quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

Demagogia e ignorância só nos podem levar por maus caminhos....

Aproveitando o comentário que me suscitou o texto editado por Vasco Mina no Corta Fitas, a propósito dos factos, opiniões e críticas de que a semana passada foi pródiga em reacção ao chumbo da Contribuição de Sustentabilidade pelo Tribunal Constitucional, aqui fica mais este meu apontamento.  
De repente parece que toda a gente acordou para o problema da sustentabilidade das pensões, como se fosse uma criação recente. Assim como esta atenção subitamente apareceu, não admira que rapidamente desapareça. Até ver. Somos especialistas neste tipo de reacção.
A semana passada foi realmente uma corrida a ver quem ganhava mais trunfos políticos. A verdade é que não há vencedores, só vencidos, incluindo o país. Não vale a pena iludir os problemas, é necessário repensar o modelo de pensões e o seu financiamento. Estamos a avolumar um problema grave, negando a sua existência.
Mas também não é com CES e CS que compramos a sustentabilidade financeira do sistema. E, depois, tão ao mais importante é assegurar a sustentabilidade social, aspecto que parece estar esquecida na mente daqueles que acham que é sistema ir cortando à medida que o orçamento precisa de ser contido. E que dizer da adequação do rendimento das pensões na reforma? 
Uma reforma do sistema público de pensões necessita de uma base alargada de apoio social, o que significa uma base política representativa. Estamos "condenados" a nos entendermos. A política de cortes avulsos não é politicamente sustentável e a política de medidas paramétricas está esgotada. A confiança é a base de sustentação de qualquer contrato social. É neste objectivo que os partidos do arco da governação se devem centrar. Jogar com a demagogia e a ignorância já sabemos ao que conduz...

Juros da dívida pública cada vez mais baixos: será para durar?

1. Foi hoje notícia uma emissão de Bilhetes do Tesouro Português, a 3 e a 12 meses, com o seguinte resultado:

- A 3 meses, emissão de € 300 milhões, taxa de juro média anual de 0,097%;

- A 12 meses, emissão de € 800 milhões, taxa de juro média de 0,216%.

2. Ao mesmo tempo, as taxas de juro implícitas na cotação da dívida pública portuguesa no mercado secundário (yields), davam hoje as seguintes indicações: para 2 anos 0,655%; para 5 anos, 1,855%; para 10 anos 3,288%.

3. É necessário recuar até aos primórdios da memorável aventura socrática para se encontrarem yields tão baixas para os diferentes prazos da dívida, para não falar nas taxas da emissão de BT’s, que são “historicamente” baixas...

4. Nem a notícia de um razoável agravamento do défice comercial até Junho (+20%), divulgada com grande fervor por uma boa parte da mesma irmandade mediática que passa o tempo a entoar mensagens que conduziriam invariavelmente a um aumento da despesa interna e a um agravamento ainda maior desse mesmo défice, causou qualquer impacto nos mercados, que aliás sabem que o défice externo não se restringe à componente comercial...

5...sendo que o efeito do tsunami BES sobre a disposição dos investidores neste tipo de activos se mostra em grande parte absorvido, não parecendo capaz de, por agora pelo menos, causar danos maiores do que os já conhecidos...

6. ...e a jurisprudência do TC, com as suas curiosíssimas nuances temporais – a prolação de uma jurisprudência “forward” será talvez o aspecto mais curioso e inovador a registar, desta vez – não parece ter causado nenhuma reacção especialmente emocionada, vide os comentários amenos das agências de rating sobre a matéria.

7. A grande questão que se poderá colocar será a de saber por quanto tempo mais iremos beneficiar desta bonança nos mercados da dívida, que é aliás extensiva aos demais periféricos do Euro - basta notar que a yield da dívida a 10 anos da Irlanda se encontra no nível quase incrível de 2% ...

8. ...quanto mais tempo durar melhor será (me perdoem os Crescimentistas, que sofrem horrores com este cenário), mas é certo e sabido que acabaremos por chegar a um ponto, quiçá pelo 2º semestre de 2015 ( se não for antes, como lembraria Mr. de La Palisse) em que o mercado pode resolver mudar de disposição...

8. Aqui ocorre aplicar o velhíssimo provérbio: “enquanto o pau vai e vem...folgam as costas!



segunda-feira, 18 de Agosto de 2014

Renascimento dos Certificados de Aforro: já não era sem tempo...

1. Nos últimos anos da gloriosa era socrática, de boa memória, deixei aqui diversos apontamentos para a morte anunciada dos Certificados de Aforro (CA’s), o mais tradicional instrumento de poupança dos particulares em Portugal, em consequência das alterações introduzidas na sua remuneração em 2008, que penalizaram retroactivamente muitos aforradores.

2. Diversos outros comentadores se referiram então ao tema, estranhando a política adoptada pelo Governo de então, que tinha como resultado diminuir o financiamento do Estado por residentes, substituindo-o por financiamento externo a custos mais elevados e com um risco muito maior (como viria a demonstrar-se não muito tempo depois...).

3. A estas críticas viria a responder publicamente o membro do Governo responsável pelo pelouro da dívida pública (SET), com o estranho argumento de que não era papel do Estado bonificar as poupanças dos aforradores residentes...

4. ...devendo pois deduzir-se, “a contrario”, que o papel do Estado seria sim o de bonificar os juros recebidos pelos financiadores externos , aceitando pagar a estes um juro bem mais elevado - em troco de um financiamento de maior risco para o emitente!

5. Cumpre referir que, em resultado da política em questão – que para além de reduzir as taxas aplicáveis ao investimento em CA’S foi ao ponto de penalizar retroactivamente os detentores de CA’s já emitidos – o saldo vivo de CA’s entrou num processo de declínio inexorável, com pedidos de resgates sucessivos de milhares de aforradores que se sentiram enganados...

6. ...passando de um pico de € 18.186 milhões em Janeiro de 2008 para € 16.824 milhões no final de 2009, € 15.471 milhões no final de 2010, € 11.384 milhões no final de 2011, € 9.669 milhões no final de 2012...

7. ...e começando a recuperar só em 2013, em cujo final o saldo vivo de CA’s ascendia a € 10.132 milhões, continuando a subir no corrente ano, atingindo € 10.856 milhões em Junho último.

8. Entretanto foi criado em 2010 um novo instrumento de dívida pública também direccionado aos particulares, os Certificados do Tesouro (CT’s), de mais longo prazo, mas que tardaria a suscitar um interesse significativo: de um saldo de € 685 milhões no final de 2010 (ano em que o saldo de CA’s caiu € 1.353 milhões), passaria a € 1.308 milhões no final de 2011, a € 1.416 milhões no final de 2012 e a € 2.026 milhões no final de 2013...

9. ...acelerando claramente no 1º semestre de 2014, fechando no final de Junho com um saldo de € 3.151 milhões – ou seja, só no 1º semestre de 2014 as aplicações em CT’s aumentaram € 1.125 milhões, quase o dobro do valor acumulado em todo o ano 2013...

10. Saúda-se esta mudança de política de emissão de dívida pública - que apesar de tudo demorou quase dois anos a adoptar, após a entrada em funções do novo Governo - permitindo substituir dívida externa de custo mais elevado e de comportamento bem mais volátil, por dívida interna...agora consegue-se perceber.

sexta-feira, 15 de Agosto de 2014

Um quinze de agosto à "Benfica"...


Abalei já um pouco tarde, mas mesmo assim a tempo de chegar a horas de almoçar a Pinhel. Nunca lá tinha ido. Não suporto a ideia de não conhecer todos os recantos possíveis deste país, pela simples razão de que encontro sempre a beleza, a arte, a história, os costumes e a simpatia dos residentes. Viajar neste país é o acontecimento mais deslumbrante que posso desejar. Esbarro em paisagens únicas, vivas, constantemente a mudar de aspeto, de brilho, de cor, de sentimentos e de silêncios doces entremeados com romarias esplendorosas. Ao final do dia tenho de rememorar os acontecimentos vividos e despertados. São tantos que nem sei escolher. Emerge nas pontas dos meus dedos o brilho dos rebordos de paisagens a perderem-se em misteriosos horizontes, as formas do granito das montanhas, a suavidade colorida dos xistos, os vales perdidos e mudos de águas frescas e sedosas, a arte distribuída ao acaso em vilas e cidades, muitas delas esquecidas, e a frescura de objetos, esculturas, lembranças e manifestações artísticas de uma riqueza e beleza imparáveis a que se associam acontecimentos históricos capazes de encher as páginas vazias de um coração ansioso.
Vi Pinhel e apaixonei-me pela sua arquitetura e história. Saltei até Castelo Rodrigo e quase que me apeteceu ali ficar entre as muralhas, correr pelas ruelas e vielas e descobrir o mundo oculto que emprenhou todo aquele granito ao longo dos tempos e que anseia por nascer ao menor anseio de um forasteiro.
Recordo ter chegado a Pinhel à hora do almoço. Tentei encontrar um restaurante. Encontrei um, mas pelos andar da carruagem vi que não iria sair tão cedo. Calcorreei algumas ruas, mas dia santo é isso mesmo, santo para a alma e, também, infelizmente, para o corpo. E agora? Como vou descalçar a bota e encher a pança? Passei em frente da casa do Benfica em Pinhel e vi pessoas a almoçar. Com cautela, enfiei a cabeça e perguntei ao rapaz se ali forneciam almoços. - Sim senhor, e come-se bem. - Ai sim? Então podemos entrar? O rapaz sorriu e disse: - Claro! Provavelmente não deverá ter percebido a razão da minha pergunta. Sendo a casa do Benfica, o vermelho imperava por tudo o que se possa imaginar, além de águias, vi emblemas, camisas, apetrechos adequados e, até, a lembrar o velho estilo do Estado Novo, fotografias em pose do atual e do anterior presidente do Benfica, tive algum receio que me dissessem que só os sócios ou adeptos é que podiam almoçar naquele "santuário" gastronómico. Qual quê! Não perguntaram nada, arranjaram-nos de imediato uma mesa. As meninas, simpáticas e muito prestáveis, denotando a sua fé benfiquista, bem visível nas roupas, serviram-nos uma refeição muito agradável num curtíssimo espaço de tempo. Não me recordo de ter sido tão bem servido e atendido. Comentei: - Nunca na minha vida pensei almoçar numa casa do Benfica. Seria o bom e o bonito se os meus amigos soubessem disto. Às tantas até eram capazes de dizerem que eu sou um "apóstata"! Entretanto, numa mesa ao lado, ouvia algumas conversas, até que um, sentado na mesa do meu lado esquerdo comentou para o que estava na mesa em frente: - Então! Tu estás aqui? A surpresa era mais do que evidente, facto que me levou a concluir que não deveria, com toda a certeza, ser benfiquista. Não se desmanchou, e como já tinha terminado a refeição, ia a sair, disse ao conhecido: - O que é que tu queres? Aos feriados está tudo fechado! - Pois é. Mas aqui a casa do Benfica não fecha e alimenta todos os que têm fome. O sorriso irónico brotou-lhe dos lábios e dos olhos, enquanto o "não-benfiquista" saía apressadamente. 
Agora, quando souberem esta história, estou tramado. Não importa, o que merece ser realçado é a simpatia e a forma acolhedora como fomos tratados. Há muito que não tinha uma demonstração gastronómica de tal gabarito. Confesso que já tinha preparada a resposta, caso fosse inquirido sobre a minha preferência clubística: - Não. Não sou do Benfica, mas a minha mulher é...
A beleza espraia-se por tudo o que é sítio neste país, sobretudo na paisagem humana.
Viajar em Portugal é saborear de forma inesquecível a vida.

quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

Síndrome de Jerusalém

Descia as escadas conjuntamente com mais dois colegas, um israelita de origem americana, que se borrifava para a religião, e um polaco, católico até à medula. Sábado de manhã. O dia estava muito quente. Apetrechámo-nos, a conselho do colega judeu, de água e deliciosas uvas. Descíamos a escada quando o polaco, de máquina fotográfica ao pescoço, começou a tirar fotografias ao muro das lamentações. O que foste fazer. Uma senhora, que vinha em sentido contrário, começou a barafustar, e penso que a insultá-lo, por causa disso. Falava hebraico. O nosso colega explicou-nos que nós não podíamos tirar fotografias ao muro das lamentações porque era o dia sagrado. Defendeu o polaco, e, ao bom estilo de um típico cowboy norte-americano, quase que a mandou para o outro lado, dizendo ao nosso colega que não ligasse àquela parvoíce, e que tirasse as fotografias que quisesse. Eu, que não tenho o hábito de andar com máquinas ao pescoço, levava a minha ao ombro descaída para as costas,  disse-lhe para a esconder e respeitar aquele pessoal que vive e se alimenta do mais perigoso do fundamentalismo, o religioso. Concordou e enfiou-a dentro do saco de plástico onde tinha as uvas. É melhor assim. O israelita-americano riu-se do meu conselho enquanto ia lançando para o ar gordas uvas as quais mastigava com um prazer indiscutível, indiferente ao "conflito" religioso. Passámos junto ao muro, onde tivemos que enfiar o "kipá" de papel e ali ficámos um pouco vendo aquela cena de baixar e levantar a cabeça vezes sem conta. Por vezes cheguei a ficar com receio de que partissem a cabeça no muro. Uma coisa tive a certeza, não sofriam de cervicoalgias! Continuámos a nossa peregrinação e entrámos no setor muçulmano. Aí foi mais complicado. Fui revistado e entrevistado por dois soldados fortemente armados. Quando olharam para o passaporte e me perguntaram o apelido mudaram de atitude e tornaram-se mais cordiais. Fiquei espantado. Tentaram pronunciar o apelido Cardoso e repetiram duas ou três vezes, agora com simpatia e deixaram-nos a entrar no recinto das mesquitas. O judeu norte-americano riu-se e explicou-me que o meu nome tinha "Cardo" o que para os judeus tem algo de simbólico, correspondendo à via principal do coração de Jerusalém, que ainda se pode ver no seu quarteirão da cidade velha.
O episódio que mais me marcou foi na esplanada das mesquitas. À entrada do local de onde Maomé subiu ao céu fui impedido de entrar com a máquina fotográfica e a bolsa onde tinha os meus documentos e dinheiro. O vigilante, árabe, disse-me que tinha de colocar tudo num cacifo livre em frente da mesquita, sapatos, bolsa e máquina. Olhei-o perplexo e um pouco incomodado sem saber o que fazer, mas o árabe, apercebendo-se da minha inquietação, disse o seguinte: - Não tenha medo. Árabe é ladrão mas não rouba em solo sagrado. Nunca largou o seu sorriso, profundo, estranho e enigmático aos olhos de um ocidental. Entrei e andei sempre a pensar no que teria de fazer quando saísse dali e não encontrasse os meus pertences. Continuei a olhar para o colega israelita que não mostrou o menor sinal de incómodo. Se ele não diz nada é porque vai correr bem. Ainda lhe perguntei se era para ter receio, respondeu-me com um levantar dos ombros, com os árabes nunca se sabe. Valha-me Deus, pensei. E já que estava num local onde havia "três", qualquer um já me servia. Quando saí, estava tudo no seu lugar. O árabe, de olhar estranho e enigmático, reconheceu-me, e ao longe fez-me a sua tradicional saudação não largando aquele sorriso que nunca mais esqueci. Estava assim terminada a minha visita à mesquita onde muitos homens faziam exercícios, sentados nas pernas, debruçavam-se e abriam as mãos ao alto. Pensei, estes não devem sofrer de lombalgias. 
Quando chegámos ao setor cristão as coisas foram diferentes. A igreja do Santo Sepulcro não me surpreendeu como estava à espera. Desorganizada e escura. Subitamente, um religioso, não sei de que seita cristã, barbudo e com cara de poucos amigos, pôs-se a discutir e por pouco não andava à pancada com outro padre ou monge cristão de outra seita. Olhei estupefacto para o meu colega judeu não praticante e apontei-lhe a cena. Deu uma gargalhada, que seria impensável a um cristão num templo sagrado, e respondeu-me, não ligues é comum estes tipos andarem à pancada e a fazerem cenas por causa dos seus "territórios". Valha-me Deus, pensei, onde fui cair. Estes devem sofrer de algias e hematomas pós traumáticos.
Um local de três religiões, que explica, e bem, a intolerância social e até uma certa agressividade. Em vez de ser um local sagrado, capaz de unir a humanidade, não é mais do que um epicentro vivo que alimenta o radicalismo e muitos comportamentos sociais que grassam, infelizmente, por esse mundo.
Discutimos este e muitos outros assuntos, nomeadamente a famosa síndrome de Jerusalém. Felizmente não fui atingido, mas as explicações são deveras interessantes.

2º trim/2014: Espanha e Portugal com melhor desempenho na zona Euro...quem diria...

1. Dados hoje divulgados pelo Eurostat para o 2º trimestre deste ano mostram que as economias de Espanha e de Portugal exibiram o melhor desempenho na zona Euro, com uma variação trimestral do PIB de +0,6%.

2. No caso português, esta variação de +0,6% segue-se a uma variação da mesma expressão mas de sinal contrário no 1º trimestre, embora, em comparação homóloga, se traduza numa desaceleração: enquanto no 1º trimestre a variação homóloga havia sido de +1,3%, agora foi apenas de 0,8%...

3. Não deixa de ser curioso notar que dois dos chamados “maus da fita” da zona Euro, nos últimos anos, apareçam agora à cabeça do pelotão do crescimento, numa altura em que as principais economias da mesma zona, Alemanha e Itália com -0,2% e França com 0,0%, dão sinais de abrandamento da actividade.

4. Este apontamento de curiosidade não dá espaço, todavia, para qualquer manifestação de “embandeiramento em arco” no caso português em especial, pois as incógnitas quanto ao desempenho económico na segunda metade do ano são mais que muitas...

5. ...a somar aos presumíveis impactos sobre a actividade dos problemas geo-políticos, teremos, no plano doméstico, as sequelas do “tsunami” BES, cuja dimensão, ainda por apurar, pode vir a desfigurar, um bom pedaço, o “snapshot” estatístico...

6. Concluiremos assim, contra as expectativas dos estimados Crescimentistas – para quem, é bom lembrar, qualquer melhoria da actividade económica, em plena vigência de políticas neo-liberais, constituirá um cenário misterioso e dantesco – que a primeira metade do ano acabou por não ser má...

7. ... cumprindo destacar a acentuada redução dos níveis de desemprego que, segundo a informação mais recente se situa já abaixo de 14% da população activa, depois do pico de 17,7% atingido no 1º trimestre de 2013...

8. Mas o 1º semestre já é história, temos agora de aguardar pelo enigmático 3º trimestre, que pode muito bem vir a recompor o ânimo dos Crescimentistas...

terça-feira, 12 de Agosto de 2014

Mudança de paradigma nas pensões...

Refere o Tribunal de Contas no Relatório "Acompanhamento da Execução do Orçamento da Segurança Social", hoje conhecido, que Durante o período de vigência do PAEF (2011 –2013), a despesa com pensões e complementos da SS foi sendo objeto de um conjunto de medidas de natureza regressiva com o objetivo de colocar e manter esta despesa num contexto estrutural sustentável. Porém, a rigidez do sistema e da estrutura social que o sustenta, com uma camada populacional envelhecida relevante e a precaridade das medidas aplicadas, mais centradas no objetivo de curto prazo, constituíram fatores determinantes para que esta despesa não regredisse de forma consistente e continuada (...).
Com efeito, as várias medidas de restrição financeira aplicadas sobre as pensões, designadamente, os cortes nas pensões e o congelamento da actualização das pensões não estancaram o aumento da despesa com pensões dos regimes contributivos. O Tribunal fala em precariedade das medidas e na sua incapacidade de colocar a despesa num "contexto estrutural sustentável". A despesa com pensões vai continuar debaixo da pressão do aumento crescente do número de pensionsistas e do valor nominal médio das novas pensões e, também, do aumento da esperança média de vida na velhice. A despesa com pensões tenderá a aumentar. A receita das contribuições para segurança social (TSU)  tenderá a ser insuficiente, por razões demográficas e económicas, para assegurar o financiamento das pensões. As previsões de médio e longo prazo da conta das pensões da Segurança Social indicam a persistência de défices financeiros. 
Posto isto, é necessário retirar as devidas consequências. Os cortes e os congelamentos adoptados tiveram uma função orçamental, isto é, de resolver problemas de tesouraria de curto prazo. Estas medidas não tiveram um objectivo estrutural, isto é, de conferir sustentabilidade ao sistema público de pensões. A sustentabilidade só será possível, e levará muitos anos a produzir efeitos, com uma reforma estrutural. Os problemas tenderão a agravar-se se não for alterada a lógica do actual sistema de pensões. Não adianta o Estado continuar a prometer às gerações futuras pensões que não tem como pagar. A política de cortes avulsos à medida das necessidades orçamentais não é desejável, é injusta, cria iniquidades e introduz incerteza e elevados riscos. Não há contrato social e contrato de confiança que resistam a este caminho.
Mas para o aumento da despesa com pensões concorre, também, a despesa com pensões sociais e complementos sociais. Estas prestações com fins redistributivos, financiadas pelos impostos, deveriam ser criteriosamente concedidas, fazendo depender a sua atribuição da verificação da situação económica dos beneficiários. A Segurança Social não está a aplicar uma "condição de recursos", sem a qual não é assegurada a boa utilização dos recursos públicos. Como se compreende está, também, em causa uma questão de justiça social. 
Vamos continuar a insistir nos mesmos problemas e na incapacidade para fazer mudanças? Onde é que está a  vontade de fazer diferente?

Santa Apolónia



Rumei em direção a Braga para rever o que já tinha esquecido. Entrei na velha sé e fiquei novamente deslumbrado. Num dos altares laterais, três imagens, que descansavam ao pé de um Sagrado Coração de Jesus, chamaram-me a atenção, uma Rainha Santa, empunhando uma rosa, um São Brás e uma lindíssima Santa Apolónia. As três estatuetas despertaram-me lembranças e algumas emoções. A primeira é a santa padroeira do pessoal feminino da casa, já lá vem de trás a eito. O São Brás comemora-se no dia em que a minha mãe fazia anos e era o seu santo preferido. Volta e não volta apelava ao santo, sobretudo quando adoecia da garganta e dos ouvidos, coisas frequentes da minha infância. Fiquei a conhecê-lo desde muito cedo. Além disso comecei a simpatizar com ele por causa do meu colega de carteira, que se chamava Brás, e sofria de escrófulas horríveis no pescoço que exalavam um pus cremoso e mal cheiroso. Ainda lhe cheguei a perguntar se a mãe não ia em peregrinação ao São Brás por causa disso. Mais tarde é que compreendi a razão, sofria de tuberculose ganglionar. A terceira santa associei-a sempre a Lisboa, à estação dos caminhos de ferro. Adorava ir a Lisboa, ou melhor, o meu pai dizia que ia a Lisboa e eu dizia que ia a Santa Apolónia. Adorava fazer a longa viagem, de muitas horas, e desembarcar naquela gare cheia de movimento e de rituais enquadrados pela beleza arquitectónica que o fumo das locomotivas não conseguia esconder. Por outro lado, para mim era o fim da linha. E ficava satisfeito por saber que a linha terminava ali! Esta estação sempre me seduziu, embora o comportamento dos taxistas me incomodasse. Invariavelmente o chauffeur perguntava, vêm da província? A forma como fazia a pergunta irritava-me solenemente. Até que uma das vezes, já era um terço espigadote, lhe retruquei, não, não vimos da província, vimos de Santa Comba Dão. Sabe onde fica? Quando lhe disse de onde vinha, o senhor encolheu-se, fez o sinal de descobrir a cabeça, que, entretanto, baixara, e disse, vêm da terra do Senhor Presidente do Conselho? Sim, desse provinciano. Provinciano não, o Senhor Presidente não é provinciano Disse com uma voz reverente o taxista. Então se ele não é provinciano, por que razão devemos ser nós? Uma canelada à maneira obrigou-me a interromper o diálogo. E o senhor chauffeur, com sotaque e tiques à lisboeta, a querer substituir as origens rurais, levou-nos num ápice ao destino. 
Hoje, continuo a gostar da estação de Santa Apolónia, sobretudo quando regresso a casa, mas nem por isso deixo de pensar os muitos episódios que ali vi e vivi. Se soubesse na altura que a Santa Apolónia é a protetora dos dentistas, talvez não ficasse muito contente com o seu nome, já que fui um desgraçado com os dentes e com as torturas tipo inquisição a que fui sujeito. Um trauma que não esqueço. 
Ao sair da Sé tropecei num mendigo ajoelhado, e com notórias dificuldades físicas, a tocar o hino de alegria com uma flauta. Apesar da simplicidade o quadro emocionou-me. Tocar o hino de alegria num país triste e ainda por cima por um ser humano que deve desconhecer o significado dessa palavra mais triste fiquei.
Nas lojas em redor a santaria já não é o que era. Pobre, feia e sem qualidade a contrastar com as velhas obras. Um pobreza triste. Mesmo assim, numa vitrina de uma loja vi uma bela Santa Apolónia. Muito diferente das demais, diferente na matéria, madeira almofadada, e no trabalho artístico. Aquilo sim, era verdadeira arte sacra. Perguntei o preço. Obviamente proporcional à qualidade. É a última peça de madeira e a última que o artista fez. Pois, o preço... O senhor olhou-me e viu o meu interesse na peça. Fez um desconto imprevisível e eu nem hesitei. Acabei por adquirir uma Santa Apolónia capaz de fazer inveja à que está na Sé de Braga. Pensei, é a minha loucura de verão. No regresso, o mendigo continuava a tocar a flauta penosamente. Compensei-o. Olhou e disse palavras simpáticas e profundas, mas mais profundas do que as palavras foi o seu olhar, claro, brilhante, intenso a irradiar um pouco de felicidade. Terminou a sua atuação naquele momento. A Santa Apolónia, embrulhada à maneira, não viu, mas ouviu e sentiu.
Como hoje é o dia de anos do meu filho mais novo, que é médico-dentista, ficou desde já destinada a santa, mas só a leva depois de eu desaparecer....   

"Sistema financeiro nunca esteve tão frágil"...!!!

1. É sabido que a generalidade dos actores políticos evidencia um insaciável e específico apetite pela proclamação, em público, das mensagens mais bombásticas, sempre com o objectivo final de encontrar o máximo eco mediático...

2. E é proverbial a ausência de conteúdo útil e/ou de sensatez de tais mensagens: uma regra de ouro desse estranho jogo consiste, aliás, em garantir que, quanto menos sensatas forem essas mensagens, maior será o eco mediático que lhes é oferecido...

3. Vem isto a propósito da formidável declaração que dá o título a este Post, a qual terá sido ontem proferida por um conhecido político, com uma carreira de empresário de mérito, agora regressado a lides partidárias...

4. Esta declaração parece lograr o feito de, em matéria de falta de senso e também de falta de memória, ultrapassar tudo ou quase tudo o que a musa política, antiga e actual, tem sido capaz de cantar...

5. Com efeito, se houve momento da vida nacional em que o sistema financeiro esteve mesmo encostado ao precipício e à beira de uma implosão global, esse foi Abril/Maio de 2011: com mais um mês de demora no início da operação de resgate financeiro (ou seja da ajuda da Troika agora tão diabolizada), teríamos tanto o Estado como o sistema financeiro - o BES e tudo o mais - arrastados para uma situação de cessação de pagamentos, num cenário de contornos catastróficos...

6. Sem prejuízo de reconhecer, mais uma vez, a extrema gravidade, em todos os seus aspectos, da implosão do BES (que já apelidei em público de apocalíptica), chegar ao ponto de considerar que a actual situação do sistema financeiro, no seu conjunto, nunca esteve tão frágil - ou seja está mais frágil do que em Abril/Maio de 2011 - é algo que esgota qualquer capacidade judicativa...

7. Não deixa de ser curioso que no mesmo dia em que esta declaração é notícia, surge a informação de que a responsabilidade do sistema bancário nacional junto do BCE atingiu o mais baixo nível desde Maio de 2010 - e sem considerar ainda a redução excepcional da responsabilidade do BES, entretanto divulgada...

8. Para fazer política deste jeito, mais vale não fazer política nenhuma, o País agradeceria...

sexta-feira, 8 de Agosto de 2014

Caso BES: um erro (ainda) evitável...

1. Estão ao rubro, desenvolvem-se em catadupa, os comentários de políticos e de habituais “opinion-makers”, orais e escritos, sobre este episódio de “Costa Concordia” financeiro: esses comentários apresentam algumas características comuns, nomeadamente serem extraordinariamente esclarecedores e oferecerem soluções óptimas embora fora do tempo útil para as aplicar...

2. Não vou por isso acrescentar o que quer que seja a esses comentários, até porque entendo que já não existe espaço para novas opiniões, o espaço opinativo encontra-se saturado: seja o que for que se diga já alguém antes disse algo exactamente igual ou muito semelhante.

3. Faço uma excepção para referir que já tive oportunidade, em público, de emitir um juízo bastante positivo à forma como o Gov do BdeP actuou neste pavoroso sinistro e, à medida que os dias passam e as informações sobre as características do sinistro se vão acumulando, só encontro razões para reforçar essa avaliação.

4. Neste breve apontamento interessa-me antes focar um ponto que reputo de grande importância prática e ao qual não me parece que esteja a ser dada a atenção devida – a cotação em bolsa dos títulos representativos da propriedade do ex-BES agora denominado “bad bank” (very bad, acrescentarei).

5. Foi anunciado o cancelamento da cotação das acções, o que com o devido respeito me parece um erro a não ser que tal cancelamento se mantenha apenas por um período transitório, necessariamente curto, para permitir organizar outra solução de mercado.

6. A cotação em bolsa dos títulos representativos do capital do “bad bank” constituiria para os muitos investidores que se encontram na triste posição de “pagarem pelo pecador” - especialmente os pequenos accionistas que nunca tiveram qualquer espécie de influência na gestão - um lenitivo, permitindo-lhes transformar em liquidez uma parte ou a totalidade do investimento que vierem a deter na nova entidade...

7. Se, por hipótese, o dito “bad bank” vier a ser transformado num Fundo de Investimento, o que talvez seja uma solução prática, então as unidades de participação nesse Fundo deveriam ser admitidas á cotação o mais rapidamente possível...

8. ...recordo que as obrigações subordinadas que foram emitidas pelo ex-BES, agora “alocadas” ao “bad-bank”, continuam cotadas em bolsa e, há 2 ou 3 dias, cotavam a 20% do seu valor nominal o que traduz uma expectativa do mercado em relação à possibilidade de recuperação dos investimentos no mesmo “bad-bank”.

9. Soluções predominantemente burocráticas e opacas, sobretudo nas actuais circunstâncias em que o mercado parece estar a digerir com muita dificuldade a solução encontrada, é tudo o que menos se recomenda...

terça-feira, 5 de Agosto de 2014

Finalmente boas notícas...mas...

1. Depois de alguns dias de sufoco noticioso dominado quase integralmente pela lamentável novela que culminou na implosão do modelo de negócio do ex-BES, eis que surgem notícias que poderão dar algum alento aos veraneantes...

2. Em primeiro lugar, a continuação de um forte crescimento das vendas de automóveis, que em Julho registaram subida de 33,5% em relação ao mesmo mês de 2013, confirmando a melhor disposição dos consumidores já referida no último Post aqui editado...

3. Agora (hoje) surge a notícia, divulgada pelo INE, de mais uma descida da taxa de desemprego, neste caso a taxa média do 2º trimestre de 2014, para 13,9%, a quinta descida trimestral sucessiva e um valor já distante do “record” de 17,7% atingido no 1º trimestre de 2013...também o mais baixo registo desde o 4º trimestre de 2011...

4. Curiosamente, no afã de desvalorizar esta descida do desemprego, alguns comentadores tentam explica-la por um efeito sazonal – os empregos gerados pela aproximação do Verão – como se em 2013 e anos anteriores não tivesse havido também Verão...

5. Em contraponto, não desvalorizemos o impacto negativo da lamentável novela BES no desempenho da economia, que será provavelmente relevante, não apenas mas também no PIB do 2º ou 3º trimestres...

segunda-feira, 4 de Agosto de 2014

Ultraje à inteligência

PCP e Bloco de Esquerda insistem até à náusea que "este dinheiro que vai ser emprestado está a ser pago pelos contribuintes" ou que a "solução põe em risco dinheiro dos contribuintes", ou que "os contribuintes vão pagar a factura", referindo-se à solução encontrada pelas autoridades portuguesas e europeias para o BES. Simultaneamente insistem nos escandalosos lucros dos Bancos. 
Sendo os termos tão contraditórios, custa a entender como não arranjam outro tipo de argumentação. A verdade é que, pelos vistos, quanto mais primária a argumentação, mais vende, e a comunicação social é a primeira compradora e distribuidora de tão colossal falsidade. 
Tirando o triste e execrável caso do BPN em que, por culpa de uma nacionalização desastrada sem sentido ético ou económico,  os contribuintes vêm perdendo milhões, os apoios que, ao abrigo do Programa da Troyca, foram dados aos Bancos têm-se saldado por ganhos significativos para o Estado, tal o diferencial das taxas de juro. E sem risco quanto ao reembolso, aliás já maioritariamente efectuado.  
Por muito maioria de razão, neste caso do BES, e em estritos termos financeiros, o Estado será o grande ganhador da intervenção. Uma operação de risco nulo, num Banco constituído após expurgo de créditos problemáticos, a uma taxa de juro elevada, e ainda garantida pelo sistema bancário português.   
Critique-se com veemência e indignação o que levou a esta situação e critique-se mesmo o modelo. Mas criticar o modelo com a argumentação bloquista e do PCP é um ultraje à inteligência. 

sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

O princípio constitucional da surpresa.

Estabelece o Tribunal Constitucional que a extensão da CES é constitucional porque, para além do seu carácter excepcional e transitório, e cito o Jornal de Negócios que cita o TC, " os pensionistas com reformas de 1350 euros brutos em diante já deviam estar à espera que os cortes de 2013 fossem reeditados este ano; e aqueles que que têm pensões entre 1000 e 1350 euros, e que foram apanhados de surpresa, podem ter sido surpreendidos, mas a tutela dos seus direitos é mais fraca do que a necessidade de equilibrar as contas do país".  
Ora aí está. Depois dos sacrossantes princípios da proporcionalidade, da igualdade, da equidade, cuja santidade é dotada de uma geometria variável de acordo com as circunstância, agora temos o decisivo, e não menos pitoresco e exótico princípio constitucional da surpresa para dirimir da constitucionalidade ou inconstitucionalidade das normas.
Por mim, fico esclarecido. Como nada já me surpreende, tudo seria constitucional. Ah, mas nem sempre, porque a minha surpresa pode ser também constitucional!...Basta para tal que a tutela desse meu direito revele fragilidades assim julgáveis por  tão douto Tribunal.    

quarta-feira, 30 de Julho de 2014

"Tome os comprimidos"

Achei interessante a inovação, de grande utilidade. Achei, mesmo, uma ideia brilhante. Lembrei-me de alguns dos meus familiares que tomam baterias de medicamentos a horas distintas do dia. Usam umas caixinhas de plástico compartimentadas que ajudam a não esquecer e a não fazer confusões.
Uma caixa com programação informática que alerta para a toma de medicamentos à hora certa e com avisos úteis no caso de esquecimento é uma grande inovação:
É uma caixa de comprimidos criada para garantir que as pessoas tomam o medicamento certo à hora adequada. A caixa contém um alarme sonoro e visual que é activado quando chega a hora de tomar o medicamento. Este alarme só é interrompido quando a caixa é aberta. Nessa altura, desencadeia, na aplicação, as instruções de voz relacionadas com a dosagem e instruções adicionais. Possui ainda um serviço de monitorização remota que permite avisar os familiares quando o medicamento não é tomado. 
O projecto foi desenvolvido por uma start up portuguesa - chama-se Pharmassistant - ganhadora de um prémio que lhe vai permitir ir em busca do mercado e de investidores que apoiem o desenvolvimento do projecto. Uma prova de que temos potencial de investigação, temos conhecimento e inteligência. Precisamos de muitas mais caixas de comprimidos, assim saibamos promover e proteger a investigação...

Pensões, transitoriedade definitiva em 2014...

Afinal o tribunal constitucional não é um inimigo do governo. A "nova" Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES), que está em vigor desde a aprovação do Orçamento Rectificativo deste ano, foi considerada constitucional. A decisão foi conhecida ao início da noite. Realço a argumentação no acórdão da transitoriedade da medida. Os juízes dividiram-se nesta deliberação, 7 contra 6.
Estava em causa a alteração do limite a partir do qual a CES se aplica: 1.000 euros contra 1.350 euros que vigorou até 2013. Surpresa para uns, nem por isso para outros. Depois do chumbo recente dos cortes dos salários dos funcionários públicos, não deixa de causar alguma perplexidade.  
Seguiu hoje para o presidente da república o diploma que cria a Contribuição de Sustentabilidade e que o governo pretende sujeitar a fiscalização preventiva do tribunal constitucional. A CES será substituída pela CS (com cortes inferiores à CES), por um aumento do IVA de 0,25% e por um aumento de 0,2% da TSU dos trabalhadores. Ao contrário da CES, a CS terá carácter definitivo. Este pode ser um ponto crítico. Aguardemos, sem prognósticos, por agora, o que vai acontecer: se o presidente da república envia o diploma para o tribunal constitucional e, enviando, o que vai este órgão deliberar. 

Confiança de Consumidores e Empresários continua a subir: como é possível?!

1. O INE divulgou hoje a habitual informação sobre a avaliação que os agentes económicos fazem em relação à situação da economia, revelando que tanto Consumidores como Empresários se mostram cada vez mais optimistas.

2. O caso mais expressivo ou impressionante é o da confiança dos Consumidores, cujo indicador se encontra no ponto máximo desde Janeiro de 2007 (quase o apogeu da saudosa vaga Crescimentista, de inspiração socrática)...

3. ...sendo que a confiança dos Consumidores tem subjacente a apreciação que fazem da situação económica do País, da sua própria situação financeira, da sua capacidade de poupar e ainda da evolução do desemprego.

4. Ao mesmo tempo, os Empresários também se mostram mais optimistas, com o indicador de clima económico a tocar um máximo de 6 anos(!!), embora com alguns comportamentos divergentes da evolução geral (dos sectores da construção e obras públicas e do comércio).

5. Julgo que estes indicadores merecem ser recebidos com um misto de espanto e de indignação: como é possível tal evolução, sabendo-se que continuam em vigor políticas neo-liberais cujo desígnio consiste em empobrecer as Famílias, erradicar a pouca confiança que ficou do glorioso período crescimentista abruptamente terminado em Maio de 2011, retirar poder de compra aos portugueses (transferindo rendimento para os odiosos credores), etc, etc?!

6. E como é possível esta recuperação de indicadores sem que tenha sido feito qualquer progresso em matéria de reestruturação da dívida, um dos desígnios mais ousados das hostes crescimentistas? Optimismo económico sem reestruturação, onde se viu tal coisa?

7. Nestas circunstâncias, tenho a percepção de que os patrióticos proponentes da reestruturação da dívida deverão encontrar-se algo distraídos – ou talvez amolecidos pela ociosidade do período de férias – doutro modo já teriam posto a circular um abaixo-assinado declarando vivo repúdio pela divulgação de tão insensatos indicadores!

domingo, 27 de Julho de 2014

Olha o balão!...

Algarve. Ia a passar e holofotes, fotógrafos, operadores de câmara, uma grua para tomada de vistas de cima, e uma multidão que procurava o melhor lugar junto a uma vedação ao longo do caminho. 
Que se passa? Perguntei a um dos operadores.
Que se passa? Vão passar os VIPS por essa passadeira vermelha, atrás da vedação. É a discoteca que vai abrir...
Bom, a noite e as férias ficam ganhas para quem assim se desunha para ver ao vivo as vedetas, ditas os VIPS,  que diariamente vêem nas telenovelas. E, ou muito me engano, ou em muito também fica explicada a situação deste país...
O pessoal o que gosta é de olhar para o balão.  

sábado, 26 de Julho de 2014

O "Trombalazanas"

A memória do Sr. Alípio abriu a torrente de outras lembranças (um acumulado que traz à consciência o tempo que efetivamente passou...). Personagens que as circunstâncias da vida nos colocaram pela frente e que nos marcaram de uma forma ou de outra.
Recordei-me daquele que era conhecido por "Trombalazanas". Funcionário de um serviço público que se dedicava a assuntos da lavoura (com então se dizia), era um fervoroso católico e militante de não sei quantos movimentos que se dedicavam ao bem comum. Mas senhor de um feitio terrível, incapaz de um sorriso mesmo quando à sua volta se desatava justificadamente à gargalhada.
A antipatia que gerava a sua permanente arrogância, encontrava, porém, um quase paradoxal paralelo na admiração quase geral que grangeava. Era uma espécie de guardião da moral pública, pois no jornal mais lido por aqueles lados seviciava sem dó nem piedade os que considerava venais, designadamente os que julgava como "escravos da porca da política".
Foram poucos os notáveis de então que escaparam à sua prosa acusatória, brutal como a sua fisionomia, despida de qualquer ironia. Em nome da moral pública julgava tudo e todos. E todos lho consentiam, em especial os visados que não reagiam à violência como seria de esperar (não me lembro de se ter falado num só processo judicial contra ele). Para além disso, nas mesas de café como nas conversas de família, os textos eram motivo de uma geral aprovação, como se naquela comunidade o personagem desempenhasse o papel indispensável de polícia dos costumes e das consciências para que especialmente o credenciava aquele rosto sempre fechado e a total ausência de piedade para com o mais ligeiro pecado ou falha de quem exercia poder.
Até que um dia um sacerdote, homem em tudo desigual do personagem exceto na fé, sabe-se lá porquê resolveu recordar no mesmo jornal responsabilidades públicas já esquecidas que envolviam o técnico agrícola que se apresentava como engenheiro. Sim, da política passada e já esquecida porque a memória coletiva é, de facto, muito volátil. Eram referências a pequenos escândalos, é certo. Mas impróprios de um guardião da ética e da moral pública. Nesse mesmo dia vaporizou-se a superioridade do "Trombalazanas" que passou a ser encarado por ali simplesmente como o trombalazanas que nunca deixaria de ser. Ao ponto de...  não, não conto mais, ou ainda dizem que, como no caso do Sr. Alípio, me estou a inspirar em algum dos trombalazanas da atualidade.

sexta-feira, 25 de Julho de 2014

Contas Públicas em Junho: despesas com pessoal disparam - excelente!

1. A DG Orçamento divulgou na última 4ª Feira os dados da execução orçamental até Junho, dos quais se conclui que o défice das Administrações Públicas ascendeu a € 4.192 milhões, um valor superior em € 149,3 milhões ao verificado em igual período de 2013...quando se devia esperar um valor bem inferior.

2. Para este agravamento do défice contribuiu, com grande destaque, o comportamento das despesas com pessoal: enquanto até Maio registavam uma variação acumulada negativa de -4,3%, em Junho a variação acumulada não só muda de sinal como dá um enorme salto: +8,3%!

3. Trata-se mais propriamente de um fenómeno de explosão desta despesa do que de fenómeno de crescimento; fenómeno que, por certo, terá sido recebido com grande júbilo pelas hostes Crescimentistas pois se trata de um sinal inequívoco de que o Estado está de regresso à sua mais nobre função: Provedor da Actividade Económica...

4. ...injectando mais dinheiro na economia, via salários das múltiplas funções públicas, vai ajudar as vendas de automóveis e de combustíveis, as viagens de férias, as compras de múltiplas gamas de electrodomésticos, a realização de festivais de música, etc, etc.

5. Se existe contrapartida produtiva para a injecção deste rendimento nos circuitos de consumo, isso pouco importa: o que realmente conta é animar a actividade, pois com isso se promove o emprego e o crescimento (?)...se ao mesmo tempo as importações dispararem e voltarmos a aumentar o endividamento externo...paciência, não se pode ter tudo...

6. De pouco valeu a continuação de um forte ritmo de crescimento da receita fiscal (+4,3%), com relevo para as receitas de IRS (+8,4%), do IVA (+3,8%) e, naturalmente, do Imposto sobre Veículos (+40,5%) – o aumento da despesa tudo levou à sua frente, provocando um forte agravamento do défice de Maio para Junho.

7. Há um aspecto que nos deve consolar: o facto desta explosão da despesa com pessoal estar revestida de um verniz constitucional impecável, sendo pois de uma legalidade a toda a prova – nós, contribuintes, vamos mais uma vez sofrer as consequências, certamente, mas a recordação desse toque precioso de constitucionalidade aliviará a nossa dor no momento das más notícias...

8. Apesar destas excelentes novas da explosão da despesa, cumpre reconhecer que há ainda um longo caminho a percorrer para reparar os danos causados por estes impenitentes neo-liberais no tecido do Estado Social e na Coesão Social e Territorial...

9. ...mas, para isso, deveremos colocar muitas esperanças nos misteriosos roteiros de crescimento que, por estes dias, nos estão sendo prometidos por talentosos políticos inspirados nos cenários de felicidade do nobre Dr. Pangloss...

quinta-feira, 24 de Julho de 2014

O senhor Alípio

De vez em vez lembro-me do Sr. Alípio. Foi há muitos anos, mas há coisas que o tempo não muda. Procurou-me para me constituir como seu advogado, pretendendo que o defendesse dos efeitos de um ato do chefe de uma repartição pública. O Sr. Alípio foi durante muito tempo personalidade respeitada na sua comunidade. Quando anos antes o conhecera, vivia bem, pode mesmo dizer-se que àquela escala era um homem rico e exercia um poder relevante enquanto provedor de instituições que distribuíam apoios e, decerto, alguns favores. No decorrer da conversa apercebi-me que o ato que indignava o Sr. Alípio e que o trouxera até mim, significava uma radical mudança de atitude do dirigente daquele serviço que durante anos e anos houvera condescendido com uma conduta pelo menos duvidosamente legal. Dei-lhe a minha opinião que aceitou sem grande resistência. Apenas um "não se pode mesmo fazer nada, não é?". Antes das despedidas, e para minimizar o desconforto, prolonguei um pouco mais o encontro e perguntei-lhe: "Mas diga-me cá, Sr. Alípio, porquê agora esta perseguição, como o senhor lhe chama?". Ao que me respondeu: "Oh, o senhor dr. é muito novo, mas vai ver muito disto pela vida fora. Enquanto pude empregar as filhas, esteve sempre tudo bem. Sabe, eu agora não emprego ninguém. E para piorar tudo, com a doença da minha mulher, deixei passar o natal e não mandei o presente do costume".

terça-feira, 22 de Julho de 2014

Contas externas até Maio: "mixed news"

1. Foi ontem notícia (Boletim Estatístico do BdeP, de Julho) o agravamento do défice da Balança Corrente, nos primeiros 5 meses do ano em relação a igual período de 2013: de - € 484 milhões em 2013 para - € 1.225 milhões em 2014.

2. Esse agravamento, de € 741 milhões, ficou a dever-se ao desempenho de duas rubricas:

- O défice da Balança de Bens, que passou de € 2.466 milhões em 2013 para € 3.100 milhões em 2014 – estamos a gastar mais, nada de surpresas...

- O saldo positivo das Transferências Públicas (com a UE) , que passou de € 427 milhões em 2013 para € 253 milhões em 2014 (pode ser uma queda temporária)

3. Um dado curioso consiste na estagnação do excedente da Balança de Serviços, para o qual se esperava um claro aumento, em função da melhoria registada na rubrica de Viagens e Turismo - cujo superavit aumentou bastante (mais 13,25%, de € 1.674 milhões em 2013 para € 1.896 milhões em 2014) – a qual foi todavia e em boa parte compensada por um pior desempenho da rubrica “Outros Serviços Fornecidos por Empresas”, cujo excedente baixou de € 471 milhões em 2013 para € 319 milhões em 2014.

4. Relativamente à Balança de Capital, o saldo continua naturalmente positivo, de € 1.267 milhões, mas algo inferior ao verificado em 2013, que foi de € 1.368 milhões.

5. Adicionando os saldos das Balanças Corrente e de Capital obtém-se até Maio de 2014 um pequeno excedente, de € 42 milhões, bastante inferior ao que se verificava no mesmo período de 2013 (€ 884 milhões).

6. Em conclusão, e mais uma vez, poder-se-á afirmar que em 2014 voltaremos certamente a apresentar excedente nas contas com o exterior, mas, muito provavelmente, com uma expressão inferior à registada em 2013: se estamos a gastar mais, não podemos estranhar esta evolução...

7....apesar de ser cada vez mais notória, nas hostes crescimentistas, a ambição de uma urgente retoma de hábitos de despesa muito mais ousados (sobretudo por parte do Estado), traduzindo um ardente desejo de regresso a tempos gloriosos, ao delicioso sabor do sufoco financeiro...

Hipocrisia sindical

Curioso, muito curioso e extravagante foi que as manifestações de hoje de activistas sindicais, ditos professores, contra as provas de acesso à carreira tenham sido efectuadas por quem não precisava dessas provas.  Porque os que precisavam de as fazer, apresentaram-se e fizeram-nas, apesar da coacção dos "colegas". 
Falsos amigos, pois que, em época de baixa natalidade e escassez de alunos, quanto menos concorrência tiverem melhor asseguram o posto.
Afinal, uma enorme hipocrisia sindical que, fingindo defender os candidatos, o que visa é proteger os já providos. 

segunda-feira, 21 de Julho de 2014

TAP, muito falada...

Alguém saberá explicar porque razão a TAP continua a vender bilhetes para voos que não tem condições de assegurar. A frota de aviões no ar não é suficiente e o mesmo se passa com os tripulantes, explicações dadas pelo presidente da companhia para justificar cancelamentos e atrasos. Não bastando, vários problemas técnicos com aviões surgiram nas últimas semanas. Aguardam pela entrega de novos aviões e já receberam autorização do governo para recrutar pessoal. Esta não é a TAP a que nos habituámos: uma companhia segura, conhecida pela qualidade da manutenção dos aviões, e com um serviço de qualidade, mas que ainda assim já não é o que era. Tem vindo a perder pilotos para companhias estrangeiras. A TAP é uma companhia que concorre no mercado global. A imagem de uma empresa custa a construir, mas é num piscar de olhos que se perde. Diz o presidente da companhia que a TAP está a atravessar uma crise de crescimento. Pode ser, mas custa a perceber, especialmente para quem viaja na TAP. O que vale é que há escolha...

Entreguem-lhes o país...e safe-se quem puder!...

Os professores exigem do Governo...
A Ordem dos Médicos exige do Governo...
Os funcionários judiciais exigem do Governo...
O PS exige do Governo...
Os Municípios exigem do Governo...
A Intersindical  exige a demissão do Governo...
...e eu exigi-me não ver mais telejornal.
Entreguem-lhes o país, deixem-nos exigir uns aos outros e safe-se quem puder!...

Actividade económica abranda: convite à reflexão crescimentista

1. Indicadores de Conjuntura divulgados na última 6ª Feira pelo BdeP revelam que, apesar de se manter em “mood” de crescimento, a actividade económica em Portugal emite agora sinais de abrandamento.

2. Citando o documento do BdeP: “Em Junho/2014 o indicador coincidente mensal para a evolução homóloga tendencial da actividade económica registou uma ligeira diminuição (de 0,4 para 0,2%), enquanto o indicador coincidente mensal para a evolução homóloga tendencial do consumo privado estabilizou face ao mês anterior (em 1,1%)”.

3. Temos aqui um bom motivo de reflexão para os infatigáveis Crescimentistas - a conclusão de tal reflexão, atrevemo-nos a antecipar, deverá apontar para a necessidade de um forte empurrão na actividade económica (em sentido literal, com os dois braços se necessário)...

4. ...empurrão esse que, na falta de outros agentes interessados em tal exercício, deverá ser garantido pelo Estado, seguindo, de preferência, a nobre cartilha inspirada pelo Dr. Pangloss (ainda em fase de afinação, mas já suficientemente adiantada)...

5. Não há nada como o Estado assumir as suas responsabilidades de Provedor do Crescimento e do Emprego, “empurrador-mor” da economia, dinamizando a actividade, se NECESSÁRIO aumentando a despesa e se POSSÍVEL baixando os impostos - e de passagem DIMINUINDO o défice e a dívida – tudo em harmonia com uma perfeita hermenêutica Panglossiana...

6. Uma última nota para dizer que o PIB do 1º trimestre de 2014 não terá sido tão mau como inicialmente o “pintaram”: a variação em cadeia foi de – 0,6% (e não – 0,7%) e a variação homóloga de +1,3% (e não +1,2%) – são apenas uns “posinhos” mas uns bons “posinhos”, neste caso...



Um Costa ao estilo tipo Seguro

"Não há crescimento sustentável com endividamento, mas também não há crescimento sustentável com empobrecimento".
"O problema não é o excesso de licenciados, mas a falta de empregos para licenciados".
António Costa
Temos homem e temos profundidade de pensamento! 
Creio também que foi ele que inventou que mais vale ser rico e saudável do que pobre e doente. Pois se também já disse que a riqueza é preferível à austeridade...
Ele tem o apoio de todos os Presidentes da Câmara socialistas da Área Metropolitana de Lisboa. Merece!
E nós temos homem e profundidade de pensamento!... 

domingo, 20 de Julho de 2014

Intercalados ...

Esteve em debate na Assembleia da República o pacote legislativo que prevê o corte permanente nas pensões públicas (Contribuição de Sustentabilidade), o aumento do IVA e da taxa social única (TSU). Este pacote destina-se a substituir a Contribuição Extraordinária de Solidariedade em vigor que, por sua vez, está em apreciação no Tribunal Constitucional.  
Um debate que teve a particularidade de ficarmos a saber - ou sem saber - que a medida não é uma reforma estrutural, mas também não é uma reformazinha. É uma reforma intercalar. Como tal, foi explicado que não sendo uma reforma mais global dispensa estudos e o envolvimento dos parceiros sociais.
Não há qualquer reforma, nem estrutural, nem grande nem pequena, nem global nem parcial, nem intercalar. O que há é uma redução de pensões com carácter permanente que não resolve os défices futuros do sistema de pensões pelo simples facto de que as contribuições não serão, e não são, suficientes para pagar as pensões de acordo com as regras que estão estabelecidas.
O montante do pacote legislativo ascende a 620 milhões de euros/ano. Não é uma solução para a sustentabilidade financeira do sistema público de pensões. Não se ouviu uma palavra sobre os impactos da medida em termos de equidade geracional. 
Enfim, mais um debate que pouco ou nada esclareceu. Criatividade é que não faltou. Foram instituídos, pelo menos, três tipos de reformas: reforma mais global, reforma intercalar e reformazinha. Só a partir da reforma mais global são necessários estudos e acordos com os parceiros sociais. Para já continuamos intercalados...

sexta-feira, 18 de Julho de 2014

O catavento


Com este título, publiquei aqui ontem uma nota crítica sobre declarações que o Dr. António José Seguro teria feito a propósito do BES, em alegado contraste com as que houvera proferido após a reunião com o governador do Banco de Portugal há uma escassa semana. Acontece que o Dr. Seguro não fez as declarações com o sentido que retirei do que li nos media que a elas se referiram, como pude constatar ouvindo-as da sua boca num dos noticiários da manhã. Referia-se o Dr. A. J. Seguro à necessidade de cabal esclarecimento do que se passa no GES, dado o contágio que está a ocorrer em relação a empresas cotadas e à afetação da reputação do País. Não há nelas nada de incendiário nem insensato como antes tinha opinado. Penitencio-me pela nota anterior, e naturalmente peço desculpa a quem por aqui passa e nos lê, mas sobretudo aos comentadores que sobre a mesma se pronunciaram.  

quarta-feira, 16 de Julho de 2014

Prof. Doutor Manuel Jacinto Nunes - em memória e singela homenagem

1. Apesar de não ter sido seu aluno, na velha escola do “Quelhas”, tive o privilégio de conhecer bem o Prof. Manuel Jacinto Nunes, ao longo da vida e em especial durante um período em que trabalhamos juntos no CA da CGD (era eu o benjamim da equipa a que ele presidia), já lá vão cerca de 30 anos...

2. Mais recentemente encontrava-o com alguma frequência em reuniões do Conselho Consultivo do BdeP, a que nunca faltava, mostrando sempre uma enorme atenção (e afeição) aos assuntos da Instituição.

3. Não vou aqui repetir as palavras de público e merecidíssimo elogio que lhe foram dedicadas, nomeadamente pela Presidência da República, destacando, em especial, o seu enorme talento como economista e professor, bem como a excepcional dedicação ao serviço público de que sempre deu provas e a absoluta probidade com que exerceu os mais altos cargos, tanto no Governo como no BdeP e na CGD.

4. Vou singelamente destacar uma das qualidades do Prof. Jacinto Nunes: a de um formidável contador de histórias, apoiado por uma memória prodigiosa e por um sentido de humor que encantava quem teve o privilégio de com ele conviver.

5. E proponho-me contar uma das muitas histórias que lhe ouvi, esta passada nos já longínquos anos 40 (parte final), quando foi destacado, então como jovem economista, para integrar a equipa encarregada de negociar a aplicação do Plano Marshall a Portugal.

6. Tinha sido escolhido para chefiar essa equipa uma pessoa das mais curiosas que conheci até hoje, um cavalheiro de nome Cabral Pessoa (conheci-o na embaixada de Portugal em Washington, no final dos anos 80, onde era conselheiro há cerca de 40 anos e, já com mais de 90 anos, mantinha uma vivacidade que muito me surpreendeu). Essa escolha foi feita por ser um funcionário superior do BdeP e considerado, na altura, das pessoas do meio que melhor dominavam o inglês...

7. ...Cabral Pessoa, para além desse atributo era o que se podia considerar um “bom vivant”, gostando de vestir sempre impecavelmente, de bons automóveis...e da boa vida em geral!

8. Pois bem, um belo dia a equipa do Plano Marshall (chefiada por Cabral Pessoa e integrando o jovem Jacinto Nunes) teve de se deslocar a Paris, no âmbito das negociações do dito Plano. Até Paris e em Paris, tudo bem...

9. ...mas no regresso, a comitiva, para absoluto espanto de Jacinto Nunes, em vez de continuar a viagem de comboio (naquele tempo viajava-se muito mais de comboio) até Lisboa, apeou-se em Biarritz! Biarritz era, na época, o Eldorado das praias mais famosas da Europa, a mais procurada pelos famosos (e abonados) da altura...

10. ..e ali permaneceram por alguns dias, seguindo a orientação de Cabral Pessoa que, em Biarritz, se sentia perfeitamente em casa...

11. O Prof. Jacinto Nunes é que não achou muita graça ao assunto pois temia que, ao chegar a Lisboa, fossem recebidos com grande escândalo, dada a ousadia de andar à boa vida em Biarritz sem “darem cavaco a ninguém”...sentindo que punha em risco o seu lugar de assessor no Ministério das Finanças que constituía o seu “ganha-pão” na altura...

12. Quando, para ainda maior espanto seu, ao desembarcar em Lisboa constatou que ninguém tinha dado por nada, Cabral Pessoa tinha tratado de tudo de uma forma superiormente discreta!

13. O alívio que eu senti, contava o Prof. Jacinto Nunes com imensa graça! Querido Prof. Jacinto Nunes, deixa-me muitas saudades, desejo toda a paz à sua Alma.

terça-feira, 15 de Julho de 2014

Joelho esfolado

A noite premiava-me com algum descanso e atividade lúdica televisiva e facebookiana quando, subitamente, bateram à porta com alguma insistência, desprezando a campainha. Levantei-me meio surpreso e deparo-me com a minha netinha chorosa ao colo da mãe. Não foi difícil fazer o diagnóstico, o joelho esfolado era o motivo daquele bater intempestivo. Os olhos aflitos e em lágrimas da pequenina pediam socorro. Tomei-a nos braços e levei-a para fazer o respetivo curativo. Agarrou-se ao meu pescoço denotando um mistura curiosa de confiança e de medo. Tranquilizei-a e, com a natural autoridade associada ao carinho que lhe é devido, fiz o que tinha a fazer. No final, ficou admirada por não lhe ter doído. Encheu-me de ternura sem fim. Um doce. Depois, como é curiosa, e já tendo a certeza de que não lhe iria fazer mais nada, começou o seu interrogatório. Perguntou-me se em pequeno também esfolava joelhos. Expliquei-lhe que se houvesse essa modalidade nos jogos olímpicos decerto que ganharia uma das três medalhas. - Sim. Eu era um esfolador de joelhos profissional. Dei cabo deles vezes sem conta, e a tua mãe também era uma artista. Olha para os joelhos dela. Estás a ver? Ainda tem algumas cicatrizes. E foi mesmo ver. Enfim, conversa puxa conversa acabou por ficar convencida que afinal é normal dar cabo dos joelhos. Deitou-se em cima de mim e abraçou-me cheia de confiança. Tirei-lhe o casaco e vi que tinha uma pequenina esfoladela no cotovelo. - Olha, também tens aqui uma coisita. Começou a estremecer com medo e disse-lhe que ia colocar um produto para não infetar. Deu-me a mão e ao colocar o desinfetante disse-me meio chorosa: - A mim acontece-me tudo! - Acontece-te tudo? Deixa-te disso. Isto não vale nada. Pronto, já está. - Já? - Sim. Deu-me a mão e fomos para a sala onde me mimoseou novamente com carícias deliciosas. Foi então que a mãe lhe disse: - Sais mesmo ao teu avô! Qualquer coisita e ficam meio apardalados. Esta observação fez-me recordar o passado e os tormentos que sofri por causa das quedas e das esfoladelas que ia colecionando, realmente eu era um caguinchas do caraças. Não era muito diferente da minha neta. Foi quando me perguntou: - Quem é que te tratava das tuas feridas? - A minha mãe. Agarrou-me e disse: - Eu quero o meu vovô...

É possível um compromisso?

Instituto Nacional de Estatística - Projecções de População Residente (2012)  

A natalidade é um assunto de interesse nacional. Foram décadas passadas em que os poderes políticos ignoraram a crise de natalidade, pela ausência de políticas adequadas que ajudassem a contrariar ou a inverter a tendência dramática do declínio dos nascimentos. Mas não foi apenas o poder político que andou distraído, a sociedade civil, mais uma vez, pouco ou nada se mobilizou para discutir o assunto, andou preocupada com outras coisas. Uma espécie de “suicídio” colectivo, confortado pela modernização económica e a sociedade de bem-estar que trouxe legítimas esperanças e algumas conquistas que fazem parte do aquis civilizacional do desenvolvimento. 
A natalidade é fundamental para o futuro do país, não apenas por uma questão de sobrevivência, mas porque é nos jovens que está a energia de trabalhar e transformar, é neles que reside uma parte significativa da esperança.
A Comissão para uma Política da Natalidade em Portugal nomeada pelo PSD para propor uma política para a promoção da natalidade entregou hoje o seu trabalho. A proposta analisa os alertas que durante anos têm sido disparados sobre o plano inclinado da natalidade e as projecções mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre a evolução da população residente e os resultados do Inquérito à Fecundidade realizado pelo INE em 2013.
O trabalho apresenta um conjunto de medidas que abrangem diversas áreas, que incluem a fiscalidade, as relações laborais e os apoios sociais. Um documento para ler com tempo. É pena que as medidas não venham acompanhadas de avaliação e estudos de impacto. O tema das migrações não é, por exemplo, tratado.
Uma coisa tenho por certa, as políticas públicas de apoio à natalidade só funcionarão se conquistarem confiança. Confiança quer dizer estabilidade e consistência no tempo. É uma tarefa difícil, considerando as políticas contrárias que têm sido seguidas, o desemprego jovem em níveis muito graves e a imigração em grande escala de futuros pais. A memória não é curta. A tarefa é grande para conquistar a confiança perdida, tão grande como o desafio de os pais decidirem ter mais filhos. Espero que este trabalho possibilite uma discussão alargada e a mobilização de todos em torno deste tema. 

segunda-feira, 14 de Julho de 2014

Não precisa de voltar a santo, mas era bom que o espírito, de futuro, voltasse a ser tranquilo...

Já não sei quantos dias passaram desde que o BES resvalou para um brutal processo de desvalorização, confirmando o que alguns, à boca pequena, temiam há já algum tempo. Hoje, na Bolsa, as ações do banco que garantem ser seguro, voltaram a perder parte do seu valor. Isto apesar de se ter precipitado a solução de substituição da administração, e de se ter iniciado o inevitável processo de afastamento da família que o teve o pequeno império nas mãos. Dizem que até os mercados em NY tremeram com os problemas detetados no universo Espírito Santo. Tenho dúvidas - de leigo - sobre se o BES poderia, mesmo em colapso iminente, ter esse efeito sobre os mercados, pois imagino que o valor do banco e das instituições financeiras na sua órbita, não representarão mais do que zero virgula qualquer coisinha para o sistema financeiro global. Há no entanto uma declaração que não pode passar despercebida, a da Senhora Merkel que apontou o caso do BES como um sintoma da fragilidade da zona euro. Isso sim, é muito preocupante: problemas num banco, pequeno até à escala regional,  são suficientes para pelo menos por a nú a precaridade dos equilíbrios cantados desde o princípio deste ano. Mas também por aqui se revela o risco do discurso do "daqui para a frente só depende de nós". É que o "daqui para a frente" não pode ignorar o acumulado do que se praticou ou omitiu lá atrás. As faltas de controlo e de supervisão, tal como as faltas de ética do passado, não são fatores neutros em relação ao devir. Ameaçam cair em cima desta situação de enorme incerteza e inquietação em que o País vive, e dificultar o cumprimento da promessa de alívio do imenso sacrifício de pelo menos parte da população.

domingo, 13 de Julho de 2014

NOS COMUNICAÇÕES, S.A. (Pai Nosso que estais no céu venha a NOS...)

Confesso que tenho medo das telecomunicações. Quando se pretende resolver algum problema é um verdadeiro calvário, sobretudo para cancelar uma assinatura. 
O meu pai faleceu em fevereiro. Na altura, antes de falecer, tomei as providências necessárias para cancelar as assinaturas da televisão e de um telefone. A situação que configurava um fim próximo levou-me a tomar certas formalidades. Não fazia sentido continuar com algo que nunca mais utilizaria e que, também, praticamente não utilizava. Nunca cancelei as assinaturas por uma questão de respeito. Nunca pensei ser um tormento ter de cancelar os contratos com a Optimus e com a ZON. Um verdadeiro calvário cujos diálogos devem estar gravados e na posse da então duas empresas que se "casaram" há pouco tempo, adotando o nome conjunto de NOS. Depois de muita labuta, dores de cabeça e telefonemas atrás de telefonemas, julguei ter resolvido os casos. 
O problema com a OPTIMUS foi de tal maneira, quase que diria violento sob o ponto de vista verbal, que tive de entregar o problema ao meu advogado. Com muito esforço consegui a suspensão do contrato. No dia do funeral recebi um telefonema da OPTIMUS a comunicar que o assunto estava resolvido. Achei a atitude simpática e até agradeci. Perguntei se a última fatura ainda tinha de ser paga, mas não, estava tudo tratado. Bom, pensei, pelo menos foram simpáticos. Já tenho este problema resolvido. Menos um. Pensei.
Hoje, passados vários meses, fui, como é habitual, a casa dos meus pais para ver se havia qualquer coisa, porque nestas coisas de morte de familiares caem com alguma facilidade assuntos para resolver. Tinha uma carta de advogados a exigir pagamento de uma dívida à NOS COMUNICAÇÕES, S.A.!
Fiquei de boca aberta, uma carta de advogados a exigir o pagamento de uma dívida do meu pai?! Os termos destas cartas irritam-me sobremaneira. Uma prepotência, uma arrogância sem limites, um atentado à dignidade de quem tinha e tem tudo em ordem, com ameaças de procedimento judiciário. Enfim, a merda de uma linguagem imprópria para quem cumpre e respeita a ordem e os valores da sociedade. Ainda por cima ameaçam que iriam, caso não pagasse, incluir os dados do meu pai "em base de dados partilhada entre as empresas que oferecem redes e serviços de comunicações eletrónicas, com todas as consequências daí decorrentes, nomeadamente a impossibilidade de celebrar novos contratos", como se o meu pai tivesse necessidade depois de morto de celebrar novos contratos de comunicações eletrónicas! Que eu saiba a NOS ainda não conseguiu estabelecer comunicações com o além! Que eu saiba!!! 
O que é que eu fiz? Ainda com o carro a trabalhar fiz o pagamento através da internet. Depois tentei entrar em contacto com a NOS que me remeteu para um outro número, que, por sua vez, não me levou a lado nenhum, até ter de procurar forma de contactar. Não foi fácil, e também não foi gratuito, ouvindo sempre aquela cascata de água fria de vozes impessoais e irritantes. Surgiu-me um senhor com o qual conversei sem ter resultado nenhum. Aconselhou-me a ligar amanhã  para um número para ver o que é que se passava. 
Confesso, publicamente, que tenho medo destas empresas. São autoritárias, humilham, fazem conforme lhes apetece, segundo as suas regras e sinto um desprezo e um distanciamento quando há um problema a resolver, caso lhes retirem qualquer coisa.
Amanhã vou falar para o 800932900 para ver porque é que o meu falecido pai foi intimado a pagar uma dívida de 16,52€ (onde estão incluídos 0,25 juros de mora e 4,99 € de despesas administrativas) depois da OPTIMUS ter, na altura, e por iniciativa própria, repito, por iniciativa própria, comunicado que o problema do cancelamento da assinatura estava resolvido. Ficou tudo regularizado. Basta irem ouvir os registos telefónicos para comprovar toda esta situação.
Para que fique registado, e caso haja alguém da NOS que ande no Facebook ou nos Blogs a pesquisar coisas sobre a empresa, informo que a conta cliente é: 1.29097325_1 (OPTIMUS).
Pronto. Foi assim que acabei a minha tarde de domingo. Fiquei com má impressão da NOS, o que não é para admirar, já que me fez recordar uma piada que em tempos ouvi a propósito dos habitantes de uma certa cidade. - Sabe, senhor doutor, estas pessoas só conseguem rezar o Pai Nosso até ao venha a nós...Lembrei-me desta tirada a propósito da novel empresa NOS. Podem utilizá-la. Eu não vou exigir direitos de autor. Mas sabem o que me apetece dizer é mandar-vos para o raio que vos partam, embora preferisse outra, mais portuguesa, mais vicentina...


Pois é, o inglês é a língua universal.

Afinal o ensino do inglês vai ser obrigatório, do 3º ano ao 9º ano. Uma decisão que peca por tardia. Depois de ter sido suspenso, depois de ter sido enquadrado nas actividades de Enriquecimento Escolar Curricular, mas de frequência facultativa, e depois de o Ministério da Educação se ter convencido que o nível de conhecimentos da língua inglesa no 9º ano é menos do que suficiente, a decisão óbvia foi finalmente tomada. Mas não há fome que não dê em fartura. Agora decidimos que "Queremos ser o primeiro país do mundo a conseguir este objectivo": o objectivo é que dentro de três ou quatro anos todos os alunos do ensino secundário sejam certificados pelo Cambridge com o nível First Certificate. Fantástico!
Esperemos que a partir de agora haja uma aposta sem retrocessos, que os governos acabem com o stop and go do ensino do inglês e levem a sério que o domínio da língua inglesa é fundamental no mundo global da competitividade...

sexta-feira, 11 de Julho de 2014

Reestruturação da dívida ou outro objectivo (não revelado)?

1. Foi ontem apresentada a há muito esperada proposta de reestruturação da dívida pública portuguesa, rodeada de um razoável aparato publicitário generosamente fornecido por uma comunicação social ávida de grandes ideias para o País.

2. Não vou dizer que esta operação constituiu mais um episódio moldado no velho brocardo latino “parturiunt montes, nascitur ridiculus mus”, pois me parece que não se tratou de parir um rato nem qualquer outro animal desta era, mas antes de esconder, bem escondido, um dinossauro económico...

3. Esta proposta, se bem a entendi, não constitui mais do que um “fait divers”: o que os seus autores realmente pretendem não é uma reestruturação da dívida, pelo menos como objectivo final, mas sim um resultado bem mais profundo e ambicioso: uma mudança de sistema económico, que acabe com a economia de mercado. Entendamo-nos, pois.

4. Esta proposta, se fosse levada às últimas consequências, significaria na minha perspectiva e pelo menos, o seguinte: (i) suspensão do acesso a financiamento externo, de fontes públicas ou privadas; (ii) evaporação da poupança das Famílias; (iii) saída de capitais do País, enquanto houvesse tempo, em grande escala; (iv) falências simultâneas do Estado e do sistema financeiro, integralmente suportadas pelas Famílias e pelas empresas residentes; (v) queda abrupta do investimento produtivo; (vi) exclusão da zona Euro e da União Europeia; (vii) empobrecimento súbito e numa escala nunca vista da esmagadora maioria das Famílias residentes; (viii) emigração (talvez melhor fuga de populações) em massa; (ix) destruição de todos os alicerces de funcionamento de uma economia de mercado; (x) apropriação/confisco pelo Estado da quase totalidade dos meios de produção.

5. Isto equivaleria à adopção de um modelo económico muito semelhante ao que vigorou na União Soviética e países satélites até aos idos anos 80, com resultados admiráveis como muitos ainda estarão recordados...e que hoje subsistirá apenas, na sua pureza, na ultra desenvolvida Coreia do Norte, um paraíso social como todos sabemos...

6. Resolver chamar a isto uma reestruturação da dívida, apresentada com pompa e circunstância, só poderia feito a título de brincadeira (de mau gosto, certamente) ou com propósito de enganar os crédulos do costume.

7. Como se percebe, pois, a operação não “pariu um rato” pois pretendia parir um dinossauro...bem escondido.



quinta-feira, 10 de Julho de 2014

Fiscalidade verde, "reciclagem" e redução de impostos...

A Comissão encarregada da reforma da fiscalidade verde entregou ao governo o seu trabalho. As propostas apresentadas cujo mérito não discuto representam uma aumento de impostos na ordem dos 180 milhões de euros. Estão em causa vários impostos e taxas, entre os quais está uma nova taxa sobre o carbono que vai incidir sobre os combustíveis e a energia, uma taxa sobre os sacos de plástico e um imposto sobre o transporte aéreo. 
Com uma carga insuportável de impostos sobre as famílias e as empresas e num momento em que se ouvem vozes na Europa e no governo que é preciso baixar os impostos, levanta-se a questão de saber se o governo avançará ou não com esta carga adicional de impostos e que tipo de "reciclagem" vai fazer. Os impactos da tributação do carbono na economia são uma variável na decisão. A Comissão avança que o aumento do preço da gasolina pode subir até 5,7% e que o aumento do preço do gás natural pode atingir 8%. 
Sabemos que o Estado é insaciável em termos de impostos. O recurso aos impostos tem sido uma arma fácil para resolver os males dos excessos da despesa pública. Os 180 milhões seriam uma ajuda para a difícil tarefa de baixar o défice. O que se espera é que haja neutralidade fiscal, que a receita cobrada seja devolvida à economia em incentivos e benefícios fiscais que aproveitem às famílias e às empresas que adoptam comportamentos ambientalmente responsáveis. A tentação de obtenção da neutralidade fiscal através da redução do IRS não é de descartar...

domingo, 6 de Julho de 2014

Uma achega para a Reestruturação da dívida...

1. Não há volta a dar-lhe...os profetas da reestruturação da dívida não desarmam, estão  novamente de regresso ao palco mediático, e em grande força!
2. Não tendo logrado perturbar, como seria seu patriótico desígnio, a conclusão do celerado Programa de Assistência Económica e Financeira (PAEF) e forçar, pelo menos, a celebração de um Programa Cautelar, insistem de novo na operosa argumentação do Manifesto dos 74+ (alguns mais, recrutados na 25ª Hora).
3. Face à evidência do enorme erro que seria o País tomar o seu conselho por bom, traduzido numa forte desvalorização da dívida cotada em mercado (e consequente subida das yields) e numa muito maior dificuldade em aceder aos mercados (e pagando muito mais caro)...
4...interrogo-me sobre quais serão os efectivos e racionais motivos que estarão por trás desta nova arremetida mediática dos Reestruturacionistas...
5. Em relação a alguns deles (não todos, aceito) compreendia-se o racional do Manifesto dos 74+: atrapalhar, tanto quanto fosse possível, a conclusão do PAEF; mas como atrás já referi, essa "guerra"  terminou, não tem mais aptidão para produzir "utilidade"...para quê e porquê esta nova investida? Não entendo, confesso.
6. Independentemente da questão da difícil cognoscibilidade dos desígnios dos Reestruturacionistas, nesta nova fase, há um ponto que me impressiona: a falta de imaginação/objectividade de que dão testemunho, pois dizer que é preciso mais tempo para pagar a dívida e juros mais baixos, qualquer "Zé da Esquina" é capaz de dizer, para isso não são necessários Manifestos nem tanto talento envolvido neles.
7. Por tal motivo, aqui fica uma achega concreta e objectiva caso os Reestruturacionistas a queiram considerar: proponham que pelo menos 50% (se não for possível a totalidade) da dívida pública portuguesa seja convertida em dívida PERPÉTUA e SEM CUPÃO!
8. Assim, ficaríamos sem preocupações quanto ao pagamento dessa parte da dívida - só pagaríamos se e quando nos fosse possível (até poderíamos jurar que pagaríamos só não dizendo como, quanto e quando) - e não teríamos o incómodo dos juros a cair todos os semestres ou anos...
9. Com uma reestruturação dessas até poderíamos abraçar, tranquilamente, um famoso programa económico inspirado pelo  Dr. Pangloss, nos últimos dias valorizado com uma nova e relevante componente, da Regionalização!  

quinta-feira, 3 de Julho de 2014

Irlanda segue em frente...e que contraste!

1. Em evidente contraste com a vozearia oca que somos obrigados a suportar em Portugal, diariamente e até à saciedade – à qual, para espanto meu, é reconhecido estatuto de iluminação pública das nossas pobres mentes - insistindo na irreversibilidade da crise e na necessidade de mais e mais despesa do Estado como se estivesse aí a solução dos problemas por que temos passado em vez da sua causa (!!!)...

2. ...a Irlanda segue em frente, prescindindo do contributo desse sistema de iluminação pública e sem fazer ruído, tendo registado no 1º trimestre de 2014 um desempenho económico notável: um crescimento do PIB de 2,7% em cadeia e de 5,1% em termos homólogos.

3. Esse desempenho ficou a dever-se ao forte crescimento das exportações, que registaram neste período uma variação de + 7,2%, ao mesmo tempo que as importações registaram abrandamento.

4. No tocante às contas públicas, a informação disponível mostra que a Irlanda será capaz de cumprir o objectivo para o défice no corrente ano, que consiste em não exceder 4,8% do PIB (foi de 7,2% em 2013, convém recordar) – mas escusado será dizer que para esta previsão conta, e bastante, o desempenho da economia superior ao esperado.

5. Não surpreende, pois, que a taxa de juro implícita na cotação da dívida pública irlandesa ao prazo de 10 anos se situe actualmente em cerca de 2,36%, ou seja 120 pontos base (pb) abaixo da taxa equivalente para a dívida portuguesa, cerca de 50 pb abaixo da dívida italiana e 30 pb abaixo da dívida espanhola...

6. ...e que na Irlanda o pós-Troika tenha sido encarado com toda a tranquilidade, sem necessidade, como cá sucedeu, de dezenas de altas individualidades virem a terreiro emitir o seu veredicto a propósito de tal transição, não poucas ou quase todas recomendando, solenemente, o famoso Programa Cautelar (quem ainda se recorda?).

7. E, que eu saiba, não surgiu na Irlanda nenhum movimento de altas notabilidades, que entre nós deu que falar, recomendando uma operação de reestruturação da dívida pública com a qual todos teríamos muito a ganhar, obviamente, com juros bem mais altos e enorme dificuldade em aceder aos mercados!

8. Que contraste!



quarta-feira, 2 de Julho de 2014

Vendas de automóveis crescem 40,5% em 2014. Mas é pouco, é muito pouco...

1. Foram ontem notícia, em Portugal: (i) o crescimento de 40,5% das vendas de automóveis no 1º semestre de 2014 em relação a igual período de 2013, e (ii) a confirmação pelo Eurostat de uma nova queda da taxa de desemprego, em Maio último, para 14,3% da população activa (recorda-se que esta taxa atingiu um pico de 17,9% no 1º trimestre de 2013 e que, desde então, tem vindo a baixar).

2. Cumpre observar, “prima facie”, que devemos tomar esta informação com as maiores reservas, não lhes dando crédito por aí além, pois contrariam a existência de um contexto de crise profundíssima na qual, de modo AXIOMÁTICO, uma boa parte dos “media” e uma pletora de brilhantes comentadores continuam a ver o País megulhado...

3. Mas, mesmo admitindo, a muito custo e sem conceder, que esta informação merece algum crédito, importa assinalar que isto é de todo insuficiente para contrariar a dita crise profunda.

4. Para que a actividade económica consiga ganhar real “steam” e fugir à dita crise, torna-se certamente indispensável, quiçá urgente, adoptar o ousado programa inspirado nas ideias do Dr. Pangloss, recentemente anunciado ao País e que tem como eixos fundamentais os seguintes:

- Investir na cultura, na educação e na ciência, para assegurar o “futuro” do País;

- Promover a coesão social e teritorial;

- Defender o Estado Social (supostamente da devastação neo-liberal);

- Promover ( “ex nihilo”), o Crescimento e o Emprego.

5. Com um programa deste calibre, se eficientemente implementado, teríamos grandes possibilidades de, muito em breve, assistir a crescimentos das vendas de automóveis a ritmo superior a 100% e à evaporação o desemprego em escassos meses.

6. Não iria durar muito, como se perceberá, mas pelo menos ser-nos-ia proporcionado o deleite de reviver tempos bem gloriosos...

http://blasfemias.net/