeira vez. O funcionário reconheceu-nos e tratou-nos como se fôssemos velhos conhecidos. Atenções e mordomias. Um encanto ser tratado daquela maneira num local muito simples. Hoje, eu pedi um prato e a minha mulher outro. Ao fim de algum tempo tinha o meu. A senhora apercebeu-se, saiu da cozinha e veio pedir desculpa por não terem sido apresentados em simultâneo. Julgava que eram pedidos para mesas diferentes. Nunca me tinha acontecido nada parecido. Mas a conversa continuou, e a senhora explicou que estava muito cansada e com dores nas ancas e que iria sentar-se um pouco. Estava ali para fazer um favor; aposentou-se há mais de seis anos. Pediram-lhe para ajudar, porque a cozinheira tinha caido nas escadas do metro e partiu a perna e deu cabo da cabeça. - Está no hospital. Coitada. Pediram-me para dar uma ajuda e aqui estou eu. Cheia de dores, cansada, mas que hei de fazer? Tenho que ajudá-los. Não acha? Disse para a minha mulher. Ao mesmo tempo que ia explanando, com uma liberdade e sinceridade únicas, a duas pessoas desconhecidas, as suas maleitas e explicações para o ocorrido, perguntava se precisávamos de mais alguma coisa e se estava tudo bem. Ouvia sem dizer nada. Mas a minha minha mulher não, entrou na cena com uma facilidade difícil de explicar. É habitual atrair certo tipos de pessoas. Sorri. Não tarda e toma conta conta da tasca. A senhora pediu mais uma vez desculpa pelo desfasamento do serviço, agarrou numa cadeira e levou-a para a cozinha. - Tenho que descansar. Não aguento as dores. Mas tenho de trabalhar para os ajudar. E não sei quando a cozinheira vai regressar. Oh vida! Oh vida!
Terminei dizendo: - Amanhã já não vamos estar aqui. Se estivéssemos vínhamos a esta tasca e sabe-se lá o que é que iríamos ouvir e conhecer. - Tudo.
É assim que se começa a fazer amizades. Não sei como a senhora se chama e nem ela sabe quem somos. Mas não é preciso, primeiro irmana-se numa estranha e inesperada simpatia e depois o tempo faz o resto…

Grécia: entradas de leão, saídas de sendeiro?


  1. É certo que a “procissão ainda vai no adro”, mas parece já claro que não poderia ter sido mais aventureirista (para dizer o mínimo) a forma como o novo governo grego cumpriu a sua primeira semana em funções, começando por anunciar um conjunto de medidas de política económica e financeira que contrariam frontalmente os compromissos assumidos pelo País com os seus credores no âmbito do Programa de Assistência Financeira ainda em curso.
  2. Tratou-se de uma verdadeira “entrada de leão”, mas numa forma incrivelmente desajeitada: é totalmente incompreensível, com efeito, que, tendo a Grécia necessidade (segundo o seu próprio governo) de obter grandes concessões dos seus credores internacionais, tenha começado por lhes “atirar á cara” um conjunto de decisões que são exactamente o oposto do que tinha sido prometido a esses credores…
  3. Ao agir desta forma, o novo governo grego terá criado a si próprio uma situação da qual agora só poderá sair de forma muito pouco auspiciosa: espera-o doravante um caminho árduo, de cedências atrás de cedências, pois já terá percebido que a persistência nas exigências de redução da dívida, de rejeição pacóvia de negociação com a Troika, de abandono unilateral do Programa de Assistência, teriam como consequência, a brevíssimo prazo, umam situação de bancarrota generalizada no País e de “salve-se quem puder”  - e quem não se salvaria seria certamente o governo…
  4. Mas agora, perante um cenário em que só lhe resta ir deixando cair, uma após outra, as fantásticas bandeiras eleitorais que lhe permitiram obter um mandato para governar (com um parceiro pouco cómodo, para agravar), vai colocar-se um novo e “inesperado” problema: como explicar aos gregos que, em tão pouco tempo, tenham sido abandonadas as teses centrais de um espectacular programa de governo…
  5. Vai ser muito curioso, com efeito, quando estiver concluído o corrente périplo europeu do seu Ministro das Finanças, e no seu regresso a casa tiver que mostrar uma mão cheia de nada, ver como irá começar por reagir o eleitorado face á evidente impossibilidade de cumprimento das grandes promessas eleitorais…
  6. …o eleitorado e também, segundo parece, a facção mais radical do partido vencedor das eleições, para a qual estas inevitáveis cedências poderão ser tomadas quase como actos de traição à Pátria Helénica…
  7. É o que têm muitas vezes estas entradas de leão, mal calculadas, acabam geralmente em saídas de sendeiro…

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Realpolitik ou surrealpolitik?

Varoufakis, o ministro das finanças da Grécia, declarou que "O meu maior receio é transformar-me num político". Frase pensada? Vantagem ou desvantagem, a questão coloca-se? Será que vai conseguir não ser político e obrigar os que estão do outro lado a deixarem de o ser? Ou será que rapidamente o seu receio será confirmado pela realpolitik?

domingo, 1 de fevereiro de 2015

No topo dos "castelos"...


Ora aqui está uma boa notícia. O Palácio da Pena em Sintra foi considerado pela European Best Destinations o melhor castelo da Europa. Uma marca que se segue a outras marcas - por exemplo, em 2014, o Porto foi eleito o melhor destino na Europa - que ajudam a colocar Portugal nos roteiros turísticos internacionais. Estamos de parabéns.
Estes prémios são uma prova das vantagens que decorrem do investimento na reabilitação histórica e cultural, da prioridade colocada no ordenamento do território e da preocupação a ter com a qualidade de vida e bem estar das regiões e das populações que nelas habitam. 
Os ganhos no turismo só serão sustentáveis se na sua base estiverem políticas de desenvolvimento económico, social e cultural sustentáveis em que os primeiros beneficiários são as populações locais, a economia e o património.
É um conjunto duradouro e harmonioso de políticas suportado numa visão estratégica que pode fazer a diferença. É por aqui que temos de continuar a caminhar, respeitando e valorizando o que temos de mais bonito e que, simultaneamente, nos distingue e nos aproxima do que de melhor têm outros locais do mundo...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Nota 20

Não resisto. Perante a rendição ao que se tornou correto dizer-se, escrever-se, comentar-se ou apoiar-se, mas sobretudo perante a mudez geral no desfile do rei nú, reproduzo o que li num sítio aqui ao lado.
Conta-se que a Universidade de Griffith na Austrália lançou o repto aos seus alunos no sentido de definirem uma expressão contemporânea. A expressão escolhida foi "politicamente correto". O aluno que levou o prémio definiu-a lapidarmente:  "Politicamente correto é uma doutrina, sustentada por uma minoria iludida e sem lógica, que foi rapidamente promovida pelos meios de comunicação social, e que sustenta a ideia de que é perfeitamente possível pegar num pedaço de merda pelo lado limpo".

Syriza, a nova religião do Partido Socialista

Já não admira, pois é negócio corrente, que muitos mudem de partido, a grande maioria por oportunismo puro, em busca de novas oportunidades. Mas é original e insólito que um partido, o PS português, por força da derrota do PASOK, abjure do seu parceiro grego, camarada na Internacional Socialista e se torne camarada fraterno do Syriza, partido vencedor. Depois de António Costa nem sequer ter citado o partido irmão na adoração que prestou ao Syriza, é agora um ex-governante e ex-deputado socialista que transforma o PS no Syriza português. 
Agora, para o ex-governante o PASOK foi sempre um "partido caudilhista, profundamente burguês, arrogantemente sentado em cima de uma história e de um passado que desconhece a evolução das sociedades..." e o PS "é hoje o movimento que se transforma para ser a casa mãe da inovação política". 
E como o PS não é o PASOK...e em Portugal o Bloco de Esquerda morreu antes de nascer o Syriza, aí está a demonstração completa da nova religião do PS: uma união espiritual tão profunda, ao ponto de identificar adorador e adorado numa identidade única, com duas pessoas indistintas, a religião Syriza.
No fim, interrogo-me: oportunismo desbragado ou é mesmo assim?

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Os mistificadores e o "quantitative easing"

Continuo a ficar espantado com as declarações dos vários responsáveis, políticos e outros,  sobre os efeitos esperáveis para Portugal da medida do BCE de compra de dívida (quantitative easing). Declarações mais do que suficientes para evidenciar ou a maior das demagogias ou um desconhecimento atroz da realidade, ou ambas as coisas.
Para esses mistificadores, a medida terá o condão de abrir a torneira do crédito, de diminuir as taxas de juro e de permitir mais despesa pública através da compra de dívida pelo BCE. Para além de vir em sentido contrário à política de austeridade em Portugal.
Acontece que não é nada disso. Os efeitos directos na concessão de crédito serão diminutos, por não haver um problema de liquidez no nosso sistema bancário, mas haver, sim, falta de projectos viáveis. Sem projectos, não há crédito, apesar da liquidez existente no sistema.
Quanto às taxas de juro, e para riscos da mesma qualidade, as nossa taxas médias já alinham perfeitamente pelas europeias, alemãs incluídas: as referentes a particulares, um pouco abaixo; as respeitantes a empresas, um pouco acima. Ora, estando incluído no preço do crédito o custo do dinheiro para os Bancos, mais o custo de oportunidade dos capitais próprios investidos e que naturalmente inclui o prémio de risco do pais, tal significa que, na prática, mas mal, os nossos Bancos já equiparam o risco país Portugal ao risco país Alemanha. Donde, não se pode esperar, racionalmente, qualquer baixa das taxas de juro.
Por outro lado, o funcionamento do Quantitative Easing só alcançaria objectivos em Portugal se pudesse funcionar conjuntamente com uma política orçamental expansiva, keynesiana. Mas esta é um constrangimento inultrapassável, pois o montante da dívida não permite brincadeiras orçamentais. Nem o desenvolvimento do país se pode fazer através de maciço investimento público. Ponto final. Efeitos favoráveis, sim, poderão esperar-se das exportações, induzidos por um aumento da actividade nos países onde a medida do BCE tenha efeitos práticos. Efeito esse aumentado, caso persista a depreciação do euro face ao dólar, favorecendo os exportadores. Mas até aí os efeitos aparecem relativizados, já que grande parte das exportações portuguesas se dirige para os países do euro. Portanto, caros amigos, a medida é globalmente positiva, mas, directamente, não se espere muito dela em Portugal. E para quem vá na cantiga do crescimento através da despesa pública viabilizada por tal política, eu diria: fiem-se na virgem e não corram e verão o tombo que levam...

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Picadinhos, entendam-se...

Hoje de manhã quando ouvi na telefonia a notícia sobre os resultados a que chegou a Deco Proteste numa análise à qualidade de carne de vaca picada que é vendida em estabelecimentos comerciais pensei que este assunto não iria ficar por aqui. Uma tal notícia não iria deixar em bons lençóis, ou deveria ser assim, as entidades oficias que zelam pela qualidade e segurança alimentar. 
A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) veio, como seria de esperar, desvalorizar o assunto. E as críticas não se fizeram esperar. Não sei se a amostra da Deco Proteste é representativa, mas os resultados publicitados são preocupantes e exigem, a confirmarem-se, medidas concretas das autoridades públicas. A ASAE questiona os resultados do trabalho da Deco e avança que em 2014 recolheu 42 amostras de carne na Região de Lisboa e que não detectou qualquer resultado irregular.
O Conselho de Segurança Alimentar vai reunir-se. Este órgão foi constituído quando surgiu o fenómeno da venda da carne de cavalo em 2013. Dá ideia que de lá para cá não voltou a reunir. Há órgãos para tudo e mais alguma coisa, nascem como as cerejas. Mas fica a dúvida sobre a sua utilidade. Surgem muitas vezes para “acudir” a uma situação a requerer uma intervenção política, mas depois desaparecem de circulação. 
Vamos lá ver se o dito Conselho resolve alguma coisa sobre a carne picada. Com a alimentação não se brinca e muito menos com a saúde pública. Já basta o que para aí vai no Serviço Nacional de Saúde…

Grécia: atracção, eventualmente fatal, pela autonomia monetária?


  1. Um dos mais curiosos episódios relatados na imprensa internacional, sobre o momento especial que se vive na política grega, foi naturalmente omitido ou passou despercebido à grande maioria dos “media” lusos, tomados por um encantamento infantil em torno do PFEC em curso na Grécia (o equivalente ao nosso velho PREC, agora em versão financeira).
  2. Esse episódio tem a ver com a queda acentuada das receitas fiscais do Tesouro grego, nas semanas que antecederam as eleições, em resultado de muitos milhares de gregos terem começado a alimentar a expectativa de que, com a vitória do Syriza, pudesse ser decretada uma amnistia fiscal ou algo de muito parecido…
  3. Tal episódio é bem revelador de como a mensagem económica e financeira do partido vencedor, cheia de exigências em relação ao resto do Mundo – uma espécie de ajuste de contas financeiro com o resto do Mundo, muito em especial com os seus credores internacionais – foi capaz de passar para o eleitorado ao ponto de acreditarem num grande alívio/perdão fiscal pós eleitoral…
  4. Em suma, o Syriza conseguiu convencer uma boa parte do eleitorado grego de que seria capaz de:

- Repor os vencimentos dos funcionários públicos e as pensões de reforma para níveis iguais ou muito próximos dos que se verificavam antes da intervenção da malfadada Troika;
- Recuperar benefícios sociais e níveis de salário mínimo nacional, que também foram consideravelmente reduzidos durante o Programa de Ajustamento (ainda em curso);
- Impor aos credores internacionais uma reestruturação da dívida em termos altamente penalizantes para eles (termos ultra-concessionais), obviamente facilitando o serviço da dívida ao devedor República Helénica de modo a permitir a restauração dos benefícios supra indicados;
- Sem prejuízo do que antecede, continuar a merecer a confiança e a disponibilidade dos credores internacionais para continuarem a financiar a República Helénica nos termos por esta escolhidos e, desnecessário será acrescentar, altamente concessionais também.
         5.   Qualquer cidadão minimamente esclarecido compreende que este programa envolve um nível de utopia considerável – equivale a comer um bolo várias vezes e mantê-lo como se não tivesse sido comido – mas a verdade é que uma boa parte dos gregos acreditaram nele e votaram naqueles que o prometeram.
          6.  Subjacente a todo este estranho enredo e esta ilusão financeira está uma noção central do ideário dos dois partidos que formam a nova coligação governamental  na Grécia: ambos estão profundamente empenhados (“passionate”, diz o F. Times na sua edição de hoje) na restauração da soberania nacional sobre a política económica.
           7. Mas isso só será possível ou viável com um novo regime económico, muito especialmente com a restauração da autonomia monetária perdida aquando da adesão ao Euro, como é evidente…mais  concretamente, isso implicará o abandono do Euro, seguindo um modelo financeiro do tipo argentino ou venezuelano…coisa que os gregos têm esmagadoramente rejeitado nos inquéritos de opinião!
            8. Confesso as minhas sérias dúvidas quanto à possibilidade de tudo isto não acabar numa enorme frustração para os gregos; esta ilusão financeira/monetária em que confiaram ainda lhes pode sair mais cara que o Programa de Ajustamento…muito sinceramente não o desejo, mas com igual sinceridade antevejo um enorme risco de tal acontecer.
 
 

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