terça-feira, 23 de Setembro de 2014

Malandros, que não o avisaram!...

Devidamente ataviado com a ajustada farpela, para mostrar presença e empenho na acção, um vereador da Câmara de Lisboa com ar de jota meninó apareceu nas televisões a explicar que a autarquia não estava à espera de tanta chuva em tão pouco tempo, queixando-se ainda de a Câmara não ter sido devidamente avisada sobre este cenário.
Pois é, o paizinho não o avisou e ele nem suspeitava que, mesmo um vereador como ele, se pode molhar quando chove ou escorregar nas sarjetas entupidas. 
Nem o paizinho o avisou, nem o Chefe apareceu, entretido noutros combates mais ardentes e prioritários, jogando pelo seguro para não sair chamuscado.
E assim ele lá teve que exibir a fatiota de combate. Por acaso, enxutinha e sem aparente pinga de chuva.  


segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

Da série "as melhores metáforas do ano" (ou "a reposição de uma velha polémica")


Na versão eletrónica do Económico de hoje.

A taxa sobre o carbono e os heróis do agrupamento

A taxa sobre o carbono, a principal medida da fiscalidade verde, vai constituir mais uma machadada na competitividade das empresas portuguesas e, assim, no crescimento económico e no emprego. Tomando a forma de um  adicional sobre o ISP (imposto sobre os produtos petrolíferos), irá representar   um aumento de preço na gasolina e no gasóleo para o consumidor final.
Portugal, com uma base industrial insignificantemente poluidora a nível global, permite-se encarecer o preço dos produtos, tornando-os menos competitivos, enquanto os grandes países poluidores, sem quaisquer preocupações ambientais, concorrem a preço baixo com produtos altamente poluídos nos mercados onde também estamos. Já não bastava o preço alto da energia eléctrica, mercê da opção por um desproporcionado parque eólico produtor de energia cara, mas, e mais grave, com o preço acrescido dos custos adicionais de ter que se manter um aparato produtivo clássico como alternativa pronta a fornecer energia no caso de não haver ventania.
E assim, como aliás já o fazemos, iremos pagar na electricidade o custo das novas eólicas e, simultaneamente, o custo dos parques produtivos necessários para suprir as suas falhas. Paga-se a eólica e paga-se simultaneamente a convencional.
Porque não são os salários que afectam a nossa competitividade. A nossa competitividade é afectada, sim, por outros factores nos quais o custo da energia é determinante. E onde os governos, que tanto clamam por crescimento e emprego, normalmente actuam em sinal contrário, por lógicas corporativas ou de grupo, que se sobrepõem ao interesse geral. Claro que os responsáveis se tornam heróis no seu agrupamento. Mas fábricas como, por exemplo, a Covina/Saint Gobain estão paradas e continuarão paradas devido ao custo da energia.

domingo, 21 de Setembro de 2014

Educação e Justiça: tão diferentes, mas tão iguais...

Dois ministérios muito diferentes, missões distintas, mas com problemas comuns. Educação e Justiça, e outros haverá, sofrem de um problema idêntico: deficiente administração e gestão dos recursos. 
Esta semana culminou com dois pedidos de desculpa, depois da negação insistente da existência de problemas. Na Educação os erros na colocação dos professores, com efeitos negativos no arranque do ano escolar. Na Justiça a paralisação da plataforma informática Citius com consequências graves no funcionamento dos tribunais. Ambos os casos afectando o exercício de direitos essenciais. 
Os ministros assumiram a responsabilidade política. Na Educação com uma dimensão de um alto responsável pela administração escolar, na Justiça com o insólito facto de uma não demissão. Ou talvez não seja assim tão estranho. 
Mas a responsabilidade política, só por si, não revolve um certo tipo de erros que se tornaram crónicos na administração pública e no funcionamento do Estado. Os modelos não estão ajustados às necessidades, os modelos de gestão pecam por ser centralizadores ou então é a falta deles que está na base do descontrolo dos meios e dos recursos que supostamente devem ser capazes de dar resposta com qualidade e em tempo útil aos objectivos políticos e satisfazer os interesses dos cidadãos e das comunidades. 
Na Educação assistimos há anos a problemas na colocação dos professores e na abertura das escolas. Todos os anos instala-se um clima de guerra entre o ministério e os sindicatos. Qual escola, quais alunos, quais professores, qual ensino! Na Justiça, depois de anos a preparar a reforma do mapa judiciário, os suportes informáticos não estavam preparados para responder. O Citius afinal entrou em colapso e vai ser necessário construir outro.
Os défices de gestão na administração pública - é disto mesmo que se trata - conjugados com opções ultrapassadas de concepção política do Estado, incluindo o seu modelo de funcionamento - vão continuar a estar na base de problemas muito graves que afectam o bem-estar dos cidadãos e constituem um travão à prosperidade. E os milhões de recursos - sejam trabalhadores sejam horas ou euros - que se gastam! Tudo em nome de uma cultura política que está esgotada. 
Por melhores e adequadas que sejam determinadas medidas políticas, a máquina infernal do Estado trata de as matar logo à nascença. Esta semana política não vai desaparecer da memória rapidamente. Mas dela deveria ser retirada uma reflexão para, com responsabilidade política, perceber e compreender o que funcionou mal e mudar o que deve ser alterado. Assumir os erros é próprio dos seres inteligentes, mas não é suficiente...

Leonard Cohen



Este homem faz 80 anos. Há muitos que me acompanha. Estudei com ele. Trabalhei com ele. Tardes, noites de satisfação a ouvi-lo. Não há muitos génios da palavra e da música que se possam considerar intemporais. Cohen é um desses raros. 

Que contes muitos mais, é o desejo egoísta.

sábado, 20 de Setembro de 2014

A poluição dos velhos

A partir de Novembro, dizem os jornais e a Câmara da capital, só carros com matrícula posterior ao ano de 2000 poderão circular no centro histórico de Lisboa e ter acesso ao eixo Avenida da Liberdade-Baixa. Por questões ambientais e para fomentar o transporte público, dizem.  
Uma política verdadeiramente socialista e integradora. A avaliar pela viatura que conduz, quem manifesta significativos sinais de pobreza, pois tem o seu destino natural marcado: andar de autocarro ou de eléctrico. Seria mesmo um atentado civilizacional que pudesse passear o calhambeque nas zonas chiques da cidade, obviamente destinadas a exclusiva utilização por gente que saiba pisar tão delicadas vias. 
Os menos favorecidos de abonos e de viaturas terão que aguentar a distinta poluição provocada pelo mais abonados, enquanto estes, até pela modernidade da montada, podem escapar rapidinho à horrível poluição que os afronta. 
Uma medida inconfundivelmente socialista. E neo-liberal, claro está!
A vida não está mesmo para os velhos...sejam eles homens ou carros. 

sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

O bom filho à casa torna

"Reduzir o défice não é a nossa prioridade", proclama o impagável Hollande segundo revela o Expresso on line. Ninguém tinha dúvidas disso. Porém, a afirmação de François levanta a dúvida: se antes se sabia que a República Francesa não cumpriria as metas do défice por manifesta (e confessada) incompetência, parece que agora o incumprimento das obrigações (que continua a impor aos outros) é deliberado e resulta de uma profunda convicção. Nunca saberemos ao certo, porém, se não foi a incompetência que terá levado à convicção. Ou sabemos?
Seja como for, é de assinalar este realinhamento com a família socialista, que, estou certo, rejubila já com o regresso do verdadeiro filho...pródigo.

quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

Irlanda continua a apontar-nos o caminho...

1. Num trimestre (2º de 2014) em que o conjunto das economias da zona Euro estagnou, a Irlanda cresceu 1,5% em relação ao trimestre anterior (em que já tinha crescido 2,8% em relação ao 4º trimestre de 2013) e 6,5% em termos anuais.

2. Numa apreciação por componentes do PIB, verifica-se que este crescimento se ficou a dever sobretudo às exportações líquidas e ao investimento privado, sendo mais modesto o contributo do consumo privado.

3. Para o conjunto do ano, os analistas antecipam um crescimento médio do PIB não inferior a 5%, que será o ritmo mais elevao desde 2007.

4. Este ritmo de crescimento está a influenciar muito positivamente o comportamento do mercado da dívida irlandesa, sendo de destacar o facto de a taxa de juro implícita na cotação da dívida a 10 anos se situar em torno de 1,7%.

5. Por este conjunto de factores, a Irlanda já anunciou a intenção de vir a reembolsar antecipadamente a dívida contratada com o FMI aquando do Programa da Assistência Financeira, pois conseguirá financiar-se no mercado a custo inferior, reduzindo por essa via os encargos orçamentais com juros...

6. Mas na Irlanda não se discutem as “vantagens” da reestruturação da dívida pública, da mutualização da dívida e, muito menos, as virtualidades de uma saída “controlada” do Euro...

7. Em suma e mais uma vez, a Irlanda continua a mostrar-nos o caminho...

terça-feira, 16 de Setembro de 2014

O regresso à troca directa!

A seguir as propostas dessa exótica Comissão da Fiscalidade Verde, o Governo irá obrigar os empregados por conta de outrem a receber parte do seu ordenado em tickets de transporte, como forma de incentivar o uso de transportes públicos.
A verificar-se (e tudo indica que sim, dado o ímpeto esverdeante do Ministro do Ambiente), tratar-se-á, a meu ver, de uma ingerência abusiva nas opções de vida do cidadão trabalhador, que tem o direito de receber em moeda corrente a remuneração do seu trabalho, dando-lhe o destino que bem entender. Se o Governo quiser dinamizar o transporte público, sem contender com as liberdades pessoais, tem a solução alternativa de considerar no cálculo do IRS uma dedução correspondente aos passes sociais e títulos de transporte. 
Mas, claro, esta não seria uma medida mediática. Mediático, sim, é o Ministro aparecer, na entrada do autocarro, com um ticket transporte na mão.
Depois do aumento colossal dos impostos (em que ainda não consigo medir a parcela imposta pela pesada herança socrática, sem dúvida a mais relevante, e a que resultou de vontade governamental, em alternativa à eliminação do Estado paralelo), vem agora este governo retroceder à idade da troca directa, elegendo o pagamento em espécie como medida de política. 
Creio que nenhum governo socialista faria melhor. E ainda acusam este governo de ser neo-liberal!...
PS: Fiscalidade verde? Vermelha, bem vermelha é que ela é. E quem não tem transporte colectivo? Institui-se um câmbio para a troca por euros? E um organismo regulador? 

A complicação da burocracia...

Foi lançado em Novembro de 2012 um recrutamento de mil novos inspectores da Autoridade Tributária. Até à data não entraram em funções. Agora, o governo diz que a entrada em função dos inspectores deverá estar concluída até ao final de 2014, enquanto o sindicato dos trabalhadores dos impostos diz que a entrada vai resvalar para o início do próximo ano. Enfim, a diferença não é grande. O facto é que decorreu um ano e nove meses sobre a data do lançamento do recrutamento. Uma demora justificada por um responsável do fisco por se tratar de um processo complicado. Complicado é entender as razões para tanta burocracia...

sábado, 13 de Setembro de 2014

E os Bentos a crise vai levando...

Bento XVI resignou...
Paulo Bento rescindiu...
Vítor Bento desistiu...
Mas que crise esta, hem?

sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

Economia e medicamentos

Sempre que surge um grave problema de saúde levanta-se logo de imediato a seguinte pergunta, não há ainda tratamento? Compreende-se perfeitamente esta forma de estar, porque a comunidade, apesar de todos os contratempos, habituou-se às grandes conquistas da medicina. Obviamente que nem tudo passa por esta medida, mas uma parte significativa pode ser resolvida ou minimizada através das terapêuticas médicas.
O "Ébola" está aí, a atacar inexoravelmente a pobre África, caldo de muitas doenças, e a ameaçar o ocidente. Sempre que tal acontece, ameaças ao bem-estar e saúde dos ocidentais, os esforços são canalizados para encontrar uma solução, vacina ou medicamentos. As indústrias responsáveis põem-se em campo. Acontece que a investigação para obter um novo produto, capaz de atingir os seus fins, custa imenso dinheiro, de uma forma geral podemos apontar para verbas da ordem dos mil milhões de dólares. As empresas de investigação  têm com objetivo obter retorno do investimento e obter lucros da venda, logo, se não houver perspetivas de retorno substancial não se atrevem a tamanha aventura. O caso do "Ébola" é paradigmático. Esta doença é conhecida  desde 1976. Apresenta uma letalidade impressionante, inicialmente autolimitada a determinadas zonas de um continente sem recursos, e, por isso mesmo, nada convidativo a investimentos. Agora, apesar de atacar o ocidente, continua a não ser muito convidativa à investigação, porque atinge poucas pessoas, e, se forem tomadas adequadas medidas de prevenção, pode ser perfeitamente controlada. Então, o que fazer? Não dá lucro investigar novos produtos? Então não se investe. Mas não é preciso falar do "Ébola" para se chegar a esta conclusão. Se recordarmos a história da tuberculose verificamos que praticamente não há medicamentos novos desde há muitas décadas. A doença deixou de ser problemática no primeiro mundo - apesar do aparecimento de novas estirpes ultrarresistentes -, o número de pessoas infetadas baixou de forma drástica, e ficou acantonada a comunidades pobres e com recursos insuficientes para adquirir novos produtos. Este problema começa a preocupar as autoridades que, assim, se veem impossibilitadas de lutar e tratar velhas e novas doenças. Trata-se de um grave problema de saúde pública que vai obrigar à tomada de iniciativas no sentido de se investigar e obter novos produtos, porque o mundo é cada vez mais pequeno, mais interativo e mais perigoso. Na prática, os grandes laboratórios, historicamente responsáveis pela produção de novos fármacos, continuam a assobiar para o lado, investindo mais nas doenças cardiovasculares e nas neoplasias, certos de que poderão obter proventos enormes, já que atingem mais pessoas e cujos  recursos  fazem inveja aos povos subdesenvolvidos, que sofrem, também, das mesmas doenças que nós, ocidentais, além de continuarem a sofrer os horrores de velhas e novas doenças emergentes.
Solução? Há uma que começa a ser desenhada. As autoridades dos diferentes países deveriam criar prémios chorudos, nos quais estariam contemplados os investimentos da investigação, além de um generoso equivalente ao retorno comercial, e ficarem com os direitos exclusivos desses produtos com os quais fariam frente aos problemas de saúde emergentes, propiciando os meios terapêuticos adequados a todos os povos, independentemente do seu nível económico. Esta seria a forma mais adequada de resolver a falta de investimento em medicamentos contra determinadas doenças, caso do "Ébola" e da velha tuberculose, porque para a hipertensão e a hipercolesterolemia já temos mais do que suficientes.

quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

terça-feira, 9 de Setembro de 2014

Ouçam a voz da razão. Por uma vez...

Queixas-crime contra ministros ou pedidos de demissão porque as coisas não correm bem, são gestos patéticos ou absolutamente inconsequentes. Vivemos num país em que raramente alguém se demite, mesmo que sejamos invadidos pela Albânia. 
Manifestei-me contra a chamada reforma do mapa judiciário pela elementar razão de que nada de fundamental resolve no sistema de justiça, gerando, ao invés, custos no plano da coesão e equilíbrio territoriais. Não passará muito tempo para que essa conclusão seja consensual... 
O que creio que ninguém projetou - nem os mais assanhados profetas da desgraça - foi a dimensão dos problemas resultantes das alterações no funcionamento dos tribunais. A maioria dos processos judiciais está hoje desmaterializada, pelo que tudo quanto se faça para superar a inoperacionalidade do CITIUS, corre o risco de causar mais problemas do que aqueles que estão criados. Por isso, em nome dos direitos dos cidadãos - e não dos histéricos interesses corporativos dos agentes do sistema que a pretexto se fazem sentir - deixem-se de arrogâncias de um lado e aproveitamentos mesquinhos do outro lado, e tome-se urgentemente a medida que a razão impõe: suspensão dos prazos para prática de atos judiciais, bem como de outros - como os prescricionais - que dependam daqueles.

Mais um ritual de palração

Logo à noite, o primeiro debate televisivo entre Seguro e Costa. Se, depois de meses de campanha, reportagens televisivas, entrevistas nos jornais e na rádio, depois deste tempo todo de acrimónia e ofensas mútuas, de propostas logo criticadas ou esquecidas e depois retomadas com nova embalagem, os socialistas ou equiparados, potenciais votantes de um e outro ainda não sabem quem escolher, então pobres socialistas.  
Teremos então mais um tempo de palração. Tempo perdido, digo eu, por duas razões. Porque qualquer um apenas só conseguirá convencer os já convertidos. Depois, porque um exército de jornalistas, analistas, comentadores logo se encarregarão de interpretar os discursos a seu modo, reestruturando-os de acordo com a sua conveniência, dizendo o que não ouviram e distorcendo o que realmente ouviram. 
E o mais admirável, para mim, é como os nossos políticos, desde os líderes partidários ao 1º Ministro, se sujeitam a isto, e acabam por delegar em meia dúzia de pensadores encartados de sua confiança a tradução do que disseram nas entrevistas ou debates. 
Enfim, tempo de palração. E palrar é fácil, como, embora noutro contexto, hoje dizia Miguel Sousa Tavares. Siga, pois, o ritual. 

domingo, 7 de Setembro de 2014

Futebol

Também gosto de futebol. Por que razão não deveria de gostar? Em pequeno brincava como qualquer criança, na escola, depois da escola e antes de fazer os deveres. Não tínhamos bolas de borracha, ainda estávamos longe desse tempo, e as de couro eram só para os graúdos e os "profissionais". 
Um dia convenci o meu pai a comprar os rebuçados de meio-tostão com os jogadores da bola para preencher a caderneta e conseguir o cromo de "ouro" com o qual conseguiria adquirir a bela bola de couro que estava exposta na taberna-mercearia de terra batida. Não foi fácil. Ele disse que sim, mas o que é que eu iria fazer aos rebuçados? - Eu? Respondi logo: - Como-os todos! Sorriu e deu-me o dinheiro. Cheguei à tasca, que mais parecia uma caverna, onde pontuavam candeeiros de petróleo, e perguntei quantos rebuçados ainda havia no pote. - Para quê? - Para saber se posso ou não comprar todos. - Todos?! - Sim. Todos. - Tens dinheiro? - Tenho pois. - Mostra lá? Saquei algumas moedas do bolso, uma de cinco escudos e outras de vinte e cinco, dez e cinco tostões, e mostrei-lhas, longe, na palma da mão. - Hum!  Vou contar. Despejou os rebuçados sobre o balcão ensebado e pôs-se a contar. Eu ainda não andava na escola, mas já sabia contar, pelo menos até cem. Atento, ouvi-o a contar em voz alta até que parou. Não me recordo quantos, mas foram mais de cem. O que eu sei é que ainda fiquei com dinheiro, sobretudo com as moedas pequenas. Cheguei a casa entusiasmado para completar a caderneta. Já tinha todos, só me faltava o tal, o único, aquele que permitia completar a caderneta para depois conseguir a desejada bola de couro. De repente surgiu o cromo mais cobiçado. Enquanto todos contribuíam para a procura do "precioso", eu ia comendo rebuçados uns atrás de outros. Estava nervoso. O meu pai colou o dito com farinha de trigo e eu corri que nem um doido até à loja. - Aqui está a minha caderneta. Está completa. Agora quero a bola. O taberneiro, um trombudo, verificou se estava tudo em ordem e depois tirou-a da parede e deu-ma. Fiquei entusiasmado, mas depressa verifiquei que estava vazia. Para é que eu quero uma bola de couro vazia. Pensei. Era noite de domingo e não havia bicicletas em casa, logo não tinha bomba. Tanto protestei, que tiveram de sair para ver se algum vizinho tinha uma bomba. Conseguiram uma. Depois tentaram bombear ar para dentro da bola. Aquilo não enchia, era preciso um adaptador qualquer. Foi uma chatice. Eu queria ir para a cama e dormir com a bola, mas cheia. Não sei o que fizeram, mas houve alguém que a conseguiu encher. Depois começaram a bater com ela no chão. Estava deliciado a vê-la a saltar e a fazer barulho. Eu também fiz o mesmo e fui dormir. O pior foi durante a noite, fui atormentado por violentas dores de barriga e pus a casa em alvoroço. O que seria, o que não seria, até que me perguntaram: - O que é que fizeste aos rebuçados? Não me digas que os comeste todos? - Todos não, mas quase. Foram ver e não restavam muitos. - Mas tu és doido ou quê? Não sabes que comer muitos rebuçados faz mal à barriga? Foi então que contrapus: - Mas tu não disseste o que é que eu iria fazer a tantos rebuçados? E eu não disse que os comia! Então, comi-os. - Doido varrido! Vi-me aflito, mas a bola de couro já era minha e eu idealizava os jogos de bola que ia fazer em vez das bolas de trapos. Iria ser um sucesso no bairro e no ringue de patinagem transformado em campo da bola. E foi mesmo. Que jogos! Melhores e mais emotivos do que o Portugal-Albânia.

sexta-feira, 5 de Setembro de 2014

Irlanda mostra-nos o caminho...mais uma vez!

1. Foi hoje notícia a descida das taxas de juro implícitas na cotação da dívida pública irlandesa (yields), no prazo de 2 anos, para um nível inferior a 0%.

2. Trata-se de uma situação que ultrapassa, surpreendentemente, a mais ambiciosa pretensão dos Reestruturacionistas que por cá se manifestam – que, como sabemos, consiste em alargar os prazos da dívida para o extremo do horizonte visual, se possível com juros bonificados, pressupondo a inocência dos credores – com a enorme vantagem de não indispor os credores, antes recebendo a sua adesão espontânea...

3. Sem ruídos que se notem, sem proclamações reestruturacionistas, sem planos geniais para a saída “controlada” do Euro - que entre nós continuam a ser glosados pelos mais eloquentes produtores de opinião - a Irlanda vai fazendo o seu caminho, sem alardes, com a economia a crescer e...

4. ...como agora se vê, tendo os credores/mercado na mão, ao ponto de se disporem a pagar para deter o estatuto de credor da Irlanda.

5. Mais uma vez, como aqui já salientamos noutras oportunidades, a Irlanda mostra-nos o caminho!

Elites

Esta entrevista dispensa comentários. Não tanto pelo que revela sobre quem a dá, mas porque suscita a reflexão sobre as elites que temos.
Ah! Já me esquecia. Hoje vai ser condenado um sucateiro...

quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

Sistema de pensões: um assunto adiado, até quando?

Caíram as medidas dos aumentos da TSU dos trabalhadores  – de 11% para 11,2% - e do IVA – de 23% para 23,25% - que integravam o pacote da Contribuição de Sustentabilidade chumbada pelo Tribunal Constitucional no início de Agosto. Veremos se definitivamente ou se o Orçamento do Estado de 2015 as vai aproveitar.
A legislatura irá terminar sem uma reforma estrutural dos sistemas de pensões. Está hoje claro que a sustentabilidade financeira dos sistemas públicos de pensões está ameaçada pela conjugação negativa e persistente de factores económicos e demográficos, apesar da “reforma” de 2007 e das medidas aplicadas durante o Programa de Ajustamento Económico e Financeiro através de cortes nas pensões dos regimes contributivos e do congelamento de actualização destas pensões.
É bom ter presente que o adiamento de uma intervenção estrutural agravará com o tempo os desequilíbrios financeiros e as iniquidades sociais e tornar-se-á insustentável, na medida em que será cada vez mais estreita a margem política para actuar por via de cortes sobre as pensões e de medidas paramétricas que penalizam as gerações futuras.
Está em causa uma mudança de paradigma demográfico, económico e social que implica encontrar compromissos sociais e políticos duradouros para uma mudança do sistema de pensões. Fazê-lo sem uma ideia de compromisso é uma fonte de tensões que em nada contribui para encontrar soluções que gozem de uma representação alargada da sociedade. 
Há soluções para os problemas, mas é preciso actuar. Actuar com urgência porque há muito trabalho para fazer e porque uma reforma estrutural leva tempo a produzir resultados. E o tempo é, neste caso, escasso. Já não estamos no plano do desejável, mas sim no plano do indispensável. Vamos ter que aguardar. Até quando? 

terça-feira, 2 de Setembro de 2014

Emitir dívida a 50 anos, porque não?

1. Foi ontem notícia uma primeira emissão do Tesouro Espanhol ao prazo longuíssimo de 50 anos – vencimento em 2064 – tendo sido colocados, em oferta privada, € 1.000 milhões à taxa de juro de 4%.

2. Este tipo de dívida emitida a prazos muito longos, tem sido utilizada por exemplo pelos Tesouros Americano e Inglês, encontra um mercado preferencial em investidores institucionais como os fundos de pensões e as companhias de seguros de vida, instituições que têm necessidade de encontrar coberturas adequadas (em prazo e rendimento) para responsabilidades de muito longo prazo que assumem, nomeadamente com planos de pensões.

3. Não existe, para já, qualquer indicação de o Tesouro Português vir a emitir dívida a prazos tão longos, apenas se ouviu anunciar, há poucas semanas, a possibilidade de uma emissão de dívida a 15 anos (o que nem é novidade, no caso português).

4. Devo admitir que a emissão de dívida a 50 anos seja uma ideia muito simpática, tanto para Crescimentistas como para Reestruturacionistas...trata-se de dívida que se poderá classificar como “a perder de vista”, que não causa preocupações por algumas décadas...

5. ...embora tenha consciência de que se encontra ainda longe do tipo de dívida pública que seria ideal para aqueles dois grupos de Patriotas – dívida PERPÉTUA e sem JURO (ou de cupão ZERO, tanto faz), que a generosidade implícita nos corações dos nossos credores ainda haverá de tornar possível, um dia...

6. Mas enquanto esse belo dia de inspiração misericordiosa dos nossos credores não chega, porque não emitir dívida a 50 anos (e com juro, obviamente)?

segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

O dedo na ferida

Confesso-me farto de diagnósticos. Mas por vezes retomar a consciência do que somos e de como somos, faz bem. Por isso, gostei de ler este artigo sobre a principal endemia nacional, a irreprimível tendência para meter o Estado em tudo e tudo no Estado. Recomenda-se a leitura.

domingo, 31 de Agosto de 2014

O Zé e os brasões, estamos bem entregues...

O Zé que faz cá muita falta andava há muito tempo sem aparecer com uma ideia brilhante. Parece que o Costa ficou surpreendido, mas pelos vistos só depois das reacções públicas à ideia de eliminar os brasões coloniais que decoram o jardim da Praça do Império
Acabar com os brasões - que remetem para o nosso passado histórico - simplesmente pelo facto de terem sido concebidos pelo Estado Novo não faz qualquer sentido. Não temos que nos envergonhar, antes pelo contrário, da nossa História. Se assim fosse, então teríamos que renegar da memória colectiva outros símbolos da mesma época. 
Não se compreende como é que um simples vereador da câmara municipal da capital do país decide, por sua alta recriação, eliminar um conjunto artístico que se encontra sintonizado com a zona histórica dos Jerónimos. O Mosteiro dos Jerónimos e a sua envolvente constituem um conjunto que reflecte a nossa identidade como povo. O nome da Praça do Império também é para abater? Então, e o que dizer do Padrão dos Descobrimentos? Quem o construiu? Também vai ter a mesma sorte? 
Falta de bom senso e falta de cultura levam a estes excessos irracionais. E os excessos revolucionários dão nisto. Estamos bem entregues... 

Insuspensão


Ai este princípio constitucional da igualdade!...E se fosse um funcionário? Poderia insuspender-se, calcorreando o país e, simultaneamente, exercendo a função?

sábado, 30 de Agosto de 2014

São Bartolomeu

Hoje é o dia de São Bartolomeu. Nunca esqueço este dia por vários motivos, alguns mais prosaicos, outros nem por isso. Na aldeia em que vivi, neste dia comemora-se o santo. Ele lá está, na capela, prazenteiro e bem disposto segurando por uma trela o diabo. Para que o demónio não fique muito irritado liberta-o neste dia para poder dar uma volta. Ou seja, até o diabo tem direito a um dia de liberdade, vai apanhar sol e depois regressa para ficar aprisionado às mãos de Bartolomeu. Nada mau. A festa religiosa é uma realidade que ainda perdura em muitas bandas. Nalgumas zonas pratica-se o banho santo, em que as crianças são obrigadas a mergulhar por três vezes nas ondas do mar para as libertar da influência do diabo e até evitar certa doenças. Um horror. Fui sujeito a esta prática, não no dia de São Bartolomeu, mas foi também num dia de agosto e muito me doeu. Ainda hoje sinto, cada vez que penso nisso, a falta de ar que tive. Um horror que nunca mais esqueci, nem esqueço, talvez daí o meu respeito enorme à água, porque morrer afogado não deve ser coisa nada boa, pensei em pequeno. Mais tarde, muito mais tarde, tive de ver uma senhora que apresentava um quadro psiquiátrico grave, tipo psicótico. A senhora tinha algumas perturbações, mas do tipo depressivo. Nesse dia, que era também um sábado, apresentou-se numa figura que nunca mais esqueci. Perfeitamente fora do normal, com um discurso meio violento. Dizia que estava possuída pelo diabo, porque era dia de São Bartolomeu e o santo tinha-o libertado. Resultado, o diabo tomou conta dela e estava a martirizá-la. O sofrimento e a aflição eram mais do que evidentes. Pediu-me para que a libertasse do diabo. O diabo era que a senhora tinha umas dimensões corporais muito pouco usuais, mais alta do que eu e quanto ao peso nem vale a pena comentar. Tive receio de que o "diabo" se lançasse a mim. Se assim fosse nem São Bartolomeu me protegeria. Com muita calma, e um discurso temperado, tentei ajudar a senhora, até que me lembrei de que tinha umas ampolas de um neurolético. Expliquei-lhe que tinha um medicamento muito bom para a libertar do diabo, mas para isso seria necessário dar-lhe uma injeção sem que o diabo visse. Olhou-me com dois poderosos e profundos globos vidrados de cores diabólicas e não disse nada. Ficou imóvel à espera e eu não perdi tempo. Foram logo duas ampolas. Ainda olhou para a coxa surpreendida e eu continuei com um discurso calmo e o mais temperado possível atendendo à situação. Os minutos iam passando e o efeito começou a manifestar-se. A acalmia tornou-se visível, ficou menos agitada e o discurso diferente. Ai senhor doutor, parece-me que o diabo já está a sair. Pois está. O pior foi convencê-la de que ele não voltaria naquele dia. Expliquei-lhe que teria de ir para casa, tomar os medicamentos e consultar um colega da respetiva especialidade. E ele não volta, senhor doutor? Não, porque o efeito da injeção vai durar muito tempo, e logo à noite o diabo volta a ficar preso. O alívio foi mais do que notório, uma mistura de farmacologia e de fantasia, mas não tive outra alternativa na altura. Soube mais tarde que ficou compensada com a terapêutica e com o acompanhamento instituídos.
Como posso ficar indiferente a este santo, guardador do diabo, que foi esfolado em vida? Miguel Ângelo retratou-o na capela Sistina segurando a própria pele e com a faca utilizada para o esfolar.
Ainda não tenho nenhum São Bartolomeu, mas quando tiver um vou colocá-lo num local de destaque e até promovê-lo a santo patrono dos portugueses, os "esfolados vivos". Neste caso, a diferença é que não pode ser representado com o diabo à trela, porque o santo deixou de o vigiar. De facto, vistas bem as coisas, o demónio passou a andar à solta 364 dias do ano, e apenas um dia por ano poderá ficar acorrentado, ou seja, no dia de hoje...
(24.08.2014)

sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

Bordado de Tibaldinho

Sábado, véspera do dia em que o diabo anda à solta, saímos com o objetivo de passar a tarde não muito longe. A pretexto de ir tomar um café, o que não é natural depois de ter tomado um ao almoço, rumei até uma localidade onde julgava estar a decorrer uma sessão de "pintura de rua". Instintivamente já estava a ver algumas obras e a pensar em adquirir uma caso fosse capaz de matar a sede de arte. No local não havia nada. Dei mais uma volta e não vislumbrei quaisquer movimentos. Também não bebi o café. Comecei a andar sem destino à espera de poder esbarrar em qualquer coisa que desse sentido à viagem. Nada. O vazio dos acontecimentos era substituído por paisagens mais do que conhecidas e pelos verdes silenciosos e vulgares. Quando vi a placa, não hesitei. No último momento guinei em direção a Tibaldinho. Já lá tinha estado mas não vislumbrei nenhum sítio onde pudesse ver os famosos bordados. Ao chegar à povoação o deserto humano impôs-se e só vi um trabalhador num telhado. Não parei para lhe perguntar onde é que se poderia ver e adquirir os bordados. Enveredei por uma ruela estreita, que a meio ainda se estreitava mais, e onde consegui vislumbrar uma tertúlia típica das aldeias. Quatro mulheres de um lado, sentadas em bancos e nas escadas e duas do outro lado. Aproximei-me, mas fiquei na dúvida se passaria no local. Viram-me, levantaram-se, exceto duas, e começaram a acenar-me para passar enquanto empurravam os bancos para trás. Disse-lhes que não, que ia recuar, mas insistiram tanto que lhes fiz a vontade. Lentamente cheguei ao estreitamento da ruela. Parei. Abri a janela e agradeci a gentileza. Aproveitei a ocasião para lhes perguntar onde é que podíamos ver os famosos bordados. A mais nova apontou para uma senhora de idade, vestida de preto, e que estava sentada nas escadas com a cabeça apoiada nas mãos. A minha tia faz bordados. Ai sim? Podemos vê-los? Claro. Olhe bom senhor, pode parar o carro ali em baixo, um pequeno cruzamento de duas estreitas vielas. Assim fiz. Saí do carro, não fechei nem as portas nem as janelas e cumprimentei um velho de olhar distante e agarrado a um longo bordão que estava sentado num banco de pedra. Boas-tardes! Disse-lhe. Levantou a mão direita, empurrou o chapéu roçado, e respondeu num tom triste e distante, boas-tardes. Subimos as escadas estreitas e curtas da habitação e entrámos numa pequena sala onde tive de encurvar a cabeça com medo de tocar no teto. Casa muito humilde, acanhada, escura, dando a entender a condição social da senhora. Pediu desculpa pela pobreza e pela forma como a irmã, a senhora que tremia por todos os lados, e que apresentava um discurso de perturbação mental evidente, que, entretanto, se tinha dirigido à minha mulher, dizendo-lhe que era muito bonita, e que queria comer. Estava com fome. Está sempre naquilo, não sei o que fazer, pede comida a todo o momento. Depois, retirou de uma gaveta, vários bordados. Um deles, o primeiro, maior e muito bonito ficou-nos debaixo dos olhos. Mostrou-nos outras obras mais pequenas ao mesmo tempo que se queixava do trabalho que lhe dava a fazer os bordados e da falta de compradores. Ninguém comprava nada, os tempos não estão para isso. O melhor é não fazer mais nenhum. Os que lhe restavam podiam ir para os bisnetos, uma satisfação evidente no meio daquela pobreza de Cristo. Fui eu que optei pelo primeiro, o mais dispendioso. O preço teve de ser feito em escudos. Depois traduzi para euros a pedido da velhinha. Entreguei-lhe as notas devidas as quais agarrou com sofreguidão na mão esquerda e, quando íamos a sair, fez algo que já não via há quase quarenta anos, quando um fotógrafo à la minute nos tirou um fotografia na serra da Boa Viagem, beijou a nota de Santo António e benzeu-se. A senhora dos bordados não beijou as notas, mas benzeu-se, com discrição, em frente a um quadro que retratava um Sagrado Coração de Jesus. Tive a perceção de ter ajudado a resolver algo que lhe estaria a atormentar o seu velho coração...
Ando por aí à espera de encontrar algo, e quase sempre encontro. Hoje encontrei, um belo bordado de Tibaldinho, que vai ser centro de uma mesa e centro de uma pequena história...

Desemprego volta a cair em Julho: será verdade?!

1. O Eurostat divulgou hoje dados sobre o desemprego referentes ao mês de Julho, segundo os quais a taxa de desemprego em Portugal voltou a baixar, agora para 14% da população activa (era de 16,3% em Julho de 2013), menos 0,1 pp do que em Junho e a maior descida anual na União Europeia (a par da Hungria).

2. Esta notícia não pode deixar de ser acolhida com a maior surpresa – diria mesmo com indignação – posto que contraria um dos pilares mais frondosos do pensamento Crescimentista: não admitir, em nenhuma circunstância, nem que chovam pregos ou parafusos, qualquer expressão de melhoria do quadro macro-económico enquanto continuarem em vigor políticas neo-liberais...

3. ...e como as políticas neo-liberais, segundo o mesmo pensamento Crescimentista-Panglossiano, persistem em impor a sua lei em Portugal, em matéria de mercado do trabalho só um resultado seria possível: o aumento, persistente e irrefragável, da taxa de desemprego.

4. Todavia, não sendo viável, para os mesmos Crescimentistas, contrariar frontalmente os dados divulgados pelo Eurostat, só uma solução, aliás inteiramente razoável, lhes resta: ignorar a realidade, mantendo a sua preciosa oratória de ataque aos terríveis malefícios das políticas neo-liberais e prometendo a promessa diáfana de políticas orientadas para o crescimento...

5. ...e até podem afirmar, tranquilamente, que o desemprego não cessa de subir, que já ninguém reparará na diferença...

quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

Nos tempos que já lá vão...

Nos tempos que já lá vão, numa noite escura de Dezembro, o rei veio à varanda do seu iluminado palácio e reparou que a cidade estava negra como breu. Chamou o seu primeiro-ministro e ordenou-lhe: antes do natal quero ver a cidade toda iluminada. Toma lá 500 cruzados dos impostos cobrados aos feirantes e pelo uso da água do chafariz público e trata já de resolver o problema.
O primeiro-ministro chamou o presidente da câmara e ordenou-lhe: o nosso rei quer a cidade toda iluminada ainda antes do natal. Toma lá 250 cruzados e trata imediatamente de resolver o problema. 
O presidente da câmara chamou o chefe da polícia e disse-lhe: o nosso rei ordenou que puséssemos a cidade toda iluminada para o natal. Toma lá 100 cruzados e trata imediatamente de resolver o problema.
O chefe da polícia emite um edital a dizer: por ordem do rei em todas as ruas e em todas as casas deve imediatamente ser colocada iluminação de natal.  Quem não cumprir esta ordem será enforcado. 
Uns dias depois o rei veio à varanda e, ao ver a cidade profusamente iluminada, exclamou:
Que lindo! Abençoado dinheiro que gastei. Valeu a pena!...
Assim era o Estado nos tempos que já lá vão: o servo a pagar em duplicado, serviço e taxa, e o Estado a prover à redistribuição do montante arrecadado. Nos tempos que já vão?
(adaptado de conto exemplar) 

Clima económico em máximos de 2008: onde nos encontramos, realmente?

1. Segundo revela hoje o INE, o indicador de clima económico em Portugal atingiu no corrente mês de Agosto o nível mais elevado desde Agosto de 2008 (altura em que recolhíamos os imensos benefícios de uma política económica não neo-liberal, convém recordar), recuperando em todos os sectores menos no Comércio - não o de automóveis, seguramente...

2. Começa a ser difícil extrair uma conclusão líquida, inequívoca, da imensa pluralidade de indicadores económicos, mais ou menos avançados, com que diariamente somos defrontados...

3. ...por exemplo a laboriosa agência de informação económica Capital Economics, de inspiração claramente anglo-saxónica, presenteia-nos, hora sim, hora não, com a emissão de notas de pessimismo relativamente às economias do Euro – quando existem sinais de recuperação merecem toda a reserva, quando são de abrandamento ou de retracção, são acolhidos com toda a segurança...

4. ...sempre desaguando na conclusão de que o BCE precisa de adoptar políticas mais acomodatícias, seguindo na esteira do Banco de Reserva Federal (FED), para estimular a actividade económica da zona Euro, sem as quais essa actividade pode estar condenada a uma perpétua estagnação...

5. ...”sharp drop in ESI adds to signs of eurozone slowdown” assim reza o título da mais recente nota de comentário.

6. No meio da confusão e dispersão de indicadores, o Presidente do BCE, numa intervenção muito recente, veio finalmente abrir a perspectiva deste Banco poder adoptar uma política de “QE” à imagem e semelhança do que foi a política do FED nos últimos anos – compra massiva e permanente de títulos de dívida pública e privada, nos mercados secundários, inundando os mercados de liquidez e forçando uma forte descida das taxas de juro, “yields e na emissão de nova dívida, que se estendeu a todos os segmentos do mercado...

7. Os grandes beneficiários do impacto que a declaração do Presidente do BCE teve nos mercados, nestes últimos dias, foram os governos enquanto emitentes de dívida, com uma descida das yields para níveis considerados “historicamente baixos”...

8. Resta-nos esperar que os benefícios desta nova versão da política do BCE, “à FED”, a concretizar-se, possam chegar efectivamente às empresas, não se limitando aos sectores públicos, de modo a estimular o investimento privado...

9. ... e não venha a verificar-se, ao invés, um conhecido efeito de “moral hazard”, desincentivando os governos de manter políticas orçamentais prudentes, cedendo à tentação de seguir a histeria sintética do coro “anti-austeridade” (Hollande, por exemplo, está aflitíssimo com este problema, percebe-se bem da sua sugestão hoje divulgada)...

10. ...começa a ser difícil perceber onde estamos, realmente...

quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

E os médicos chutados para canto!...

A demissão dos médicos foi a consequência da incompetência (palavras do Presidente da FPF) demonstrada pela selecção nacional de futebol no Campeonato do Mundo do Brasil. 
Compreende-se: também seria aborrecido atribuir as culpas ao roupeiro...
PS: Incompetência algo exótica e pitoresca: Paulo Bento, o seleccionador e primeiro responsável, foi promovido.  

terça-feira, 26 de Agosto de 2014

Politicamente insurreto

E eis como, de repente, o modelo de transparência que quiseram para a seleção e recrutamento dos altos cargos da Administração Pública, começa a revelar a sua essencial opacidade. É sempre assim quando o escrutinador não se deixa escrutinar. Mais uma manifestação dos resultados desastrosos da demagogia do politicamente correto. Eu, que nestas coisas sou politicamente muito insurreto - mas vivido o suficiente para saber o que a casa pode e deve gastar -, prefiro a nomeação política sindicável ao pretenso cientismo na seleção daqueles que têm de executar políticas.

Comendador João Francisco Justino

1. Fui ontem surpreendido pela notícia do falecimento do Comendador João Francisco Justino, que terá sido um dos últimos (senão mesmo o último) grande “capitão de indústria” em Portugal.

2. Conhecemo-nos quando eu, terminado o período de serviço militar obrigatório (39 meses!), iniciei uma carreira bancária no antigo Banco Pinto & Sotto Mayor, tendo efectuado um périplo pelas principais agências da região de Lisboa, não só para me aperceber em detalhe da respectiva forma de funcionamento, mas também para contactar com clientes.

3. Estávamos então no final do já longínquo ano de 1972, e nesse périplo das agências do velho Sotto, passei cerca de 15 dias na agência de Sintra, na altura chefiada por um querido Amigo, José Manuel Cunha, já também desaparecido. Foi então que conheci João Justino, nessa altura ainda não Comendador (essa distinção recebeu-a do Presidente Ramalho Eanes) mas já um grande industrial.

4. Com seus irmãos, todos nascidos duma Família humilde, ergueu uma grande indústria em S. João das Lampas, concelho de Sintra, bem conhecida pela marca dos equipamentos que fabrica – GALUCHO – nos quais se inclui toda a gama possível de alfaias agrícolas (de que são grandes exportadores), reboques e semi-reboques, bem como a carrossagem de veículos pesados.

5. Sempre me impressionou muito o seu extraordinário talento industrial – ele conhecia a potencialidade das máquinas pesadas utilizadas na sua indústria como ninguém, quase se podendo dizer que “falava com as máquinas” tal era o domínio que revelava das suas características e capacidade produtiva – bem como o seu não menor talento para fazer negócios, revelando uma enorme sabedoria e engenho para criar valor.

6. A sua capacidade de empreender foi responsável pela criação de milhares de postos de trabalho, não apenas na GALUCHO mas também noutras empresas industriais e comerciais que criou, por sua iniciativa pessoal ou associado a outros interesses, nomeadamente estrangeiros.

7. Sendo uma pessoa de feitio por vezes difícil e controverso – haverá algum grande empreendedor de feitio dócil? – conseguimos, sempre, entender-nos bem, tendo criado uma sólida amizade em que a independência recíproca foi certamente um factor-chave para a sua duração até ontem...e continuará.

8. A grande dor da sua vida foi a perda do Filho mais velho, também João, aos 24 anos, num brutal acidente de viação, em Janeiro de 1981, era já nessa altura o grande companheiro do Pai na direcção das empresas e na condução dos seus negócios, no País e no estrangeiro, estava ali outro grande industrial a formar-se...nunca mais recuperou dessa dor que o atormentou até ao fim da vida...

9. Paz à sua Alma.

Organizem-se, pá!...

Precisávamos de um socialista na União Europeia,  afirmou António Costa em entrevista na última edição do Expresso, referindo-se a alguém amigo do crescimento que, obviamente naquela cabeça, só poderia ser um socialista. 
Hollande exige a Valls um governo mais amigo da austeridade, dizem os jornais de hoje, a propósito da formação do novo governo francês.  
Vão-se lá entender estes socialistas!...Com tantas Internacionais, organizem-se, pá!...

sexta-feira, 22 de Agosto de 2014

Contas externas no 1º semestre de 2014: "charivari", não...mas atenção, certamente

1. Como seria expectável, a irmandade mediática que quase diariamente nos interpela , de forma explícita ou implícita, em favor de mais despesa (estatal, sobretudo) vem desde ontem chamado a atenção para o desequilíbrio das contas externas, pretendendo apresentar um cenário já negro e apontando, em 1º lugar, o agravamento do défice comercial...no plano da incoerência, o exercício é digno da maior admiração.

2. O assunto tem-nos merecido atenção, regularmente, de forma independente e tão objectiva quanto possível, em registo bem diverso do que é apanágio dos mediáticos apreciadores do folclore da despesa...o que nos propomos fazer em mais esta oportunidade.

3. A posição das contas externas no final de Junho/2014, ontem divulgada pelo BdeP, mostra um saldo negativo da Balança Corrente (BCr), de € 1.242 milhões, que supera largamente o saldo, também negativo mas de apenas € 46 milhões registado no 1º semestre de 2013.

4. A contrapor a este saldo negativo da BCr, há a registar um saldo positivo de Balança de Capital (BCp), de € 1.302 milhões, inferior ao registado em igual período de 2013 que havia sido de € 1.750 milhões, obtendo-se assim um saldo global, BCr+BCp, de - € 40 milhões ou seja virtualmente em equilíbrio (superavit de € 1.734 milhões no mesmo período de 2013).

5. Para este desempenho menos favorável em 2014, contribuíram os seguintes factores:

- Agravamento do défice (crónico) da Balança de Bens, que passou de € 2.948 milhões em 2013 para € 3.553 milhões em 2014 (+20,6%), resultado de um aumento de 3% das importações e de um aumento, bastante menos expressivo, apenas 0,8%, das exportações de bens;

- Estagnação do saldo positivo da Balança de Serviços, que passou de € 3.911 milhões em 2013 para € 3.901 milhões em 2014, quando se esperava uma melhoria apreciável...apesar do bom desempenho (esperado) da rubrica Viagens e Turismo, cujo saldo positivo aumentou de € 2.162 milhões em 2013 para € 2.456 milhões em 2014 (+13,6%);

- Variação desfavorável do saldo das Transferências Correntes, que passou de + € 1.972 milhões em 2013 para € 1.595 milhões em 2014, penalizado sobretudo pelas transferências (oficiais) da EU, que diminuíram € 336 milhões (as Remessas de Emigrantes continuaram a aumentar, embora uns modestos 2,6%).

6. Dito isto, resta acrescentar que, com elevada probabilidade e atendendo ao habitual comportamento intra-anual desta variáveis, deveremos assistir durante o 2º semestre a uma apreciável melhoria deste cenário, sendo muito provável a obtenção, no final do ano, de um saldo da BCr sensivelmente equilibrado e a um saldo global, BCr+BCp positivo, bastante superior a € 1.000 milhões, mas bastante inferior ao de 2013 (foi de € 4.293 milhões).

7. Em resumo e como já aqui tive oportunidade de relevar, não existe ainda razão para alarme, ao contrário do que o incoerente “charivari” mediático sugere...mas existe motivo para prestar contínua atenção a este indicador, posto que continua ser o melhor “benchmark” da capacidade de ajustamento revelada pela economia...

8...e uma séria inversão deste cenário poderá ser o barómetro de grande borrasca à vista...esperemos que o Dr. Pangloss não possa vir a incumbir-se, quiçá a orgulhar-se, dessa nobilitante tarefa...


quarta-feira, 20 de Agosto de 2014

Demagogia e ignorância só nos podem levar por maus caminhos....

Aproveitando o comentário que me suscitou o texto editado por Vasco Mina no Corta Fitas, a propósito dos factos, opiniões e críticas de que a semana passada foi pródiga em reacção ao chumbo da Contribuição de Sustentabilidade pelo Tribunal Constitucional, aqui fica mais este meu apontamento.  
De repente parece que toda a gente acordou para o problema da sustentabilidade das pensões, como se fosse uma criação recente. Assim como esta atenção subitamente apareceu, não admira que rapidamente desapareça. Até ver. Somos especialistas neste tipo de reacção.
A semana passada foi realmente uma corrida a ver quem ganhava mais trunfos políticos. A verdade é que não há vencedores, só vencidos, incluindo o país. Não vale a pena iludir os problemas, é necessário repensar o modelo de pensões e o seu financiamento. Estamos a avolumar um problema grave, negando a sua existência.
Mas também não é com CES e CS que compramos a sustentabilidade financeira do sistema. E, depois, tão ou mais importante é assegurar a sustentabilidade social, aspecto que parece estar esquecido na mente daqueles que acham que é solução ir cortando à medida que o orçamento precisa de ser contido. E que dizer da adequação do rendimento das pensões na reforma? 
Uma reforma do sistema público de pensões necessita de uma base alargada de apoio social, o que significa uma base política representativa. Estamos "condenados" a nos entendermos. A política de cortes avulsos não é politicamente sustentável e a política de medidas paramétricas está esgotada. A confiança é a base de sustentação de qualquer contrato social. É neste objectivo que os partidos do arco da governação se devem centrar. Jogar com a demagogia e a ignorância já sabemos ao que conduz...

Juros da dívida pública cada vez mais baixos: será para durar?

1. Foi hoje notícia uma emissão de Bilhetes do Tesouro Português, a 3 e a 12 meses, com o seguinte resultado:

- A 3 meses, emissão de € 300 milhões, taxa de juro média anual de 0,097%;

- A 12 meses, emissão de € 800 milhões, taxa de juro média de 0,216%.

2. Ao mesmo tempo, as taxas de juro implícitas na cotação da dívida pública portuguesa no mercado secundário (yields), davam hoje as seguintes indicações: para 2 anos 0,655%; para 5 anos, 1,855%; para 10 anos 3,288%.

3. É necessário recuar até aos primórdios da memorável aventura socrática para se encontrarem yields tão baixas para os diferentes prazos da dívida, para não falar nas taxas da emissão de BT’s, que são “historicamente” baixas...

4. Nem a notícia de um razoável agravamento do défice comercial até Junho (+20%), divulgada com grande fervor por uma boa parte da mesma irmandade mediática que passa o tempo a entoar mensagens que conduziriam invariavelmente a um aumento da despesa interna e a um agravamento ainda maior desse mesmo défice, causou qualquer impacto nos mercados, que aliás sabem que o défice externo não se restringe à componente comercial...

5...sendo que o efeito do tsunami BES sobre a disposição dos investidores neste tipo de activos se mostra em grande parte absorvido, não parecendo capaz de, por agora pelo menos, causar danos maiores do que os já conhecidos...

6. ...e a jurisprudência do TC, com as suas curiosíssimas nuances temporais – a prolação de uma jurisprudência “forward” será talvez o aspecto mais curioso e inovador a registar, desta vez – não parece ter causado nenhuma reacção especialmente emocionada, vide os comentários amenos das agências de rating sobre a matéria.

7. A grande questão que se poderá colocar será a de saber por quanto tempo mais iremos beneficiar desta bonança nos mercados da dívida, que é aliás extensiva aos demais periféricos do Euro - basta notar que a yield da dívida a 10 anos da Irlanda se encontra no nível quase incrível de 2% ...

8. ...quanto mais tempo durar melhor será (me perdoem os Crescimentistas, que sofrem horrores com este cenário), mas é certo e sabido que acabaremos por chegar a um ponto, quiçá pelo 2º semestre de 2015 ( se não for antes, como lembraria Mr. de La Palisse) em que o mercado pode resolver mudar de disposição...

8. Aqui ocorre aplicar o velhíssimo provérbio: “enquanto o pau vai e vem...folgam as costas!



segunda-feira, 18 de Agosto de 2014

Renascimento dos Certificados de Aforro: já não era sem tempo...

1. Nos últimos anos da gloriosa era socrática, de boa memória, deixei aqui diversos apontamentos para a morte anunciada dos Certificados de Aforro (CA’s), o mais tradicional instrumento de poupança dos particulares em Portugal, em consequência das alterações introduzidas na sua remuneração em 2008, que penalizaram retroactivamente muitos aforradores.

2. Diversos outros comentadores se referiram então ao tema, estranhando a política adoptada pelo Governo de então, que tinha como resultado diminuir o financiamento do Estado por residentes, substituindo-o por financiamento externo a custos mais elevados e com um risco muito maior (como viria a demonstrar-se não muito tempo depois...).

3. A estas críticas viria a responder publicamente o membro do Governo responsável pelo pelouro da dívida pública (SET), com o estranho argumento de que não era papel do Estado bonificar as poupanças dos aforradores residentes...

4. ...devendo pois deduzir-se, “a contrario”, que o papel do Estado seria sim o de bonificar os juros recebidos pelos financiadores externos , aceitando pagar a estes um juro bem mais elevado - em troco de um financiamento de maior risco para o emitente!

5. Cumpre referir que, em resultado da política em questão – que para além de reduzir as taxas aplicáveis ao investimento em CA’S foi ao ponto de penalizar retroactivamente os detentores de CA’s já emitidos – o saldo vivo de CA’s entrou num processo de declínio inexorável, com pedidos de resgates sucessivos de milhares de aforradores que se sentiram enganados...

6. ...passando de um pico de € 18.186 milhões em Janeiro de 2008 para € 16.824 milhões no final de 2009, € 15.471 milhões no final de 2010, € 11.384 milhões no final de 2011, € 9.669 milhões no final de 2012...

7. ...e começando a recuperar só em 2013, em cujo final o saldo vivo de CA’s ascendia a € 10.132 milhões, continuando a subir no corrente ano, atingindo € 10.856 milhões em Junho último.

8. Entretanto foi criado em 2010 um novo instrumento de dívida pública também direccionado aos particulares, os Certificados do Tesouro (CT’s), de mais longo prazo, mas que tardaria a suscitar um interesse significativo: de um saldo de € 685 milhões no final de 2010 (ano em que o saldo de CA’s caiu € 1.353 milhões), passaria a € 1.308 milhões no final de 2011, a € 1.416 milhões no final de 2012 e a € 2.026 milhões no final de 2013...

9. ...acelerando claramente no 1º semestre de 2014, fechando no final de Junho com um saldo de € 3.151 milhões – ou seja, só no 1º semestre de 2014 as aplicações em CT’s aumentaram € 1.125 milhões, quase o dobro do valor acumulado em todo o ano 2013...

10. Saúda-se esta mudança de política de emissão de dívida pública - que apesar de tudo demorou quase dois anos a adoptar, após a entrada em funções do novo Governo - permitindo substituir dívida externa de custo mais elevado e de comportamento bem mais volátil, por dívida interna...agora consegue-se perceber.

sexta-feira, 15 de Agosto de 2014

Um quinze de agosto à "Benfica"...


Abalei já um pouco tarde, mas mesmo assim a tempo de chegar a horas de almoçar a Pinhel. Nunca lá tinha ido. Não suporto a ideia de não conhecer todos os recantos possíveis deste país, pela simples razão de que encontro sempre a beleza, a arte, a história, os costumes e a simpatia dos residentes. Viajar neste país é o acontecimento mais deslumbrante que posso desejar. Esbarro em paisagens únicas, vivas, constantemente a mudar de aspeto, de brilho, de cor, de sentimentos e de silêncios doces entremeados com romarias esplendorosas. Ao final do dia tenho de rememorar os acontecimentos vividos e despertados. São tantos que nem sei escolher. Emerge nas pontas dos meus dedos o brilho dos rebordos de paisagens a perderem-se em misteriosos horizontes, as formas do granito das montanhas, a suavidade colorida dos xistos, os vales perdidos e mudos de águas frescas e sedosas, a arte distribuída ao acaso em vilas e cidades, muitas delas esquecidas, e a frescura de objetos, esculturas, lembranças e manifestações artísticas de uma riqueza e beleza imparáveis a que se associam acontecimentos históricos capazes de encher as páginas vazias de um coração ansioso.
Vi Pinhel e apaixonei-me pela sua arquitetura e história. Saltei até Castelo Rodrigo e quase que me apeteceu ali ficar entre as muralhas, correr pelas ruelas e vielas e descobrir o mundo oculto que emprenhou todo aquele granito ao longo dos tempos e que anseia por nascer ao menor anseio de um forasteiro.
Recordo ter chegado a Pinhel à hora do almoço. Tentei encontrar um restaurante. Encontrei um, mas pelos andar da carruagem vi que não iria sair tão cedo. Calcorreei algumas ruas, mas dia santo é isso mesmo, santo para a alma e, também, infelizmente, para o corpo. E agora? Como vou descalçar a bota e encher a pança? Passei em frente da casa do Benfica em Pinhel e vi pessoas a almoçar. Com cautela, enfiei a cabeça e perguntei ao rapaz se ali forneciam almoços. - Sim senhor, e come-se bem. - Ai sim? Então podemos entrar? O rapaz sorriu e disse: - Claro! Provavelmente não deverá ter percebido a razão da minha pergunta. Sendo a casa do Benfica, o vermelho imperava por tudo o que se possa imaginar, além de águias, vi emblemas, camisas, apetrechos adequados e, até, a lembrar o velho estilo do Estado Novo, fotografias em pose do atual e do anterior presidente do Benfica, tive algum receio que me dissessem que só os sócios ou adeptos é que podiam almoçar naquele "santuário" gastronómico. Qual quê! Não perguntaram nada, arranjaram-nos de imediato uma mesa. As meninas, simpáticas e muito prestáveis, denotando a sua fé benfiquista, bem visível nas roupas, serviram-nos uma refeição muito agradável num curtíssimo espaço de tempo. Não me recordo de ter sido tão bem servido e atendido. Comentei: - Nunca na minha vida pensei almoçar numa casa do Benfica. Seria o bom e o bonito se os meus amigos soubessem disto. Às tantas até eram capazes de dizerem que eu sou um "apóstata"! Entretanto, numa mesa ao lado, ouvia algumas conversas, até que um, sentado na mesa do meu lado esquerdo comentou para o que estava na mesa em frente: - Então! Tu estás aqui? A surpresa era mais do que evidente, facto que me levou a concluir que não deveria, com toda a certeza, ser benfiquista. Não se desmanchou, e como já tinha terminado a refeição, ia a sair, disse ao conhecido: - O que é que tu queres? Aos feriados está tudo fechado! - Pois é. Mas aqui a casa do Benfica não fecha e alimenta todos os que têm fome. O sorriso irónico brotou-lhe dos lábios e dos olhos, enquanto o "não-benfiquista" saía apressadamente. 
Agora, quando souberem esta história, estou tramado. Não importa, o que merece ser realçado é a simpatia e a forma acolhedora como fomos tratados. Há muito que não tinha uma demonstração gastronómica de tal gabarito. Confesso que já tinha preparada a resposta, caso fosse inquirido sobre a minha preferência clubística: - Não. Não sou do Benfica, mas a minha mulher é...
A beleza espraia-se por tudo o que é sítio neste país, sobretudo na paisagem humana.
Viajar em Portugal é saborear de forma inesquecível a vida.

quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

Síndrome de Jerusalém

Descia as escadas conjuntamente com mais dois colegas, um israelita de origem americana, que se borrifava para a religião, e um polaco, católico até à medula. Sábado de manhã. O dia estava muito quente. Apetrechámo-nos, a conselho do colega judeu, de água e deliciosas uvas. Descíamos a escada quando o polaco, de máquina fotográfica ao pescoço, começou a tirar fotografias ao muro das lamentações. O que foste fazer. Uma senhora, que vinha em sentido contrário, começou a barafustar, e penso que a insultá-lo, por causa disso. Falava hebraico. O nosso colega explicou-nos que nós não podíamos tirar fotografias ao muro das lamentações porque era o dia sagrado. Defendeu o polaco, e, ao bom estilo de um típico cowboy norte-americano, quase que a mandou para o outro lado, dizendo ao nosso colega que não ligasse àquela parvoíce, e que tirasse as fotografias que quisesse. Eu, que não tenho o hábito de andar com máquinas ao pescoço, levava a minha ao ombro descaída para as costas,  disse-lhe para a esconder e respeitar aquele pessoal que vive e se alimenta do mais perigoso do fundamentalismo, o religioso. Concordou e enfiou-a dentro do saco de plástico onde tinha as uvas. É melhor assim. O israelita-americano riu-se do meu conselho enquanto ia lançando para o ar gordas uvas as quais mastigava com um prazer indiscutível, indiferente ao "conflito" religioso. Passámos junto ao muro, onde tivemos que enfiar o "kipá" de papel e ali ficámos um pouco vendo aquela cena de baixar e levantar a cabeça vezes sem conta. Por vezes cheguei a ficar com receio de que partissem a cabeça no muro. Uma coisa tive a certeza, não sofriam de cervicoalgias! Continuámos a nossa peregrinação e entrámos no setor muçulmano. Aí foi mais complicado. Fui revistado e entrevistado por dois soldados fortemente armados. Quando olharam para o passaporte e me perguntaram o apelido mudaram de atitude e tornaram-se mais cordiais. Fiquei espantado. Tentaram pronunciar o apelido Cardoso e repetiram duas ou três vezes, agora com simpatia e deixaram-nos a entrar no recinto das mesquitas. O judeu norte-americano riu-se e explicou-me que o meu nome tinha "Cardo" o que para os judeus tem algo de simbólico, correspondendo à via principal do coração de Jerusalém, que ainda se pode ver no seu quarteirão da cidade velha.
O episódio que mais me marcou foi na esplanada das mesquitas. À entrada do local de onde Maomé subiu ao céu fui impedido de entrar com a máquina fotográfica e a bolsa onde tinha os meus documentos e dinheiro. O vigilante, árabe, disse-me que tinha de colocar tudo num cacifo livre em frente da mesquita, sapatos, bolsa e máquina. Olhei-o perplexo e um pouco incomodado sem saber o que fazer, mas o árabe, apercebendo-se da minha inquietação, disse o seguinte: - Não tenha medo. Árabe é ladrão mas não rouba em solo sagrado. Nunca largou o seu sorriso, profundo, estranho e enigmático aos olhos de um ocidental. Entrei e andei sempre a pensar no que teria de fazer quando saísse dali e não encontrasse os meus pertences. Continuei a olhar para o colega israelita que não mostrou o menor sinal de incómodo. Se ele não diz nada é porque vai correr bem. Ainda lhe perguntei se era para ter receio, respondeu-me com um levantar dos ombros, com os árabes nunca se sabe. Valha-me Deus, pensei. E já que estava num local onde havia "três", qualquer um já me servia. Quando saí, estava tudo no seu lugar. O árabe, de olhar estranho e enigmático, reconheceu-me, e ao longe fez-me a sua tradicional saudação não largando aquele sorriso que nunca mais esqueci. Estava assim terminada a minha visita à mesquita onde muitos homens faziam exercícios, sentados nas pernas, debruçavam-se e abriam as mãos ao alto. Pensei, estes não devem sofrer de lombalgias. 
Quando chegámos ao setor cristão as coisas foram diferentes. A igreja do Santo Sepulcro não me surpreendeu como estava à espera. Desorganizada e escura. Subitamente, um religioso, não sei de que seita cristã, barbudo e com cara de poucos amigos, pôs-se a discutir e por pouco não andava à pancada com outro padre ou monge cristão de outra seita. Olhei estupefacto para o meu colega judeu não praticante e apontei-lhe a cena. Deu uma gargalhada, que seria impensável a um cristão num templo sagrado, e respondeu-me, não ligues é comum estes tipos andarem à pancada e a fazerem cenas por causa dos seus "territórios". Valha-me Deus, pensei, onde fui cair. Estes devem sofrer de algias e hematomas pós traumáticos.
Um local de três religiões, que explica, e bem, a intolerância social e até uma certa agressividade. Em vez de ser um local sagrado, capaz de unir a humanidade, não é mais do que um epicentro vivo que alimenta o radicalismo e muitos comportamentos sociais que grassam, infelizmente, por esse mundo.
Discutimos este e muitos outros assuntos, nomeadamente a famosa síndrome de Jerusalém. Felizmente não fui atingido, mas as explicações são deveras interessantes.

2º trim/2014: Espanha e Portugal com melhor desempenho na zona Euro...quem diria...

1. Dados hoje divulgados pelo Eurostat para o 2º trimestre deste ano mostram que as economias de Espanha e de Portugal exibiram o melhor desempenho na zona Euro, com uma variação trimestral do PIB de +0,6%.

2. No caso português, esta variação de +0,6% segue-se a uma variação da mesma expressão mas de sinal contrário no 1º trimestre, embora, em comparação homóloga, se traduza numa desaceleração: enquanto no 1º trimestre a variação homóloga havia sido de +1,3%, agora foi apenas de 0,8%...

3. Não deixa de ser curioso notar que dois dos chamados “maus da fita” da zona Euro, nos últimos anos, apareçam agora à cabeça do pelotão do crescimento, numa altura em que as principais economias da mesma zona, Alemanha e Itália com -0,2% e França com 0,0%, dão sinais de abrandamento da actividade.

4. Este apontamento de curiosidade não dá espaço, todavia, para qualquer manifestação de “embandeiramento em arco” no caso português em especial, pois as incógnitas quanto ao desempenho económico na segunda metade do ano são mais que muitas...

5. ...a somar aos presumíveis impactos sobre a actividade dos problemas geo-políticos, teremos, no plano doméstico, as sequelas do “tsunami” BES, cuja dimensão, ainda por apurar, pode vir a desfigurar, um bom pedaço, o “snapshot” estatístico...

6. Concluiremos assim, contra as expectativas dos estimados Crescimentistas – para quem, é bom lembrar, qualquer melhoria da actividade económica, em plena vigência de políticas neo-liberais, constituirá um cenário misterioso e dantesco – que a primeira metade do ano acabou por não ser má...

7. ... cumprindo destacar a acentuada redução dos níveis de desemprego que, segundo a informação mais recente se situa já abaixo de 14% da população activa, depois do pico de 17,7% atingido no 1º trimestre de 2013...

8. Mas o 1º semestre já é história, temos agora de aguardar pelo enigmático 3º trimestre, que pode muito bem vir a recompor o ânimo dos Crescimentistas...

terça-feira, 12 de Agosto de 2014

Mudança de paradigma nas pensões...

Refere o Tribunal de Contas no Relatório "Acompanhamento da Execução do Orçamento da Segurança Social", hoje conhecido, que Durante o período de vigência do PAEF (2011 –2013), a despesa com pensões e complementos da SS foi sendo objeto de um conjunto de medidas de natureza regressiva com o objetivo de colocar e manter esta despesa num contexto estrutural sustentável. Porém, a rigidez do sistema e da estrutura social que o sustenta, com uma camada populacional envelhecida relevante e a precaridade das medidas aplicadas, mais centradas no objetivo de curto prazo, constituíram fatores determinantes para que esta despesa não regredisse de forma consistente e continuada (...).
Com efeito, as várias medidas de restrição financeira aplicadas sobre as pensões, designadamente, os cortes nas pensões e o congelamento da actualização das pensões não estancaram o aumento da despesa com pensões dos regimes contributivos. O Tribunal fala em precariedade das medidas e na sua incapacidade de colocar a despesa num "contexto estrutural sustentável". A despesa com pensões vai continuar debaixo da pressão do aumento crescente do número de pensionsistas e do valor nominal médio das novas pensões e, também, do aumento da esperança média de vida na velhice. A despesa com pensões tenderá a aumentar. A receita das contribuições para segurança social (TSU)  tenderá a ser insuficiente, por razões demográficas e económicas, para assegurar o financiamento das pensões. As previsões de médio e longo prazo da conta das pensões da Segurança Social indicam a persistência de défices financeiros. 
Posto isto, é necessário retirar as devidas consequências. Os cortes e os congelamentos adoptados tiveram uma função orçamental, isto é, de resolver problemas de tesouraria de curto prazo. Estas medidas não tiveram um objectivo estrutural, isto é, de conferir sustentabilidade ao sistema público de pensões. A sustentabilidade só será possível, e levará muitos anos a produzir efeitos, com uma reforma estrutural. Os problemas tenderão a agravar-se se não for alterada a lógica do actual sistema de pensões. Não adianta o Estado continuar a prometer às gerações futuras pensões que não tem como pagar. A política de cortes avulsos à medida das necessidades orçamentais não é desejável, é injusta, cria iniquidades e introduz incerteza e elevados riscos. Não há contrato social e contrato de confiança que resistam a este caminho.
Mas para o aumento da despesa com pensões concorre, também, a despesa com pensões sociais e complementos sociais. Estas prestações com fins redistributivos, financiadas pelos impostos, deveriam ser criteriosamente concedidas, fazendo depender a sua atribuição da verificação da situação económica dos beneficiários. A Segurança Social não está a aplicar uma "condição de recursos", sem a qual não é assegurada a boa utilização dos recursos públicos. Como se compreende está, também, em causa uma questão de justiça social. 
Vamos continuar a insistir nos mesmos problemas e na incapacidade para fazer mudanças? Onde é que está a  vontade de fazer diferente?

Santa Apolónia



Rumei em direção a Braga para rever o que já tinha esquecido. Entrei na velha sé e fiquei novamente deslumbrado. Num dos altares laterais, três imagens, que descansavam ao pé de um Sagrado Coração de Jesus, chamaram-me a atenção, uma Rainha Santa, empunhando uma rosa, um São Brás e uma lindíssima Santa Apolónia. As três estatuetas despertaram-me lembranças e algumas emoções. A primeira é a santa padroeira do pessoal feminino da casa, já lá vem de trás a eito. O São Brás comemora-se no dia em que a minha mãe fazia anos e era o seu santo preferido. Volta e não volta apelava ao santo, sobretudo quando adoecia da garganta e dos ouvidos, coisas frequentes da minha infância. Fiquei a conhecê-lo desde muito cedo. Além disso comecei a simpatizar com ele por causa do meu colega de carteira, que se chamava Brás, e sofria de escrófulas horríveis no pescoço que exalavam um pus cremoso e mal cheiroso. Ainda lhe cheguei a perguntar se a mãe não ia em peregrinação ao São Brás por causa disso. Mais tarde é que compreendi a razão, sofria de tuberculose ganglionar. A terceira santa associei-a sempre a Lisboa, à estação dos caminhos de ferro. Adorava ir a Lisboa, ou melhor, o meu pai dizia que ia a Lisboa e eu dizia que ia a Santa Apolónia. Adorava fazer a longa viagem, de muitas horas, e desembarcar naquela gare cheia de movimento e de rituais enquadrados pela beleza arquitectónica que o fumo das locomotivas não conseguia esconder. Por outro lado, para mim era o fim da linha. E ficava satisfeito por saber que a linha terminava ali! Esta estação sempre me seduziu, embora o comportamento dos taxistas me incomodasse. Invariavelmente o chauffeur perguntava, vêm da província? A forma como fazia a pergunta irritava-me solenemente. Até que uma das vezes, já era um terço espigadote, lhe retruquei, não, não vimos da província, vimos de Santa Comba Dão. Sabe onde fica? Quando lhe disse de onde vinha, o senhor encolheu-se, fez o sinal de descobrir a cabeça, que, entretanto, baixara, e disse, vêm da terra do Senhor Presidente do Conselho? Sim, desse provinciano. Provinciano não, o Senhor Presidente não é provinciano Disse com uma voz reverente o taxista. Então se ele não é provinciano, por que razão devemos ser nós? Uma canelada à maneira obrigou-me a interromper o diálogo. E o senhor chauffeur, com sotaque e tiques à lisboeta, a querer substituir as origens rurais, levou-nos num ápice ao destino. 
Hoje, continuo a gostar da estação de Santa Apolónia, sobretudo quando regresso a casa, mas nem por isso deixo de pensar os muitos episódios que ali vi e vivi. Se soubesse na altura que a Santa Apolónia é a protetora dos dentistas, talvez não ficasse muito contente com o seu nome, já que fui um desgraçado com os dentes e com as torturas tipo inquisição a que fui sujeito. Um trauma que não esqueço. 
Ao sair da Sé tropecei num mendigo ajoelhado, e com notórias dificuldades físicas, a tocar o hino de alegria com uma flauta. Apesar da simplicidade o quadro emocionou-me. Tocar o hino de alegria num país triste e ainda por cima por um ser humano que deve desconhecer o significado dessa palavra mais triste fiquei.
Nas lojas em redor a santaria já não é o que era. Pobre, feia e sem qualidade a contrastar com as velhas obras. Um pobreza triste. Mesmo assim, numa vitrina de uma loja vi uma bela Santa Apolónia. Muito diferente das demais, diferente na matéria, madeira almofadada, e no trabalho artístico. Aquilo sim, era verdadeira arte sacra. Perguntei o preço. Obviamente proporcional à qualidade. É a última peça de madeira e a última que o artista fez. Pois, o preço... O senhor olhou-me e viu o meu interesse na peça. Fez um desconto imprevisível e eu nem hesitei. Acabei por adquirir uma Santa Apolónia capaz de fazer inveja à que está na Sé de Braga. Pensei, é a minha loucura de verão. No regresso, o mendigo continuava a tocar a flauta penosamente. Compensei-o. Olhou e disse palavras simpáticas e profundas, mas mais profundas do que as palavras foi o seu olhar, claro, brilhante, intenso a irradiar um pouco de felicidade. Terminou a sua atuação naquele momento. A Santa Apolónia, embrulhada à maneira, não viu, mas ouviu e sentiu.
Como hoje é o dia de anos do meu filho mais novo, que é médico-dentista, ficou desde já destinada a santa, mas só a leva depois de eu desaparecer....   

"Sistema financeiro nunca esteve tão frágil"...!!!

1. É sabido que a generalidade dos actores políticos evidencia um insaciável e específico apetite pela proclamação, em público, das mensagens mais bombásticas, sempre com o objectivo final de encontrar o máximo eco mediático...

2. E é proverbial a ausência de conteúdo útil e/ou de sensatez de tais mensagens: uma regra de ouro desse estranho jogo consiste, aliás, em garantir que, quanto menos sensatas forem essas mensagens, maior será o eco mediático que lhes é oferecido...

3. Vem isto a propósito da formidável declaração que dá o título a este Post, a qual terá sido ontem proferida por um conhecido político, com uma carreira de empresário de mérito, agora regressado a lides partidárias...

4. Esta declaração parece lograr o feito de, em matéria de falta de senso e também de falta de memória, ultrapassar tudo ou quase tudo o que a musa política, antiga e actual, tem sido capaz de cantar...

5. Com efeito, se houve momento da vida nacional em que o sistema financeiro esteve mesmo encostado ao precipício e à beira de uma implosão global, esse foi Abril/Maio de 2011: com mais um mês de demora no início da operação de resgate financeiro (ou seja da ajuda da Troika agora tão diabolizada), teríamos tanto o Estado como o sistema financeiro - o BES e tudo o mais - arrastados para uma situação de cessação de pagamentos, num cenário de contornos catastróficos...

6. Sem prejuízo de reconhecer, mais uma vez, a extrema gravidade, em todos os seus aspectos, da implosão do BES (que já apelidei em público de apocalíptica), chegar ao ponto de considerar que a actual situação do sistema financeiro, no seu conjunto, nunca esteve tão frágil - ou seja está mais frágil do que em Abril/Maio de 2011 - é algo que esgota qualquer capacidade judicativa...

7. Não deixa de ser curioso que no mesmo dia em que esta declaração é notícia, surge a informação de que a responsabilidade do sistema bancário nacional junto do BCE atingiu o mais baixo nível desde Maio de 2010 - e sem considerar ainda a redução excepcional da responsabilidade do BES, entretanto divulgada...

8. Para fazer política deste jeito, mais vale não fazer política nenhuma, o País agradeceria...

sexta-feira, 8 de Agosto de 2014

Caso BES: um erro (ainda) evitável...

1. Estão ao rubro, desenvolvem-se em catadupa, os comentários de políticos e de habituais “opinion-makers”, orais e escritos, sobre este episódio de “Costa Concordia” financeiro: esses comentários apresentam algumas características comuns, nomeadamente serem extraordinariamente esclarecedores e oferecerem soluções óptimas embora fora do tempo útil para as aplicar...

2. Não vou por isso acrescentar o que quer que seja a esses comentários, até porque entendo que já não existe espaço para novas opiniões, o espaço opinativo encontra-se saturado: seja o que for que se diga já alguém antes disse algo exactamente igual ou muito semelhante.

3. Faço uma excepção para referir que já tive oportunidade, em público, de emitir um juízo bastante positivo à forma como o Gov do BdeP actuou neste pavoroso sinistro e, à medida que os dias passam e as informações sobre as características do sinistro se vão acumulando, só encontro razões para reforçar essa avaliação.

4. Neste breve apontamento interessa-me antes focar um ponto que reputo de grande importância prática e ao qual não me parece que esteja a ser dada a atenção devida – a cotação em bolsa dos títulos representativos da propriedade do ex-BES agora denominado “bad bank” (very bad, acrescentarei).

5. Foi anunciado o cancelamento da cotação das acções, o que com o devido respeito me parece um erro a não ser que tal cancelamento se mantenha apenas por um período transitório, necessariamente curto, para permitir organizar outra solução de mercado.

6. A cotação em bolsa dos títulos representativos do capital do “bad bank” constituiria para os muitos investidores que se encontram na triste posição de “pagarem pelo pecador” - especialmente os pequenos accionistas que nunca tiveram qualquer espécie de influência na gestão - um lenitivo, permitindo-lhes transformar em liquidez uma parte ou a totalidade do investimento que vierem a deter na nova entidade...

7. Se, por hipótese, o dito “bad bank” vier a ser transformado num Fundo de Investimento, o que talvez seja uma solução prática, então as unidades de participação nesse Fundo deveriam ser admitidas á cotação o mais rapidamente possível...

8. ...recordo que as obrigações subordinadas que foram emitidas pelo ex-BES, agora “alocadas” ao “bad-bank”, continuam cotadas em bolsa e, há 2 ou 3 dias, cotavam a 20% do seu valor nominal o que traduz uma expectativa do mercado em relação à possibilidade de recuperação dos investimentos no mesmo “bad-bank”.

9. Soluções predominantemente burocráticas e opacas, sobretudo nas actuais circunstâncias em que o mercado parece estar a digerir com muita dificuldade a solução encontrada, é tudo o que menos se recomenda...

terça-feira, 5 de Agosto de 2014

Finalmente boas notícas...mas...

1. Depois de alguns dias de sufoco noticioso dominado quase integralmente pela lamentável novela que culminou na implosão do modelo de negócio do ex-BES, eis que surgem notícias que poderão dar algum alento aos veraneantes...

2. Em primeiro lugar, a continuação de um forte crescimento das vendas de automóveis, que em Julho registaram subida de 33,5% em relação ao mesmo mês de 2013, confirmando a melhor disposição dos consumidores já referida no último Post aqui editado...

3. Agora (hoje) surge a notícia, divulgada pelo INE, de mais uma descida da taxa de desemprego, neste caso a taxa média do 2º trimestre de 2014, para 13,9%, a quinta descida trimestral sucessiva e um valor já distante do “record” de 17,7% atingido no 1º trimestre de 2013...também o mais baixo registo desde o 4º trimestre de 2011...

4. Curiosamente, no afã de desvalorizar esta descida do desemprego, alguns comentadores tentam explica-la por um efeito sazonal – os empregos gerados pela aproximação do Verão – como se em 2013 e anos anteriores não tivesse havido também Verão...

5. Em contraponto, não desvalorizemos o impacto negativo da lamentável novela BES no desempenho da economia, que será provavelmente relevante, não apenas mas também no PIB do 2º ou 3º trimestres...

http://blasfemias.net/